CRÔNICAS

Eleições no Amazonas: entre maus caminhos e boas intenções

Em: 17 de Agosto de 2026 Visualizações: 161
Eleições no Amazonas: entre maus caminhos e boas intenções

Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior

"Quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve".

Lewis Carroll em Alice no País das Maravilhas

Caboco, esses dias eu estava relembrando os resultados das eleições para governador do Amazonas. Como a memória é falha, fucei nos meus arquivos digitais. É curioso como uma tabela de números, que à primeira vista parecia coisa de marqueteiro político ou de quem tem alguma tara por estatística eleitoral, pode contar uma história muito mais interessante do que discurso de muito candidato por aí. Ali estão os nomes, os percentuais, as vitórias, as derrotas e, principalmente, as escolhas que nós, eleitores, fizemos ao longo dos anos. Tudo disponibilizado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Quando a gente coloca tudo no mesmo lugar, percebe que a política amazonense não é feita apenas de governos que — graças a Deus — terminam, escândalos que passam e candidatos que desaparecem; ela é feita também de uma população que, de quatro em quatro anos, recebe a oportunidade de dizer nas urnas o que achou de tudo aquilo que aconteceu. E foi justamente olhando para esses números que me veio uma pergunta incômoda: como um governo cercado de tantas controvérsias conseguiu não apenas chegar ao fim do primeiro mandato, mas conquistar a reeleição?

Para entender isso, eu quero voltar a 1994, quando comecei a votar, e fazer uma retrospectiva até aqui. Não apenas para saber quem ganhou e quem perdeu, mas para observar como nós, amazonenses, fomos fazendo nossas escolhas ao longo desse período. Afinal, eleição não é somente uma sequência de números registrados numa planilha; é também uma fotografia de cada época, dos desejos, das esperanças, das rejeições e das apostas que uma sociedade faz quando escolhe quem vai comandar o Estado. E, quando a gente olha para quase três décadas de eleições, percebe que os nomes mudam, os discursos mudam, os partidos mudam, os problemas mudam de roupa, mas algumas perguntas continuam insistindo em permanecer no mesmo lugar.

Trio parada dura

Em 1994, Amazonino Mendes (PPR) foi eleito governador do Amazonas com uma votação expressiva, vencendo no primeiro turno. Era um período em que a política estadual ainda estava fortemente marcada por lideranças que já conheciam os corredores do poder e por grupos políticos que se alternavam no comando do Estado. Meu candidato era Aloysio Nogueira (PT), com Marilene Correa de vice, que terminou a disputa em terceiro lugar, com 7,6% dos votos válidos. Comecei minha trajetória eleitoral, portanto, do lado de quem perdeu — e, olhando para trás, percebo que essa seria uma situação relativamente comum na minha planilha.

Quatro anos depois, a disputa seria novamente decidida nas urnas, mas, ainda assim, Amazonino Mendes (PFL) venceu no primeiro turno, frustrando as expectativas de Eduardo Braga (PSL), que contou com quase 48% dos votos válidos. Naquele ano, marquei Herbert Amazonas (PSTU) como meu candidato. Ele ficou em terceiro lugar, com 0,78% dos votos. Caboco, era um daqueles votos que não davam nem para exigir recontagem: se os meus arquivos estiverem certos, provavelmente a urna eletrônica conhecia quase todos os eleitores de Herbert pelo primeiro nome.

Em 2002, a coisa mudou um pouco. Eduardo Braga (PPS) assumiu o protagonismo e venceu a eleição no primeiro turno, com 52,37% dos votos válidos. Gilberto Mestrinho (PMDB) e Serafim Corrêa (PSB) ficaram praticamente empatados, ambos na faixa dos 20%. Naquele pleito, Serafim e João Pedro (PT) me pareciam opções viáveis. Serafim obteve 20,79%, e João Pedro, 5,78%. Eduardo Braga venceu, e eu fiquei, mais uma vez, do lado de quem não chegou ao Palácio do Governo.

Em 2006, Eduardo Braga (PMDB) foi reeleito no primeiro turno com 50,63% dos votos válidos, derrotando Amazonino Mendes (PFL), que teve 40%. Meu candidato era novamente Herbert Amazonas (PSTU), desta vez com 0,46%. A essa altura, minha trajetória eleitoral para governador já começava a demonstrar uma curiosa coerência: eu não parecia ter muita habilidade para escolher quem venceria, mas pelo menos estava sendo fiel às minhas convicções. Em outras palavras, se eleição fosse bolão, eu já teria sido expulso da mesa.

Em 2010, o então vice-governador Omar Aziz (PMN) chegou ao governo com uma votação expressiva de 63,87%. Alfredo Nascimento (PR), apoiado pelo PT - imaginem só! -, ficou em segundo lugar, com 25,91%, e Hissa Abrahão (PPS) veio depois, com 9,36%. Meu voto foi para Luiz Carlos Sena (PSOL), que recebeu 0,18% dos votos válidos. Mais uma vez, minha escolha mostrava que eu estava contra os demais candidatos. E talvez essa informação seja mais importante do que parece, porque ela mostra que minha retrospectiva eleitoral não está sendo escrita por alguém que esteve sempre ao lado dos vencedores e agora resolveu cobrar resultados. Pelo contrário: em boa parte desse percurso, estive conscientemente fora das maiorias que escolheram os governadores do Amazonas.

Patati-Patatá

Em 2014, vi pela primeira vez uma eleição para o Governo do Amazonas ser decidida em segundo turno. José Melo (PROS) venceu Eduardo Braga (PMDB) numa disputa acirrada, com 55,54% contra 44,46% dos votos válidos. Minha planilha, porém, registra uma situação curiosa: eu estava contra os dois finalistas. Ou seja, não foi apenas uma eleição em que meu candidato perdeu; nenhuma das alternativas que chegaram à decisão final representava aquilo que eu queria para o Estado. Anos depois, José Melo, que ficou conhecido como Melo Merenda, seria cassado, e a Operação Maus Caminhos revelaria um dos maiores escândalos envolvendo a saúde pública do Amazonas. Não digo isso para fingir que antecipei o que aconteceria, porque a memória posterior é cheia de armadilhas. Mas é significativo perceber que, já naquela disputa, eu não havia escolhido nenhum dos dois nomes que chegariam ao governo.

Em 2017, depois da cassação de José Melo Merenda, uma eleição suplementar colocou novamente Amazonino Mendes (PDT) no comando do Estado. O Amazonas saía de uma crise política profunda e chegava a 2018 com uma pergunta que parece se repetir na política amazonense: se o caminho percorrido até aqui deu errado, para onde vamos agora? Foi nesse ambiente que surgiu o paraense Wilson Lima (PSC), até então muito mais associado à televisão do que à política. Apresentava-se como alguém de fora do sistema tradicional, justamente quando o eleitor parecia disposto a rejeitar a velha política.

Wilson venceu Amazonino no segundo turno de 2018, com 58,50% dos votos válidos. Mas, quando olho hoje para aquela eleição e para minhas próprias anotações, percebo que meu pensamento era outro: eu estava contra os dois. Nem Wilson representava a mudança que eu desejava, nem Amazonino o caminho que eu gostaria de ver o Amazonas percorrer. Enquanto a maioria escolhia entre os dois, eu estava novamente diante de uma situação que se repetiria ao longo da minha trajetória eleitoral: nenhuma das alternativas disponíveis correspondia à minha escolha.

Então veio a pandemia, o maior teste do governo Wilson Lima. Manaus enfrentou hospitais lotados, profissionais exaustos e famílias desesperadas. A segunda onda encontrou o Amazonas especialmente vulnerável e, em janeiro de 2021, a cidade viveu um dos episódios mais dramáticos da crise sanitária: o colapso do abastecimento de oxigênio. Famílias correram atrás de cilindros para tentar salvar parentes internados.

Seria simplista atribuir ao governador toda a responsabilidade por uma tragédia que envolveu diferentes níveis de governo, empresas e autoridades. Mas também seria inadequado retirar dele qualquer responsabilidade pela máquina estadual. O cidadão não escolhe secretários ou fornecedores; escolhe governador. E é dele que se cobra resposta quando o Estado não consegue entregar aquilo que deveria.

Como se a crise do oxigênio não bastasse, veio a compra de respiradores, intermediada por uma empresa que também atuava no comércio de vinhos. O episódio chamou atenção pelo preço, pela empresa escolhida e pelas circunstâncias da aquisição. Em meio a uma emergência sanitária, a história ganhou um peso político ainda maior. Em 2020, Wilson Lima enfrentou um processo de impeachment na Assembleia Legislativa, posteriormente arquivado.

É também aqui que a Operação Maus Caminhos volta à conversa. Não porque Wilson Lima seja responsável pelos fatos investigados naquela operação — não é correto misturar os governos —, mas porque ela ajuda a entender o ambiente político que favoreceu sua eleição. O desgaste do governo José Melo abriu espaço para um outsider em 2018. Wilson foi, em grande medida, beneficiário eleitoral daquela rejeição. Por isso, quando sua própria administração passou a enfrentar controvérsias, a contradição ficou mais evidente.

Chegamos então a 2022. E aqui a planilha volta a ficar interessante. Depois de um primeiro mandato cercado de controvérsias, Wilson Lima não terminou politicamente derrotado. Foi reeleito governador, com 1.039.192 votos, equivalentes a 56,65% dos votos válidos, contra 795.098 votos de Eduardo Braga, ou 43,35%. Quatro anos antes, havia conquistado 58,50% contra Amazonino Mendes. Houve redução percentual, mas não suficiente para impedir sua permanência.

E aqui preciso incluir a mim mesmo na pergunta. Em 2022, eu também estava contra os dois candidatos que chegaram ao segundo turno. Portanto, não posso escrever como quem observa uma multidão inexplicável escolher seus governantes enquanto permanece do lado certo da história. Eu também participei dessas eleições. Votei, escolhi, perdi e, muitas vezes, vi a maioria seguir caminhos diferentes daqueles que eu preferia.

Isso não me torna mais lúcido nem mais ingênuo. Apenas mostra que democracia também significa conviver com o fato de que a maioria pode escolher um caminho diferente do nosso. O eleitor não é uma planilha, embora uma planilha possa ajudar a entendê-lo. Ele tem memória, necessidades, indignação e interesses. Pode rejeitar um candidato e rejeitar ainda mais seu adversário.

Eleição não é um concurso para escolher o candidato perfeito. É uma escolha entre as alternativas disponíveis. Às vezes, uma delas nos convence; outras vezes, nenhuma nos representa inteiramente. E há momentos em que o voto não nasce da certeza de ter encontrado o melhor candidato, mas da convicção de que, entre os caminhos possíveis, um deles pode produzir menos danos do que os demais.

Isso também é escolha política — e talvez seja uma das mais difíceis.

Anotações

Foi olhando para a minha planilha que percebi que ela conta uma história paralela aos números oficiais. O TSE registra quem venceu; a planilha registra onde eu estava. E, entre 1994 e 2022, essa trajetória mostra Aloysio Nogueira, Herbert Amazonas, Serafim Corrêa, João Pedro e Luiz Carlos Sena como candidatos ou posições que receberam meu apoio em diferentes momentos, enquanto os escolhidos pela maioria quase sempre foram outros.

Em 2014, 2018 e 2022, a situação foi ainda mais significativa: estive contra os dois candidatos que chegaram à decisão final. Não se trata de transformar isso numa medalha de coerência ou numa prova de que eu estava certo e a maioria errada, mas de reconhecer que minha memória eleitoral é feita de escolhas, derrotas, dúvidas e convicções — como a de qualquer eleitor.

Por isso, quando olho novamente para os resultados, não enxergo apenas percentuais. Vejo uma fotografia coletiva, mas também pequenos retratos individuais. Vejo a maioria escolhendo Amazonino, Eduardo Braga, Omar Aziz, José Melo e Wilson Lima; e vejo, na minha planilha, um caminho muitas vezes diferente daquele percorrido pela maioria.

Esse é o sentido mais interessante desta retrospectiva: perceber que a política não é feita apenas dos vencedores que entram para a história oficial. Ela também é feita das escolhas de quem perdeu, de quem votou diferente, de quem mudou de opinião e de quem, diante de duas alternativas, decidiu que não estava a favor de nenhuma delas.

É por isso que a memória da urna talvez seja diferente da memória dos jornais. O jornal registra a denúncia, o tribunal registra o processo, o Ministério Público registra a acusação, o governo registra a defesa e o TSE registra o resultado. Mas existe outra memória, mais confusa e difícil de medir, que fica na cabeça de cada eleitor: aquilo que viveu, esperava, recebeu, perdeu e acreditou quando apertou os números de seu candidato. Essa memória não cabe inteira numa planilha, mas pode nos obrigar a olhar para trás e reconhecer onde estávamos quando cada escolha foi feita.

Porque, no fim, esta não é apenas a história de Wilson Lima, nem da Operação Maus Caminhos, das obras milionárias, dos respiradores ou da falta de oxigênio. É também a história de como chegamos a cada governo, de quem escolhemos, de quem rejeitamos, das esperanças depositadas em determinados candidatos e das decepções que vieram depois.

Minha própria planilha mostra que, em quase trinta anos de eleições para governador, raramente caminhei ao lado da maioria e que, em algumas das disputas mais decisivas, não encontrei meu caminho em nenhum dos dois candidatos que chegaram ao fim. Mas talvez a maturidade política não esteja em esperar eternamente por um caminho perfeito. Às vezes, sabemos para onde queremos ir e, ainda assim, precisamos escolher entre estradas esburacadas.

Democracia é isso: ninguém pode se esconder para sempre na condição confortável de apenas apontar os defeitos de todos os caminhos. Em algum momento, a urna nos obriga a escolher. E talvez seja essa a pergunta que aquela velha tabela, perdida nos meus arquivos digitais, finalmente me deixou: se eu sei para onde quero que o Amazonas vá, qual dos caminhos imperfeitos estou disposto a escolher para chegar lá?

Referências

Taquiprati. Meu maninho, meu irmão. 01/11/2004

https://www.taquiprati.com.br/cronica/270-meu-maninho-meu-irmao

 

Comente esta crônica



Serviço integrado ao Gravatar.com para exibir sua foto (avatar).

1 Comentário(s)

Avatar
Rodrigo Junior comentou:
18/08/2026
É triste pensar que muitas vezes a escolha do candidato é no menos pior, e não no melhor
Comentar em resposta a Rodrigo Junior