CRÔNICAS

Quem é o Herodes de Igarapé?

Em: 07 de Novembro de 1995 Visualizações: 2790
Quem é o Herodes de Igarapé?

Quem é o Herodes de Igarapé?  

Tendo, pois, o menino nascido em uma rua de uma cidade do Amazonas, eis que três visitantes, todos curiosamente com nomes romanos, vieram procurá-lo em Manaus: a coordenadora da Pastoral da Criança – irmã Giustina Zanat­to, o promotor da Infância e da Adolescência – Públio Caio e a responsável da CNBB pela Saúde Infantil, Nádia Vettori. Vindos do Reino da Cidadania, eles encontraram Herodes e perguntaram-lhe:

Onde está o menino que acaba de nascer na rua? Vimos um sinal: uma lata va­zia de cola de sapateiro, sentimos de longe o seu cheiro e ca­minhamos nesta direção. Sou­bemos de sua miséria e sua fome, e queremos ajudá-lo.

Quando ouviu esta notícia, Herodes de Igarapé convocou os escri­bas da Secretaria de Trabalho e Ação Social (Setras) e os burrocratas do Instituto Estadual do Bem Estar do Menor do Amazonas (Iebem) e indagou deles onde havia nascido o menino-de-rua? Disseram-lhe: “Em Belém do Solimões, porque as­sim foi escrito pelo profeta:

- E tu, Belém, não és de modo algum a menor entre as cida­des do Alto Solimões, porque de ti sairá o chefe que gover­nará meu povo.

No entanto, temos notícias de que o menino-de-rua aproveitou que as águas do rio estão baixando para migrar em direção a Ma­naus.

Herodes de Igarapé, que tam­bém havia nascido no Alto So­limões e era muito ambicioso, ficou, então, perturbadíssimo, com medo de que a criança nascida lhe roubasse votos. Herodes só pensava em votos. Chamou os três visitantes e disse-lhes fingidamente:

- “Ide e informai-vos bem a respeito do menino-de-rua. Quando o ti­verdes encontrado, comunicai-me, para que eu também possa ajudá-lo. Vou tratá-lo como se fosse ‘Nosso Filho´ (Espia só, leitor (a), o papo de Herodes).

Os três saíram procurando pelas ruas de Manaus, até que encontraram, deitado numa caixa de papelão da Zona Franca, o menino-de-rua, a quem ofereceram presentes: comida, carinho, respeito e o conhecimento de seus direitos previstos no Estatuto da In­fância e Adolescência. Mas na­da informaram, porque desconfiaram que Herodes era um sacripanta.

Vendo, então, Herodes, que os visitantes não tinham confiança nele, ficou muito ira­do, formou um pelotão de 150 agentes e, num enorme arras­tão, saiu capturando menores de-rua pelas principais arté­rias, becos e praças do centro de Manaus e pelos casarões abandonados, onde se refugia­vam, caçando-os como as ca­rrocinhas faziam com os ca­chorros vadios.
— Pega! Pega! Ali tem um. Ali, escondido naquele porão!

As crianças perseguidas protestavam, esperneavam e gritavam, mas eram levadas para uma prisão denominada impropriamente de “Fazenda-Escola”, no Km. 15 da BR-174. Cumpriu-se, então, o que foi dito pelo profeta Jeremias:
— “Ouviu-se uma voz, choro e grandes lamentos: é Raquel a chorar seus filhos; não quer consolação, porque já não existem” (Jer. 31,15).

“Nosso pedófobo”

Mas, afinal, quem é o Herodes de Igarapé? Sua identificação ficou para o final, como na novela “A próxima vítima”. O Herodes de Igarapé, o “nosso” Herodes, é Lupércio Ramos, que está secretário de Trabalho e Ação Social* (Setras) do Governo, não do Camelli, mas do Amazonino Mendes, o que dá no mesmo.

O Lupércio é pedófobo. É isso mesmo que você leu, leitor(a): pedófobo. Não é pedófilo não! Vou soletrar para não haver dúvida: pé-é-pé, dê-ó-dó, efe-ó-fó, bê-ó-bó, pedófobo. Odeia crianças. Elas não votam. Se for criança abandonada, sem casa, morando na rua, o rancor do Lupércio torna-se patológico.

Essa excrescência, denominada cinicamente “Projeto Nosso Filho”, apoia-se numa concepção equivocada, avaliando que os menores de rua constituem um caso de polícia e não um problema socioeconômico. Em realidade, ninguém acredita que o objetivo de tal projeto seja contribuir efetivamente para ajudar quem tanto precisa da nossa solidariedade. Seus objetivos são puramente eleitoreiros e demagógicos. Por isso, o que o Lupércio quer mesmo é retirar, na porrada, os menores da rua e recolhê-los compulsoriamente a uma prisão, para ganhar, desta forma, a simpatia de setores aterrorizados com a insegurança crescente.

O Herodes de Igarapé jura por todos os anjos e santos do céu, que “a prisão não é uma prisão: Se os pais aparecerem, eles podem ir embora. Acontece que os pais não querem mais saber deles. Depois de uma semana, não apareceu nenhum parente para reclamar sua devolução”.

Criança, para o Lupércio, é uma mercadoria, uma coisa. É um pacote qualquer. Por isso ele fala de devolução. Assim como existe terra devoluta, tem também criança devoluta. Desculpa, leitor(a), mas tenho que repetir isso: o Lupércio é um cretino.

Uma sociedade que permite o maltrato às suas crianças, que não reage quando se atropela os seus direitos elementares, que perdeu a capacidade de se indignar quando elas são caçadas como ratazanas, merece os Lupércios que tem. Por isso, é reanimador constatar que para cada Lupércio que surge, aparece gente como a irmã Giustina, o Públio Caio e a Nádia Vettori.

P.S. Com a colaboração do repórter Mateus Evangelista (2,1-23), nosso correspondente no Oriente Médio. Volto com Você aos estúdios Jesus de Nazaré.

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