CRÔNICAS

Se o Flávio ganhar, quem vai investigar seu irmão Vorcaro?

Em: 09 de Outubro de 2026 Visualizações: 191
Se o Flávio ganhar, quem vai investigar seu irmão Vorcaro?

Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior
 

“Quem controla o passado controla o futuro: quem controla o presente controla o passado.”

(George Orwell, 1984)

 

Caboco, domingo, dia 4 de outubro, a gente foi às urnas mais uma vez e, como acontece a cada dois anos neste país onde a urna nunca fica muito tempo quieta, o eleitor escolhe, os políticos comemoram, os derrotados procuram explicações e, no dia seguinte, começa outra conversa sobre o futuro. Só que desta vez a pergunta que ficou não é apenas quem vai ocupar o Palácio do Planalto. É também o que pode acontecer com as instituições que, nos últimos anos, estiveram no centro das disputas pelo poder.

Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno e, se vencer, chegará à Presidência carregando uma situação que merece ser lembrada: ele está sendo investigado pela Polícia Federal no caso relacionado ao filme Dark Horse e aos recursos de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Não estou dizendo que Flávio cometeu crime. Investigação não é condenação e suspeita não é culpa. Mas existe uma investigação em andamento. E, se ele ganhar, o investigado poderá se transformar em presidente da República. É aí que a pergunta começa a ficar interessante: se o Flávio ganhar, quem vai investigar o Banco Master?

Para entender o tamanho dessa pergunta, talvez seja preciso voltar um pouco no tempo. Foram 22 anos entre o início do governo Fernando Henrique Cardoso e o impeachment de Dilma Rousseff: oito anos de FHC, oito de Lula e seis de Dilma. Foram anos de estabilidade econômica e política relativa, com crises, mensalão, Lava Jato, manifestações de rua, recessão e uma porção de outros problemas, mas também com sucessivas eleições e alternância dentro das regras democráticas. E havia uma característica que atravessava todos esses governos: nenhum presidente governava sozinho.

O congresso e o Supremo

O Congresso brasileiro sempre foi formado majoritariamente por forças de centro, centro-direita e direita, obrigando governos de diferentes orientações políticas a negociar, distribuir espaços e construir maiorias. Dilma não caiu porque o Brasil tinha virado um país de esquerda e o Congresso resolveu repentinamente descobrir a direita. Dilma caiu porque perdeu a sustentação política que precisava para governar e porque uma maioria parlamentar decidiu abrir, conduzir e concluir o processo de impeachment.

A Câmara autorizou o processo por 367 votos contra 137 e o Senado decidiu pela perda do mandato por 61 votos contra 20. O Supremo participou daquele processo, definiu regras, examinou questionamentos e garantiu o rito constitucional, mas quem tirou Dilma do cargo foram os deputados e senadores. Um deputado – vocês lembram – homenageou na declaração de voto o coronel Brilhante Ulstra, que torturou tanta gente que lutava contra a ditadura, entre outras a própria Dilma Rousseff e a atriz Bete Mendes.

E isso é importante lembrar porque existe uma tendência danada de enxergar as instituições brasileiras como se elas fossem personagens fixos de uma novela: este é de esquerda, aquele é de direita, aquele outro é golpista, aquele outro é democrata. Só que as instituições não funcionam assim. O Congresso que ajudou a derrubar Dilma é, em boa medida, herdeiro do mesmo sistema político que hoje tem uma maioria expressiva de direita e centro-direita. E é esse Congresso que estará sentado em Brasília se Flávio Bolsonaro chegar ao Planalto.

Não estamos falando, portanto, apenas de trocar um presidente por outro. Estamos falando de um presidente que poderá contar com uma base parlamentar muito mais próxima de seu campo político. O PL, sozinho, saiu das urnas com uma bancada muito forte, e, somado aos demais partidos de direita e centro-direita, o campo conservador possui hoje peso suficiente para influenciar decisivamente a agenda do Congresso. Isso muda a equação política. Porque uma coisa é um presidente enfrentar um Congresso adversário. Outra é um presidente ter ao seu lado uma maioria parlamentar capaz de sustentar suas escolhas, inclusive aquelas que envolvam instituições de controle.

E aí chegamos ao Supremo Tribunal Federal. É curioso olhar para a história recente e perceber que o mesmo Supremo que foi acusado por setores da esquerda de ter sido conivente com o impeachment de Dilma é praticamente o mesmo Supremo que, alguns anos depois, esteve entre as instituições que enfrentaram a tentativa de ruptura institucional ocorrida no governo Bolsonaro. Não foi o STF sozinho, evidentemente. Houve Tribunal Superior Eleitoral, Polícia Federal, Ministério Público, Congresso, imprensa, sociedade civil e uma série de outros atores. Mas o Supremo teve papel importante na defesa das regras constitucionais e na reação às tentativas de deslegitimar o resultado eleitoral e atacar as instituições. O problema é que a história não terminou ali. O mesmo Supremo que ajudou a impedir uma ruptura democrática agora aparece, através de alguns de seus ministros, sob questionamentos relacionados ao caso Banco Master.

E aqui é preciso caminhar devagar, porque uma coisa é questionar relações e outra, muito diferente, é acusar alguém de crime. Documentos, mensagens e informações obtidas nas investigações colocaram Daniel Vorcaro em contato, de diferentes maneiras, com ministros e pessoas próximas a integrantes do STF. Alexandre de Moraes, André Mendonça, Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Kassio Nunes Marques (o KN das mensagens) e Luiz Fux aparecem nesse universo de relações que passou a ser examinado publicamente. Nunes Marques declarou-se impedido em uma discussão relacionada ao caso e Toffoli declarou suspeição. André Mendonça, o terrivelmente evangélico de Bolsonaro, está no centro institucional de parte das apurações, inclusive por sua atuação como relator de procedimentos relacionados ao caso. Fux também aparece no material envolvendo pessoas próximas a ele. Nada disso autoriza concluir que esses ministros tenham cometido crimes. Mas autoriza, sim, fazer uma pergunta que numa democracia deveria ser perfeitamente normal: quando surgem dúvidas sobre relações entre quem julga e quem está sendo investigado, quem fiscaliza o julgador?

Big Brother Bolsonaro

É aqui que a história começa a ficar parecida com aquela velha pergunta de criança: quem vigia o vigia? Porque o problema não é investigar Flávio Bolsonaro. Se existem fatos que precisam ser esclarecidos, que sejam investigados. O problema não é investigar Daniel Vorcaro. Se existem suspeitas, que se apurem. O problema também não é investigar ministro do Supremo. Se aparecem informações que precisam ser esclarecidas, que sejam esclarecidas.

O problema é quando a régua da investigação muda conforme muda o nome do investigado. Quando a relação com um banqueiro é gravíssima se envolve o adversário e perfeitamente explicável quando envolve um aliado. Quando exigimos transparência absoluta de quem está do outro lado, mas descobrimos que, do nosso lado, existe sempre uma boa justificativa para tudo.

E Flávio Bolsonaro chega a essa disputa presidencial justamente carregando uma dessas contradições. As antigas investigações sobre as chamadas rachadinhas foram encerradas criminalmente depois que provas importantes foram anuladas pela Justiça por questões de ordem formal. Portanto, não é correto dizer simplesmente que ele continua sendo investigado pelas rachadinhas. Houve, entretanto, em 2026, pedido para que o Ministério Público do Rio de Janeiro reabrisse a apuração a partir de novas informações relacionadas, entre outras coisas, a operações imobiliárias e a um cofre mantido por Flávio no Banco do Brasil.

Pedido de reabertura não significa investigação reaberta, e é importante fazer essa distinção. Mas também não significa que a história tenha deixado de existir. Ela permanece como parte do passado político do candidato, assim como permanece a investigação atual relacionada ao Banco Master e ao financiamento do filme Dark Horse.

Flávio Bolsonaro, o “irmãozão” de Vorcaro — como aparece nas conversas entre os dois —, negociava com o banqueiro recursos para financiar o filme sobre o pai, enquanto trocava mensagens que iam além da formalidade habitual entre um senador e um empresário. Uma das frases que Flávio escreveu me fez pensar se minha tia Dile já não disse algo parecido a algum de seus dez irmãos:

“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”.

A diferença é que, quando minha tia fala assim, imagino que seja coisa de família, sem planilha de investimento nem milhões de dólares envolvidos. No caso de Flávio, a declaração de lealdade precisa ser lida à luz dos interesses financeiros em jogo, sem que isso, por si só, prove qualquer irregularidade.

Caboco, aprendi na escola uma propriedade da igualdade: se A = B, então B = A. Ora, se Vorcaro é irmão de Flávio, Flávio também é irmão de Vorcaro. Mas não estamos falando de um irmão qualquer: estamos falando de um irmãozão, no aumentativo, como o próprio Flávio aparece nas conversas com o banqueiro. E, como os bolsonaristas gostam de uma expressão em inglês, resolvi traduzir a brincadeira: Big Brother Bolsonaro. Está criado o BBB — não o reality show da televisão, mas o nosso Grande Irmão Bolsonaro, uma versão tupiniquim da figura imaginada por George Orwell em 1984. A diferença é que, no livro, o Grande Irmão tudo vê; por aqui, o BBB parece tudo esconder.

Agora imagine a combinação. Um presidente eleito que é alvo de uma investigação relacionada ao principal personagem de um dos maiores escândalos financeiros em discussão no país. Um Congresso com forte maioria de direita e centro-direita. Um Supremo que teve papel decisivo na resistência institucional à tentativa de golpe de 2022, mas que também passou a ser questionado por relações de alguns de seus integrantes ou pessoas próximas a eles com personagens do caso Banco Master, sendo fustigado diariamente pela grande mídia. E, no meio de tudo isso, um conjunto de instituições que precisa investigar umas às outras sem perder a legitimidade para continuar funcionando. Não é preciso acreditar em conspiração nenhuma para perceber que temos aí um problema institucional de primeira grandeza.

E talvez seja por isso que aquela palavra tão brasileira apareça inevitavelmente no meio dessa história: acordão. Eu não estou dizendo que haverá acordão. Não tenho como saber e não há como transformar hipótese em fato. Mas será que, diante de tantos interesses cruzados, não existe o risco de aparecer uma solução em que cada instituição preserve um pouco de si mesma? Afinal, estamos no Brasil, onde historicamente a contradição de interesses entre poderosos sempre acaba em pizza.

O Executivo preserva o Executivo, o Congresso preserva o Congresso, o Judiciário preserva o Judiciário, e o Banco Master vai ficando no meio da confusão até que todo mundo descubra que talvez seja melhor não mexer mais no assunto. A receita é simples: pegue uma boa porção de farinha de maracutaias, acrescente 134 milhões de ovos, misture três colheres de burrice política e deixe a batata quente passar de mão em mão, porque ninguém quer ficar com ela. Leve tudo ao forno das conveniências políticas, espere até que as responsabilidades desapareçam e pronto: está feita a pizza institucional, servida quentinha aos poderosos — enquanto a conta, como sempre, sobra para o cidadão.

Mas talvez o problema seja ainda mais simples. Democracia não é apenas ter instituições capazes de impedir um golpe. É ter instituições capazes de investigar o poder depois que o golpe foi impedido. Não adianta defender a democracia contra uma tentativa de ruptura e depois aceitar que as instituições fiquem acima de qualquer fiscalização. Não adianta exigir que a Polícia Federal investigue o adversário e reclamar quando ela investiga o aliado. Não adianta defender a independência do Supremo quando ele decide a nosso favor e questionar sua legitimidade quando decide contra nós. Instituição democrática não pode ser boa ou ruim conforme o resultado da votação.

Por isso, se Flávio ganhar, a pergunta sobre o Banco Master não desaparecerá. Pelo contrário, ficará ainda mais importante. Porque ele poderá deixar de ser apenas um investigado para ocupar a cadeira de presidente da República. E aí teremos de descobrir se as instituições brasileiras são realmente independentes o bastante para investigar o poder quando o poder está sentado no Palácio do Planalto, tem maioria no Congresso e conhece muito bem os caminhos de Brasília. E teremos também de descobrir se o Supremo é capaz de investigar e ser investigado sem que a instituição perca sua autoridade.

No fundo, caboco, a pergunta que fica não é apenas “quem vai investigar o Banco Master?”. A pergunta é maior: quem investiga os investigadores? Quem fiscaliza quem fiscaliza? Quem controla aquele que controla? Porque o verdadeiro teste de uma democracia não acontece quando as instituições investigam o adversário. Isso é fácil. O verdadeiro teste acontece quando elas precisam investigar os seus próprios aliados, os seus próprios amigos, os seus próprios integrantes e, principalmente, quem está sentado na cadeira mais poderosa da República.

Se o Flávio ganhar, talvez a gente descubra. E aí espero que a resposta não seja “ninguém” ou “o Grande Irmão”. Porque o verdadeiro teste de uma democracia não é saber se as instituições conseguem investigar os adversários do poder, mas se têm coragem e independência para investigar os próprios aliados, os amigos de ocasião e aqueles que, de tão poderosos, parecem acreditar que estão acima de qualquer suspeita.

No fundo, caboco, o perigo começa quando o poder deixa de prestar contas, quando os fatos passam a depender de quem os conta e quando a verdade vira uma questão de conveniência política. George Orwell imaginou em 1984 um mundo em que controlar a verdade era uma das armas mais poderosas de quem mandava. Tomara que a gente não precise chegar tão longe para perceber que, quando ninguém fiscaliza os poderosos, o problema já não é apenas quem investiga o Banco Master. É quem ainda tem o direito de perguntar, de duvidar e de exigir respostas. O seu voto vai decidir se Vorcaro sai da Papudinha ao lado de Jair ou se ambos permanecem presos, um pelo crime já julgado, o outro investigado pelo crime já cometido no setor financeiro do país.

 

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1 Comentário(s)

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Mário Lobato comentou:
09/10/2026
A jornalista Daniele Lima postou algo interessante que reproduzo aqui, Flávio Bolsonaro diz que vai acabar com a corrupção, mas ele pediu a Vorcaro um valor que daria para comprar 30 tríplexes que atribuiram ao Lula. O Vorcaro, gente, que ele mentiu dizendo que não conhecia, até que publicaram fotos, msgs de voz, etc. A mentira é o traço mais constante das manifestações de Flávio nessa campanha? Tem gente ou ingênua ou de má-fé que acredita.
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