CRÔNICAS

Pois sim, toicim! Entre tapas e beijos, a Teca.

Em: 12 de Março de 2026 Visualizações: 288
Pois sim, toicim! Entre tapas e beijos, a Teca.

"A coisa melhor da vida é ter irmãs. Não há ninguém que as substitua. Meus amores, não se esqueçam de mim, porque eu preciso de vocês como do ar". (Clarice Lispector. Carta a suas duas irmãs. Nápoles. 1944)

Nove mulheres e quatro homens: éramos 13. Mas desde que nasci, abri os olhos e encontrei uma parceira colada em mim: Maris Stella, a Tequinha, a 5ª das ir-mães por ordem de chegada, me antecedeu em um ano e quatro meses. Ela, que foi meu espelho inicial, a primeira referência na construção de minha identidade, completa 80 anos em 15 de março, sempre um passo à minha frente, desbravando caminhos até hoje, numa relação intensa de amizade, mas também de atritos. Como eu era encrenqueiro!!! (Era?) Como ela era teimosa!!! (Era?) Vou te contar!

Desculpem-me, mas tema tão transcendental está a exigir o uso de mesóclise. Por isso, pedir-vos-ei licença para falar empolado como o vice-presidente golpista Michel Temer. Assim, narrar-vos-ei aqui várias histórias: os apelidos que Teca teve na infância, as nossas implicâncias, o chega-pra-lá que dei no séquito de marmanjos que, já na adolescência, a assediavam, o cuidado e proteção que esse irmão homem (mas nem tanto) dispensava instintivamente a essa guerreira que arrancou dois dentes sem anestesia, além de sua coragem em proteger-me de sapos, ratos e baratas.

Os apelidos: Catibiribinha

O primeiro apelido da testemunha ocular da nossa história - “Caboquinha” - se deveu aos traços de beleza e graça amazônica, que nela eram visíveis aos sete anos de idade, muito mais do que agora, em que exibe outra beleza: um encanto outonal. “Diacuí”, o outro apelido, nasceu do olhar sobre uma foto na capa de uma revista. Ambos transitórios, “duraram como as rosas: o espaço de uma manhã”, embora ainda hoje, em momentos saudosos, eu a chame de “Caboquinha”. Vale a pena relatar a história do outro apelido que ela mesma escolheu e o que mais gostava. Foi assim.

A nossa vizinha Leonor, que vendia bananas, instalou na sala de sua casa um salão de beleza para atender moradores do bairro de Aparecida. Lá, no Leo’s Fashion Hair, havia um exemplar da revista O Cruzeiro com foto da indígena Diacuí Kalapalo que, aos 13 anos, casou com um senhor de mais de 30 anos, funcionário do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), na igreja da Candelária, no Rio. A misógina revista romantizou essa união forçada, que começou com estupros, conforme denúncias do avô dela em entrevista ao cineasta Takumã Kuikuro. Mas o apelido nasceu no momento em que Diacuí morreu no parto de sua única filha, em setembro de 1953.

Foi justamente este o ano da primeira comunhão da Tequinha, em Manaus e da “Marcha das Panelas”, em São Paulo, quando 60 mil operários protestaram nas ruas contra os salários de fome. Em Manaus, a tia Dedé pagou em três prestações o corte de cabelo da sobrinha no Leo’s Fashion Hair, que inovou o conceito de padrão de qualidade. Lá se cuidava da “saúde das unhas”. Lá o corte de cabelo era adequado ao tipo de rosto. Lá Tequinha, de cara redonda, bateu o olho na foto da revista e pediu um corte “Modelo Diacuí” em forma de cuia, folclorizado pela revista racista, que bancou os gastos do casamento para a noiva parecer “uma grã-fina de Copacabana” – dizia a reportagem.

A tesoura da Leonor e a escova progressiva embelezou ainda mais a Tequinha, ao alisar e conferir mais textura aos fios de seus cabelos. Daí o apelido, que acabou sendo uma homenagem à Diacuí. Não esqueci disso, pois a pouca diferença de idade nos fez compartilhar o universo cultural, as brincadeiras e o mesmo Colégio de Aparecida, onde estudávamos. Parceiros de vida, nos divertíamos com a música pegajosa ensinada pela irmã Cecília catibiribília, que gracejava com nomes e apelidos. Eu cantava:

- “Diacuí”, catibiribi, seja matuti, firifirifi. Ou Caboquinha catibiribinha seja matutinha firifirinha. Ela respondia:

- Babá catibiribá, seja matutá, firifirifá.

As briguinhas

No entanto, nem tudo eram flores e cantos. Tínhamos aquela briguinhas que fazem parte da humanidade de uma criança. A nossa “guerra” não tinha mortos e feridos, era o oposto do bombardeio à escola primária no Irã, que matou 175 meninas de 7 a 12 anos numa guerra insana, na qual os criminosos de guerra são chefes de estado, cujas atrocidades degradam a humanidade e clamam aos céus por justiça. Não morro antes de ver Trump y Netanyahu condenados num Tribunal de Nuremberg como os nazistas na Alemanha.

As encrencas eram por motivos fúteis e banais. Um exemplo. Eu convidava: - Vamos brincar de manjalé? Ela respondia: - Toma xícara de café. Eu: - Pois sim. Ela: - Toicim. Eu ia à loucura e gritava: - Não diiiiiz, Tequinha. Enfurecidos, nós nos olhávamos com raiva, olho no olho, e eu a desafiava outra vez: - Pois sim. Ela: Toicim.  Se disser toicim outra vez, te sento a porrada, eu prevenia e repetia: - Pois sim. Ela não se intimidava e teimava: - Toicim. Como era pequena e frágil, nunca cumpri as ameaças por achar covardia espancá-la. Mas a guerra se prolongava até a intervenção autoritária da dona Elisa. No dia seguinte, a briga continuava com o mesmo teor.

Não lembro o ano, mas sei que deixei de desafiá-la, quando ela mostrou ser mais forte do que eu. O campo da batalha foi o IAPC – Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Comerciários, onde nosso pai trabalhava e que funcionava no edifício de dez andares do IAPTEC, visto durante muitos anos como o Empire State Bulding de Manaus.  

Lá, nessa Dubai Towers de igarapé, foi instalado na década de 1950 o consultório odontológico, que atendia servidores do IAPC e comerciários, comandado por dois dentistas competentes: o sisudo Jorge Romcy, de origem libanesa e o risonho Benício de Oliveira, responsável pelo atendimento humanizado e pela modernização dos processos de saúde bucal. Nosso pai nos levou lá para arrancar dentes.

Fui o primeiro. A Teca, ali na mutuca, ficou só olhando. Já entrei gemendo e chorando ao ver aquela aterrorizante cadeira preta odontológica controlada por pedal. O berreiro aumentou com a picada da anestesia. O equipamento usado era aquele “motorzinho” de baixa rotação movido a correia. O barulho e a vibração eram infernais, doía meu crânio todo, eu esperneava, meu pai me segurava com firmeza. Arranquei um pré-molar e obturei outro, no meio de um escândalo com gritos que eram ouvidos na rua Itamaracá.  

Sem anestesia

Chegou a vez da Tequinha. Ela foi logo dizendo que não queria anestesia. Consultado, meu pai consentiu, talvez sob o efeito de uma dose de cocal que tomou no bar do Quintino ou por prezar a liberdade de escolha da sua prole. O doutor Romcy não discutiu. Pegou o boticão - um alicate sinistro capaz de arrancar dentes, raízes, tripas e até a alma. Sem anestesia, extraiu dois dentes dela, que não deu um ai. Levantou-se, cuspiu sangue naquele “peniquinho” esmaltado e fomos embora. Macha pacas! Fiquei embasbacado com tanta coragem e com vergonha da minha frouxidão. Passei a admirá-la e a temê-la.

Quem é capaz de desafiar a dor é capaz de tudo. De onde tirou tanta força, tanta bravura? Só revelou muitos anos depois, mostrando que venceu o medo graças a um equívoco, que a sugestionou. Era a primeira vez que ela ia ao dentista. Insegura, perguntou então à Helena, uma das irmãs mais velhas em quem confiava e que passara por essa experiência:

- Arrancar dentes dói muito?

- Arrancar não dói nada. Nada. Nada. Só dói a anestesia.

A Tequinha não relacionou uma coisa com a outra. Recusou a anestesia e criou uma expectativa de ausência de dor. A sugestão poderosa focada na ideia de que “não dói” talvez tenha impedido que os sinais nervosos do dente fossem interpretados pelo cérebro como sofrimento. Ela acreditou piamente. De qualquer forma, sua firmeza de espírito para enfrentar o suplício se revelou em várias outras ocasiões.

Parece até que ela enfrentou sem anestesia a morte da nossa mãe, em janeiro de 2001. Dona Elisa era irmã oblata vinculada à Congregação Redentorista e com isso teve direito à missa de corpo presente. A oblatíssima Teca, herdeira da religiosidade materna, é ministra da Eucaristia, distribui a hóstia consagrada durante as missas e leva a comunhão à casa de doentes e idosos. Nessa qualidade, a cerimônia fúnebre foi organizada e dirigida por ela, que antes de iniciá-la, me consultou:

- Tu podes fazer a homilia depois da leitura do Evangelho?

– Não. Sem condições – respondi com a voz embargada diante do caixão ali exposto, que doía mais do que a picada de uma agulha. No entanto, a tranquilidade da Teca na condução do ritual, controlando sem anestesia sua imensa dor, me fez mudar de ideia. Aceitei e “homiliei” sem chorar. Ela continuava abrindo caminhos para eu passar. É minha eterna referência.

Foi assim que crescemos juntos, com lembranças sempre compartilhadas. Em 2020, em plena covid, no meu aniversário de 73 anos, ela lembrou meus medos até de sapo, mas esqueceu de estendê-lo a ratos e baratas:

- “Brigávamos muito, mas éramos apaixonados um pelo outro. Uma vez ele foi a um aniversário, eu fiquei em casa. Voltou com um docinho (brigadeiro) bem amassado, que guardou para mim e me ofereceu com todo o carinho. Decidi ajudá-lo a superar o medo de sapo. Sempre que aparecia um lá em casa, me pedia para tirá-lo dali, mas eu só tirava depois de aperreá-lo bastante, acusando-o de ser medroso (um bom motivo para retomarmos a briga). Assim era a nossa relação entre tapas e muitos beijos. Tenho muitas coisas para recordar, principalmente o meu amor por ele. Pois sim, toicim!”.

Proteção de sicário  

Pois sim. Proteção eu dava, muito mais efetiva do que aquela dispensada pelo bem remunerado Sicário a Daniel Vorcaro do Banco Master. Ainda com 8 ou 9 anos, na saída do Colégio de Aparecida, eu a encontro chorando.

- O que foi?

- A Iracema me deu uma porrada. Lá vai ela - me disse apontando para a colega que descia a rua Alexandre Amorim, ao lado do irmão, que era maior do que eu.

Não pensei duas vezes. Deixei com a Teca o meu material escolar, sai correndo embalado e dei um murro na costa do irmão, que caiu de quatro no chão, catando cavaco. Retornei. Entre lágrimas e soluços, Tequinha sorria agora de felicidade. Na época, ela era malina, gostava de dar o troco.

A proteção se estendeu pela adolescência. Os pretendentes ao namoro com a “Diacuí” foram muitos: Nininho do seu Santino, Inezildo Bate-papo, Ubirajara, Oscar, filho do seu Geraldo Alho, esse com o agravante de vir com o sobrenome do pai. A pedido dela, numa ação equilibrada com respeito à sua individualidade, mandei todos para o desvio, até mesmo o bonitão Giovanni, filho de um italiano dono da Joalheria Orofino.

“Muitos são enxeridos, mas poucos são queridos” (Mateus 22:14). Talvez essas palavras sejam mais adequadas do que “Muitos são chamados, mas poucos escolhidos”. Um dos chamados, o cearense Francisco Joaquim de Alencar (1937-2021), foi escolhido pela Tequinha, deixou o seminário salesiano e se uniu a ela. Tiveram dois filhos: Sílvio e Fábio, casados hoje com Laisa e Mayara, que ao lado da Yara deram netas, netos e até uma bisneta: Silvinho, Leila, Malu, Maria Clara, João Felipe e Aninha. Ficou viúva há cinco anos, mas sempre sem anestesia. Com um filho surdo, ela que já era professora, se especializou em educação para pessoas com deficiência (PcD).

Tequinha, uma mulher de fé que contamina quem dela se aproxima, milita até hoje na sua paróquia, já fez romaria ao Vaticano, só faltou beliscar a barriga do papa. Mas não é carola, mantém profundo respeito a todas as religiões e crenças como ilustra o episódio de Cafarnaum.

Cafarnaum ou Jericó?

Foi assim. Ano de 1979. Na época, residia eu em Manaus. Domingo no início da noite, visitei nossa mãe, que morava distante uma quadra da igreja de Aparecida e lá encontrei Tequinha e o ex-seminarista cearense, que haviam acabado de assistir missa. Ele, mais exigente e proselitista, empenhado na conversão de agnósticos, cobrou:

- Você não frequenta mais a igreja?

- Acabo de assistir missa – eu menti.

- Não te vi lá na igreja – ele disse.

- Fui na outra, a de São Sebastião – menti novamente. Ele desconfiou e insistiu:

- Então, me diga qual foi o evangelho de hoje?  

 - Foi aquela parábola que fala em Cafarnaum – arrisquei, mencionando a cidade bíblica da Galileia, presente em muitas passagens do Evangelho. Não dei sorte. Naquele dia só deu Jericó. Ainda argumentei que cada igreja lia trechos diferentes do Evangelho. Não colou.  Meu cunhado fez então um sermão contra ateus que não cumprem as obrigações religiosas. Foi interrompido pela Tequinha que, solidária, saiu em minha defesa, concordou com dona Elisa,  que  lembrou meu exílio e prisão e citou as Bem-aventuranças do Sermão da Montanha:

- Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor à Justiça porque deles é o Reino dos Céus (Mateus 5:10).

Reino dos Céus

Ganhei os céus, mas demorou. Foi em outubro de 1968. Eu era repórter do jornal O PAIZ do Rio de Janeiro e fui enviado a Manaus para cobrir a morte do padre Calleri pelos Waimiri-Atroari, que defendiam seu território invadido para a construção da BR-174. Na volta, a Tequinha me levou ao aeroporto da Ponta Pelada. Nós nos despedimos. Mas por algum motivo, o avião ficou no solo por mais de uma hora com os passageiros a bordo. Eu olhava pela janelinha e vê-la, ali no terraço, sem arredar pé, aliviava meu medo de avião. Nunca esquecerei sua imagem de sentinela dos meus temores, miudinha e frágil no físico, mas tão forte no espírito. Ela só foi embora, depois que eu subi aos céus.  

Na vida adulta e na terceira idade, nós ficamos ainda mais pertos um do outro. Ah, dona Clarice Lispector, depois de ler as 120 cartas escritas entre 1940 e 1957 para suas irmãs Elisa e Tânia publicadas no livro Minhas Queridas, selecionei aquela enviada de Nápoles, na qual está dito que a coisa melhor na vida é ter irmãs. Eu sei disso. A Tequinha, Caboquinha, Diacuí é uma das minhas nove ir-mães.

P.S. – Há mais de três meses, não escrevo uma linha. Neste interregno, o sobrinho Geraldo assumiu o blog Taquiprati. Porém, ai porém, a Tequinha exigiu um texto por seus 80 anos. Fazer o quê? Não sou doido. Obedeci. Pois sim! Se o seu sogro fosse o dono da Joalheria Orofino, ela ganharia de presente um jogo de xicaras importado da Turquia com 6 peças de fina porcelana banhado a ouro, que sempre almejou. A foto mostra o que ela perdeu.

Referências: Clarice Lispector: Minhas Queridas. Rio. Editora Roco. 2007.

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2 Comentário(s)

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Vera Nilce Cordeiro Correa comentou:
12/03/2026
Rssssss José Bessa , ri muito da tua crônica lembrando do meu irmão que me dava apelidos e implicava comigo sem parar. Foi bom me lembrar dele qye morreu muito jovem. Sim, o Giovanni Orofino era bonitão rss.
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Teka Rosso comentou:
12/03/2026
Muitas crônicas com minha irmã. Adorei.
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