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Quem é o Herodes de Igarapé?
Tendo, pois, o menino nascido em uma rua de uma cidade do Amazonas, eis que três visitantes, todos curiosamente com nomes romanos, vieram procurá-lo em Manaus: a coordenadora da Pastoral da Criança – irmã Giustina Zanatto, o promotor da Infância e da Adolescência – Públio Caio e a responsável da CNBB pela Saúde Infantil, Nádia Vettori. Vindos do Reino da Cidadania, eles encontraram Herodes e perguntaram-lhe:
— Onde está o menino que acaba de nascer na rua? Vimos um sinal: uma lata vazia de cola de sapateiro, sentimos de longe o seu cheiro e caminhamos nesta direção. Soubemos de sua miséria e sua fome, e queremos ajudá-lo.
Quando ouviu esta notícia, Herodes de Igarapé convocou os escribas da Secretaria de Trabalho e Ação Social (Setras) e os burrocratas do Instituto Estadual do Bem Estar do Menor do Amazonas (Iebem) e indagou deles onde havia nascido o menino-de-rua? Disseram-lhe: “Em Belém do Solimões, porque assim foi escrito pelo profeta:
- E tu, Belém, não és de modo algum a menor entre as cidades do Alto Solimões, porque de ti sairá o chefe que governará meu povo.
No entanto, temos notícias de que o menino-de-rua aproveitou que as águas do rio estão baixando para migrar em direção a Manaus.
Herodes de Igarapé, que também havia nascido no Alto Solimões e era muito ambicioso, ficou, então, perturbadíssimo, com medo de que a criança nascida lhe roubasse votos. Herodes só pensava em votos. Chamou os três visitantes e disse-lhes fingidamente:
- “Ide e informai-vos bem a respeito do menino-de-rua. Quando o tiverdes encontrado, comunicai-me, para que eu também possa ajudá-lo. Vou tratá-lo como se fosse ‘Nosso Filho´ (Espia só, leitor (a), o papo de Herodes).
Os três saíram procurando pelas ruas de Manaus, até que encontraram, deitado numa caixa de papelão da Zona Franca, o menino-de-rua, a quem ofereceram presentes: comida, carinho, respeito e o conhecimento de seus direitos previstos no Estatuto da Infância e Adolescência. Mas nada informaram, porque desconfiaram que Herodes era um sacripanta.
Vendo, então, Herodes, que os visitantes não tinham confiança nele, ficou muito irado, formou um pelotão de 150 agentes e, num enorme arrastão, saiu capturando menores de-rua pelas principais artérias, becos e praças do centro de Manaus e pelos casarões abandonados, onde se refugiavam, caçando-os como as carrocinhas faziam com os cachorros vadios.
— Pega! Pega! Ali tem um. Ali, escondido naquele porão!
As crianças perseguidas protestavam, esperneavam e gritavam, mas eram levadas para uma prisão denominada impropriamente de “Fazenda-Escola”, no Km. 15 da BR-174. Cumpriu-se, então, o que foi dito pelo profeta Jeremias:
— “Ouviu-se uma voz, choro e grandes lamentos: é Raquel a chorar seus filhos; não quer consolação, porque já não existem” (Jer. 31,15).
“Nosso pedófobo”
Mas, afinal, quem é o Herodes de Igarapé? Sua identificação ficou para o final, como na novela “A próxima vítima”. O Herodes de Igarapé, o “nosso” Herodes, é Lupércio Ramos, que está secretário de Trabalho e Ação Social* (Setras) do Governo, não do Camelli, mas do Amazonino Mendes, o que dá no mesmo.
O Lupércio é pedófobo. É isso mesmo que você leu, leitor(a): pedófobo. Não é pedófilo não! Vou soletrar para não haver dúvida: pé-é-pé, dê-ó-dó, efe-ó-fó, bê-ó-bó, pedófobo. Odeia crianças. Elas não votam. Se for criança abandonada, sem casa, morando na rua, o rancor do Lupércio torna-se patológico.
Essa excrescência, denominada cinicamente “Projeto Nosso Filho”, apoia-se numa concepção equivocada, avaliando que os menores de rua constituem um caso de polícia e não um problema socioeconômico. Em realidade, ninguém acredita que o objetivo de tal projeto seja contribuir efetivamente para ajudar quem tanto precisa da nossa solidariedade. Seus objetivos são puramente eleitoreiros e demagógicos. Por isso, o que o Lupércio quer mesmo é retirar, na porrada, os menores da rua e recolhê-los compulsoriamente a uma prisão, para ganhar, desta forma, a simpatia de setores aterrorizados com a insegurança crescente.
O Herodes de Igarapé jura por todos os anjos e santos do céu, que “a prisão não é uma prisão: Se os pais aparecerem, eles podem ir embora. Acontece que os pais não querem mais saber deles. Depois de uma semana, não apareceu nenhum parente para reclamar sua devolução”.
Criança, para o Lupércio, é uma mercadoria, uma coisa. É um pacote qualquer. Por isso ele fala de devolução. Assim como existe terra devoluta, tem também criança devoluta. Desculpa, leitor(a), mas tenho que repetir isso: o Lupércio é um cretino.
Uma sociedade que permite o maltrato às suas crianças, que não reage quando se atropela os seus direitos elementares, que perdeu a capacidade de se indignar quando elas são caçadas como ratazanas, merece os Lupércios que tem. Por isso, é reanimador constatar que para cada Lupércio que surge, aparece gente como a irmã Giustina, o Públio Caio e a Nádia Vettori.
P.S. Com a colaboração do repórter Mateus Evangelista (2,1-23), nosso correspondente no Oriente Médio. Volto com Você aos estúdios Jesus de Nazaré.