CRÔNICAS

COP30: salvar a Amazônia ou turismo político?

Em: 02 de Dezembro de 2025 Visualizações: 1248
COP30: salvar a Amazônia ou turismo político?

Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior

“Vê bem, Maria aqui se cruzam: este

É o Rio Negro, aquele é o Solimões.

Vê bem como este contra aquele investe,

como as saudades com as recordações.”

(Trecho do poema Encontro das Águas, de Quintino Cunha)

 

Fico pensando como é que o caboco paraense Dalcídio Jurandir (1909-1979), um dos maiores romancistas da Amazônia, avaliaria hoje a COP30. Autor de “Chove nos Campos de Cachoeira”, Dalcídio, como “todo caboco era um índio sutil”, na definição de seu colega baiano Jorge Amado. Sua opinião revelaria essa sutileza.   

Caboco, tem dias que a Amazônia acorda com jeito de encruzilhada. O sol bate torto nas águas barrentas do Guamá, as garças pousam como se soubessem de algo que a gente ainda não entendeu, e o rádio da cozinha anuncia, com voz de chamada de bingo: o mundo inteiro vem pra cá discutir o destino do mundo. É a COP30, em plena Belém. Logo Belém. Logo aqui, onde o calor não é metáfora e a água não é paisagem — é sustento, ameaça e caminho.

Nunca foi pouca coisa receber tanta promessa ao mesmo tempo.

Diferente de outras vezes, o debate agora não é sobre um gelo distante, nem sobre carvão enterrado no subsolo da Europa. Desta vez é sobre o nosso chão, a nossa água, o nosso ar quente de todo dia. A floresta deixou de ser rodapé de discurso e virou título em letra maiúscula. Isso, por si só, já é um avanço do tamanho de um igarapé em cheia.

Dizem que agora o dinheiro para a transição verde vem carimbado. Que os compromissos têm prazo, as metas têm número e dono. Que os povos indígenas falam na mesa, e não mais do lado de fora da tenda. Que a adaptação climática finalmente ganhou o mesmo peso da mitigação. Que os países ricos começaram, veja só, a falar em dívida histórica sem engasgar tanto na palavra.

Tudo isso anima. Mas também dá desconfiança.

Porque promessa de COP é que nem brisa de fim de tarde em Belém: refresca na hora, mas não garante uma noite menos quente.

A cheia não espera conferência

E é aí que a memória me puxa pelo braço. Enquanto os líderes desembarcam de avião fretado, eu volto de barco. Volto para a infância, puxado pelo cheiro do rio, pela lembrança do meu primo Daniel — um moleque alegre, com quem dividi boa parte da minha infância, desses que sempre carregam um sorriso largo no rosto.

A primeira grande lição de geopolítica que recebi na vida foi atravessar, ainda pequeno, o encontro das águas do Rio Negro com o Rio Amazonas. Duas cores correndo lado a lado sem se misturar. Ali eu aprendi, sem saber, que o mundo também é feito assim: forças que se encostam, se tensionam, mas nem sempre se encontram de verdade.

Alguns anos depois, aprendi com a poesia do cearense Quintino Cunha (1875-1943), que o rio Negro investe contra o Solimões “como as saudades com as recordações”.

Saudades daquela época, quando a gente seguia viagem pro Careiro da Várzea, pra vila do Cambixe. E tudo ali era outra medida de tempo. O relógio não mandava. Quem mandava era o rio, o sol, a chuva, a vontade da terra.

Ali eu acordei muitas vezes às quatro da manhã pra tirar leite no curral. O frio da madrugada se misturando ao vapor quente que subia da leiteira. O mugido das vacas cortando o silêncio. E eu, menino, achando que aquilo era o centro do mundo. Talvez fosse mesmo.

Ali eu aprendi o cheiro do peixe assando na brasa, em folha de bananeira. Tambaqui, pacu, sardinha, pescada. O aroma se espalhando no ar junto com o cheiro de terra molhada. Cada refeição era um acordo silencioso entre o rio e a gente. Nada de mercado internacional, nada de crédito de carbono. Só troca justa: a natureza dava, e a gente respeitava.

E agora, José?

Hoje, na COP, falam bonito sobre “serviços ecossistêmicos”. No Careiro, isso sempre se chamou comida.

Falava-se também, naquela época, de seca e cheia. Mas falava-se como quem fala de visita esperada, não de susto. Hoje a cheia chega mais alta; a seca, mais bruta. O pasto que antes aguentava, agora racha. A vaca sente. O preço do leite sobe. O caboco sente no bolso antes de sentir em qualquer relatório.

Enquanto, lá no salão da COP, alguém discute “transição energética”, eu penso nas geladeiras do Cambixe, que viviam queimando quando dava pico de energia. Penso na conta de luz subindo como se tivesse turbina de hidrelétrica dentro do valor. Prometem sol, prometem vento. Mas quem mora longe da vitrine ainda cozinha no gás caro e apaga a luz pra economizar centavos.

Quando falam em “adaptação climática”, eu não vejo mapa. Eu vejo palafita sendo levantada mais alto. Vejo gente empilhando móvel. Vejo criança atravessando rua de canoa improvisada. Vejo o igarapé subindo antes mesmo do aviso da Defesa Civil.

Os problemas continuam sentados na primeira fila. O desmatamento insiste em cair e subir como febre mal curada. A transição energética corre, mas tropeça no lobby do petróleo. O mercado de carbono cresce, mas anda com o pé em duas canoas — ora instrumento de justiça, ora salvo-conduto pra continuar poluindo com verniz verde.

E, no meio disso tudo, o caboco – esse índio sutil – se pergunta: até que ponto essa festa de líderes também melhora a vida de quem mora na palafita, de quem pega dois ônibus pra trabalhar, de quem sente a água bater no joelho antes de ouvir falar em “evento extremo”?

Eu lembro dos banhos de rio no Solimões, da água morna envolvendo o corpo, da correnteza leve carregando risada de menino. Hoje, em muitos trechos, o rio carrega também lixo, óleo, medo. O mesmo rio que me ensinou a remar agora ensina a resistir.

As COPs do mundo

Comparo assim, de memória afetiva e cansaço político. Na COP15, muito barulho, pouco acordo. Na COP21, o nascimento do Acordo de Paris, aquele que ensinou o mundo a falar em 1,5 °C como quem fala de febre perigosa. Na COP26, prometeram “manter vivo” o limite, já respirando por aparelhos. Na COP28, em Dubai, veio enfim a palavra proibida: reduzir combustíveis fósseis. Logo em Dubai, santa ironia!

Agora chega Belém. E Belém muda o enquadramento. Não é mais o planeta visto do ar-condicionado. É o planeta suando junto.

No meio desse teatro global, corre também a pequena crônica dos detalhes: dizem que o prefeito de Londres achou o nosso guaraná horrível. Talvez porque nunca tenha provado a bebida de verdade que corre no copo diário do caboco — feita de sol rachando o lombo, de água batendo na canela, de conta que vence antes do salário pingar. O guaraná é doce porque é exceção, é pausa, é festa rara; a vida, não. A vida do caboco é gole quente, sem açúcar, que a gente engole olhando pro rio pra criar coragem.

O olhar otimista diz que a COP30 pode ser o início de uma virada mais concreta: menos PowerPoint, mais obra; menos discurso, mais acordo cumprido; menos promessa pra 2050, mais ação até 2030. O olhar crítico lembra que conferência nenhuma muda o mundo sozinha — quem muda são governos, empresas e povos quando levantam da cadeira.

No fundo, caboco, a COP é como o rio: carrega avanço e sujeira no mesmo fluxo. A gente aprende a navegar olhando a corrente, testando a profundidade com o remo, errando a rota, corrigindo depois.

Se der certo, Belém pode virar símbolo de quando o mundo resolveu escutar a floresta — não como paisagem, mas como professora. Se der errado, vira só mais uma foto bonita de delegações sorrindo enquanto o Rio Solimões sobe sem pedir licença.

Por enquanto, fico com a parte teimosa da esperança. Aquela mesma que me fazia, ainda menino, olhar pra trás no barco de volta do Careiro, tentando guardar cada detalhe da margem. A esperança de quem sabe que a vida é dura, mas insiste.

Porque a Amazônia, mesmo ferida, segue em pé. E quando a floresta insiste em viver, quem somos nós pra desistir do futuro?

No mais, como diria o caboco da beira do rio, virando o peixe na brasa com calma de quem entende de tempo:

— Promessa boa é a que atravessa a cheia e volta em forma de mudança. O resto é espuma.

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1 Comentário(s)

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Salvador Benitez (via FB) comentou:
02/12/2025
A maior presença indígena da história: territórios e demarcação no foco das reivindicações, mostrando que a solução nasce onde a vida pulsa. Além disso, durante a COP30, quatros Territórios Indígenas foram demarcados: TI Kaxuyana-Tunayana (PA/AM), TI Uirapuru (MT), TI Estação Parecis (MT) e TI Manoki (MT).
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