– “Quem? Quem? Quem? Quem, meu Deus?”
Esse quem-quem-quem que você acaba de ouvir, leitor (a), não é o protesto de um pato rouco. Nem o canto solitário de um jacamim ferido. Pato e jacamim não pecam contra o segundo mandamento. Esta é a voz do governador Amazonino Mendes, gravada por um microfone oculto embaixo da mesa de dominó de sua casa. Desta forma, a coluna Taqui Pra Ti conseguiu revelar todos os bastidores da exoneração do médico Jesus Pinheiro da Secretaria de Saúde.
É a vigésima terceira hora. Jesus já foi crucificado, morto e sepultado. Amazonino procura desesperadamente – Quem? Quem? Quem, meu Deus? – um substituto para o cargo de Superintendente de Saúde, enquanto joga dominó. Ele e Samuel Hanan enfrentam a dupla Alfredo Nascimento e seu amigo de infância Pedro Teixeira. Hanan é vice-governador, foi presidente da Brascan canadense, da Paranapanema S.A e da British Petroleum. Ele e Amazonino não sabem que estamos gravando suas palavras. Atenção! Amazonino está pensando em voz alta. Ouçamos o que diz:
– O Luís Fernando Nicolau era o nome ideal. Tinha o perfil exato. É médico. Infelizmente, ele passou pro outro lado. Decidiu que vai ser honesto. Contraiu o vírus da probidade no contato direto com o Jefferson Péres, no PSDB. Não serve para o cargo.
Depois de um curto silêncio, seu parceiro Samuel Hanan sugeriu:
– Se o critério é esse, então o homem é o Robério Braga. Tira o Berinho do Planejamento e bota na Saúde.
– Mas o Berinho não entende nada de saúde - argumentou o governador.
– E daí? Nem por isso! Ele também não entende chongas de planejamento, a não ser planejar sacanagem contra o Erário. De qualquer forma, como o problema da Saúde é falta de recursos, o Berinho Braga já provou, na questão dos ressarcimentos médicos, que é capaz de descolar grana para a saúde - insistiu Samuel.
– Não. O Berinho não dá - decidiu o governador.
– Então, muda o Tiradentes da Secretaria de Comunicação para a Saúde - sugeriu Samuel Hanan. O governador chegou a pensar que Jesus Pinheiro havia tido razão de mandar o chato do Hanan enfiar dinheiro naquele lugar. Ponderou:
– Não exagera, Samuca. Prefiro aproveitar a experiência pessoal do Ronaldinho na SEDUC. Vou fazê-lo meu secretário de educação, para que distribua, junto com os ranchos, diplomas para todos amazonenses, sem necessidade de gastos com construção de escolas e pagamento de professores. No Terceiro Ciclo, nenhum amazonense ficará sem diploma. Tiradentes cuidará disso, desde que o delegado Wanderley da PF, que investiga falsificação de diploma, seja transferido do Amazonas.
O gravador registra a tosse do Alfredo Nascimento. Era a sua vez. Se ele jogasse a última pedra que podia – sena e terno – matava a carroça de sena do governador. Por isso, puxa-sacalmente, ele disse: “Eu passo”. O governador gritou – “Dominó com vinte”! Aplausos do Lupercio, Omar Aziz, Pau(derney) Mandado e mais alguns puxa-sacos, que assistiam a partida, na qualidade de “peru calado vale um cruzado”.
Enquanto embaralhavam o dominó para outra rodada, Amazonino falou:
– Meus cabocos, só há um modo de escolher o novo superintendente: a auto-indicação. Quero sinceridade de cada um. Vou aproveitar o pedido de demissão do Jesus Pinheiro para fazer um remanejamento geral no secretariado. Quero que cada um aqui diga qual a secretaria que quer.
Nesse exato momento, Pedro Teixeira dá um espirro monumental! Atchiiiiiim! Alfredo Nascimento, solidário com o seu amigo de infância, grita:
- Saúde, meu caboco!
Amazonino decide:
– Boa escolha, Nascimento. A Superintendência da Saúde fica com você. Amanhã sai no Diário Oficial.
Não ri, leitor (a). Não ri que a coisa é séria, muito séria. Esta versão, aparentemente absurda, é a única possível para explicar como é que um cabo reformado da Aeronáutica, mais conhecido como cabo Pereira, Alfredo Nascimento Pereira, acabou sendo nomeado superintendente de Saúde do Estado do Amazonas. Ele não sabe a diferença entre um estetoscópio e um “colhão de bode”,
Não há outra explicação plausível. Se você perguntar ao cabo Pereira o que é treponematose, ele vai responder:
- Sacanagem não é comigo.
Se você disser pra ele que se trata de uma doença cutânea, ele dirá:
- Bem que eu desconfiava que era mesmo pornografia.
Claro, nem eu nem você, leitor(a) , somos obrigados a saber que diabo é isso. Mas um superintendente de Saúde tem a obrigação de conhecer.
O pesquisador Sinésio Talhari, professor titular da Universidade do Amazonas,estudou as doenças de pele em populações indígenas e ribeirinhas do Amazonas. Encontrou vários casos novos de “pinta” (atenção, cabo Pereira, “pinta” não é feminino de “pinto”).
Segundo Sinésio, “esta treponematose constitui uma vergonha para a saúde pública, pois a cura se dá com uma só injeção de penicilina, sendo possível eliminar ou erradicá-la a curto prazo”.
O mesmo ocorre com outras doenças. A incidência da tuberculose nas classes mais pobres é altíssima, com o registro de 4 a 5 novos casos por dia.
Segundo dados do próprio Centro de Dermatologia Alfredo da Matta, só a cidade de Manaus teve 320 novos casos de hanseníase no ano passado, a maioria na Zona Leste, nos bairros Coroados e Zumbis da vida.
Nos primeiros quatro meses deste ano, o Instituto de Medicina Tropical atendeu mais de 1.000 casos de hepatite. A hepatite B está matando na área do Javari e nas calhas dos rios Purus, Juruá e Médio Amazonas.
E isto para não falar da malária. O Amazonas é um doente. Para tratá-lo, o governador entregou a tarefa ao “Adib Jatene de igarapé”: o cabo Pereira. Essa não! Francamente. Isso é pior do que chutar a imagem de Nossa Senhora Aparecida, como fez Edir Macedo, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, em programa de TV.
Ai de ti Amazonas! Estás mesmo todo “treponematosado”! Não se trata aqui de negar a capacidade de Alfredo Nascimento, em sua área. Vamos supor que ele, na sua especialidade – qual é mesmo? – seja o Romário. Qual o técnico burro que escalaria o Romário como goleiro?
A não ser que o técnico estivesse mesmo afim de “queimar” o seu jogador. É o caso?
O Amazonas arrecada só de ICMS cerca de 100 a 110 milhões de reais por mês. Gasta com a folha de pagamento 24 milhões.
Para onde está indo esta fortuna arrecadada? Em dez meses de governo, não se contratou um médico, nada se fez para combater o êxodo rural e diariamente tem gente morrendo por falta de medicamento e atendimento adequado.
O compromisso desse governo não é com a população, mas com as empreiteiras. Isso já é uma história para outra crônica.
P.S. – O deputado Luís Fernando Nicolau está mesmo disposto a ir fundo na denúncia do desvio da merenda escolar. Qualquer que seja a sua motivação, sua coragem neste caso merece o apoio de todas as pessoas de bem do Amazonas.
Ver também FRED, O JACAMIM IMORTAL - https://www.taquiprati.com.br/cronica/500-fred-o-jacamim-imortal