“Porto de lenha, tu nunca serás Liverpool com uma cara sardenta e olhos azuis”.
(Torrinho e Aldísio Filgueiras. 1986)
Qualquer amazonense, quando olha um espelho, vê do outro lado a imagem de um caboco. Nós somos todos cabocos. Assim mesmo, sem o “l”, como a gente fala. A nossa impressão digital traz a marca inconfundível do caboco. Na nossa carteira de identidade coletiva está escrito: caboco definido como “tapuio ou seu mestiço” no Glossário Paraense de Vicente Chermont de Miranda. Lá, nessa “Coleção de Vocábulos Peculiares à Amazônia”, publicada em 1900, o autor afirma que “caboclo” é todo aquele que trocou o Nheengatu materno pela variedade do idioma português regional.
A nossa caboquice ou caboclitude não depende da cor da pele, dos olhos e dos cabelos, como se pode acreditar superficialmente. Ela está assegurada muito mais pelos aspectos da herança cultural que recebemos do que propriamente pelos traços físicos transmitidos geneticamente pelos nossos avós.
Os filhos de imigrantes portugueses, espanhóis, turcos, sírios, libaneses ou os descendentes dos arigós nordestinos que aqui chegaram no período da borracha são todos cabocos. Mesmo se têm cabelos louros, cara sardenta e olhos azuis jamais serão Liverpool. Ainda bem. E isto porque eles comem e falam como caboco. Choram e riem como caboco. Dormem caboco e acordam caboco.
Caboco é este nosso jeitão de ser e de olhar o mundo, resultado de um processo conflitivo e doloroso, do choque entre a cultura do colonizador português — que trouxe sua língua, seu sistema de trabalho e suas relações sociais — e as culturas indígenas que acumularam um saber milenar sobre a região, assim como as culturas de matriz africana. O papel da mestiçagem na formação do povo brasileiro e a questão da identidade foram analisadas por Antônio Risério em seu livro Mestiçagem, Identidade, Liberdade (2024).
O pacu dissimulado
Dicionário Tocantinense (2002) de Liberato Póvoa registra os verbetes caboclo ou caboco como “índio ou descendente de índio”. Mas existem amazonenses que morrem de vergonha de assumir a sua alma caboca, procurando esmagar nela tudo aquilo que têm de indígena. São os chamados “cabocos de alma branca”. Alguns deles chegaram até a ser representantes do Amazonas no Congresso Nacional.
O Átila Lins (PFL — viche! viche!) e o Euler Ribeiro (PMDB — viche!) são dois exemplos típicos de “cabocos de alma branca”. Escondem-se quando querem comer jaraqui ou pacu.
Mandaram tirar a farinheira da mesa para não dar bandeira para as visitas. De vez em quando desovam notinhas nas colunas sociais, informando que almoçaram estrogonofe e jantaram peru à Califórnia. A única concessão regional que eles fazem é para a tartaruga — e olhe lá! — só porque está proibido e querem desafiar o Ibama, para demonstrar poder.
Nunca ninguém viu uma confissão pública do Átila Lins:
- “Eu como pacu assado¨. Ou do Euler: “Eu adoro jaraqui frito”.
Justamente por se sentirem envergonhados de serem cabocos é que Átila Lins e Euler Ribeiro votam sempre no Congresso Nacional contra os interesses históricos dos povos indígenas. Fazem discursos inflamados contra o direito constitucional desses povos sobre seus territórios. Estrangulam os índios que ainda sobrevivem e resistem, para dessa forma matarem o índio que existe dentro deles.
Outro que, há muito tempo, liquidou sua identidade indígena foi o governador Amazonino Mendes, um cabocão de Eirunepé, que procura lavar diariamente sua alma com Omo. Para consumo interno, a fim de obter dividendos eleitorais, Amazonino finge estar orgulhoso de ser do rio Juruá. No entanto, assim como Átila e Euler, não perde uma oportunidade de manifestar o seu desprezo pelos povos indígenas e pelas populações cabocas.
Alma suja
Há poucos dias, Amazonino Mendes abriu a V Convenção Nacional da Associação dos Diplomados na Escola Superior de Guerra (Adesg), no Auditório Rio Solimões do Tropical Hotel, com um discurso repleto de críticas contundentes ao projeto de demarcação de áreas indígenas, defendendo a necessidade de sua reformulação.
Amazonino, “um cabocão de alma branca” – alguns dizem que é suja - atacou o Parque Ianomami, argumentando que ele ocupa atualmente “uma área do tamanho de Portugal e impede o “desenvolvimento econômico de Roraima, um Estado novo e rico no aspecto mineral”.
O governador não disse uma só palavra sobre a situação de milhões de brasileiros sem-terra e sobre a concentração de latifúndios em poucas mãos. Nada falou sobre os latifundiários que usam a terra como mercadoria para especulação no mercado, e não para produzir riqueza. Não mencionou os dados oficiais que mostram que apenas 1% dos proprietários rurais do Brasil dominam 44% das terras — área equivalente à soma dos territórios de Portugal, Suíça e Holanda. Mas atacou os índios.
Segundo Amazonino, “o índio é um problema para a região”.
A visão preconceituosa e interesseira do governador merece uma crítica severa e um repúdio veemente de todos aqueles comprometidos com o processo cultural da Amazônia.
Com a palavra, os senhores conselheiros do Conselho Estadual de Cultura.
Referências:
- Vicente Chermont de Miranda: Glossário Paraense: Coleção de Vocábulos Peculiares à Amazônia e Especialmente à Ilha do Marajó. 1900 (1ª edição) 1968 (2ª edição). Belém. Universidade Federal do Pará.
- Liberato Póvoa. Dicionário Tocantinense de Termos e Expressões Afins. Goiânia. Kelps. 2002
- Antônio Risério. Mestiçagem, Identidade, Liberdade. Rio. Topbooks.2024
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