“O passado não é revivido como lembrança, ele é atualizado no processo de memorialização” (José Murilo de Carvalho. 2010).
Memória, endeusada pelos antigos gregos como Mnemósine, mãe de nove musas protetoras das ciências e das artes, é uma fonte de imortalidade. Na peça “Não me entrego, não”, um monólogo de duas horas encenado por Othon Bastos, “Memória” é personagem vivida pela atriz Juliana Medela. Inicialmente era um “ponto” escondido nos bastidores, que "soprava" o texto quando o ator, de 92 anos, eventualmente o esquecia. Mas logo passou a contracenar no palco, como um recurso cênico, acionada na hora de algum “branco”.
- Achei interessante ter uma espécie de Alexa em cena – brincou Othon. Nós, espectadores, concordamos. Por isso, o deslembrado Taquiprati plagiou o grande Othon e trouxe a “Memória” ao palco desta entrevista para identificar, na celebração dos 75 anos da Uerj, quem era o cúmplice da instituição aniversariante. Contou como referência, entre outros recursos, com a Rede Memória Institucional da UERJ – Nilcéa Freire.
Pergunta (P) - Memória, qual a relação da Uerj com o menininho que nasceu, em 1909, na cidade cearense de Redenção, a primeira do Brasil a libertar os escravizados?
Memória (M) – Façamos a viagem ao passado. Os olhinhos azuis sonhadores daquele bebê deitado no berço contemplam o sopé do Maciço de Baturité. Ninguém sabe ainda, mas Américo – esse é o seu nome - aos seis anos vai se mudar com os pais Bernardo e Adélia para o Rio. Estudará no Colégio São José da Tijuca e na Faculdade Nacional de Medicina. Em 1934, já será médico. Nem ele imagina que viverá 111 anos até o natal de 2020.
P – Mas onde a Uerj entra nessa história, Memória?
M – É que Américo Piquet Carneiro (1909-2020), professor emérito e ex-diretor da Faculdade de Ciências Médicas, sonhou em edificar uma universidade democrática, plural, alicerçada no mérito e na liberdade radical da imaginação criadora. Ele ajudou a criar o Instituto de Medicina Social (IMS), o Ambulatório de Medicina Integral (AMI), o Núcleo de Atenção ao idoso (NAI) e a Universidade Aberta da Terceira Idade (UNATI). A Uerj não esquece quem cultivou a esperança em meio ao desencanto.
P – Memória, como Piquet Carneiro (PC) se relacionava com os alunos durante a ditadura empresarial-militar? Qual a visão dele sobre a formação do médico?

M – “Amar é escutar” – diz Othon Bastos no final da peça. Piquet escutava os discentes da Faculdade de Ciências Médicas da UEG-UERJ organizados no Centro Acadêmico Sir Alexander Fleming (CASAF), presidido por Luiz Roberto Tenório (65-66), quando questionavam o currículo por entender que a formação médica estava exaltando o espírito competitivo e individualista, sem qualquer compromisso com os problemas da sociedade.
A Comissão Curricular composta, entre outros, pelos alunos Ricardo Donato, Gil Santini e Rebeca Zetune concluiu que o ensino estava baseado na decoreba e não no raciocínio e bloqueava qualquer manifestação de consciência crítica. A Comissão elaborou documento que questionava a metodologia de ensino, rejeitava a ausência de conexão entre teoria e prática e apontava alternativas.
Piquet queria aprimorar o ensino médico para formar tecnicamente excelentes profissionais com formação humanista e conduta ética, capazes de tratar o paciente com respeito, de manter empatia em relação ao doente, não se limitando a cuidar a doença.
Nas férias de julho de 1968, ocorreu um seminário no anfiteatro do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) para discutir a formação médica, a crise das universidades brasileiras e a gratuidade do ensino ameaçada pela ditadura.
P – Ih, Memória, esqueci o que ocorreu após o seminário.
M –Ah, a juventude de hoje precisa saber. A repressão não tardou. O Centro Acadêmico foi invadido. O seu presidente Gilberto Haugen (biênio 1967-68) foi preso em agosto com mais dois colegas. A polícia processou quem editava O Plantão - sugestivo nome deste órgão oficial estudantil, por causa de um artigo considerado subversivo. A diretoria do Casaf foi ameaçada de enquadramento na Lei de Segurança Nacional.
Ainda no mês de agosto, o famigerado delegado do DOPS, Manoel Vilarinho, invadiu a Lema-Gráfica Editora Ltda e confiscou exemplares de boletim Semanário de Informação do CASAF – Departamento de Imprensa’. Foi aberto o Inquérito Policial nº 23/68. A partir daí, o delegado do DOPS, em repetidos ofícios, começou a pressionar o reitor João Lyra Filho para que dedurasse à Polícia os autores do boletim.
P –Memória, com certeza o reitor, hoje homenageado com o nome que batiza o Pavilhão Central, resistiu à pressão.
M – Nada, cara. Lembro que no dia 30 de agosto de 1968, o reitor da então Universidade do Estado da Guanabara, João Lyra Filho, enviou ofício ao diretor da FCM, professor Américo Piquet Carneiro, exigindo “em caráter de urgência”, informações sobre o responsável pelo Departamento de Imprensa do Centro Acadêmico e sobre seu Livro, explicitando que era “para atender solicitações do DOPS”.
P – Memória, qual foi a resposta de Piquet? (Memória masca chiclete para aliviar a tensão, como Carlo Ancelotti, quando Paquetá perdeu pênalti contra a Tunísia).
M - Durante um mês, nenhuma palavra saiu da Direção da FCM para delatar os alunos. No dia 29 de setembro, outro ofício do reitor João Lyra Filho pressionava e insistia nas “providências urgentes”, alertando o diretor Piquet Carneiro para a “gravidade da situação”. O reitor, irmão do ministro do Exército da ditadura, general Lyra Tavares, advertia:
“Ainda não tenho resposta ao ofício nº 270 de 30 de agosto. Trata-se de matéria grave. Nossa omissão importará em cumplicidade”.
Piquet se tornou, assim por vias tortas, o “cúmplice da Uerj”, porque se recusou a denunciar seus alunos como queria o reitor. Ele resistiu a todas as pressões. Um ano depois, em agosto de 1969, instalou-se na FCM um Inquérito Policial Militar (IPM), incriminando estudantes de todas as séries e o próprio professor Américo Piquet Carneiro, acusado de “proteger estudantes subversivos”.
P – Diga lá, prezada Memória, Piquet Carneiro (PC) pertencia ao Partido Comunista?
M – Não, não. A direitona “acusa” de “comunista” qualquer pessoa que defende os direitos humanos e se manifesta contra a repressão. Ele era PC só nas iniciais do nome e no fato de ser politicamente conservador, o que não o impediu de ser um homem bom e íntegro, correto e honesto, um humanista muito querido pelos estudantes por sua competência profissional, pela postura ética, por sua luta pela melhoria do ensino e para UEG ter seu Hospital de Clínicas.
- “Foi Piquet Carneiro quem arranjou recursos para as Ciências Médicas. O que a FCM é hoje, deve a ele” - escreveu Fábio Daflon em seu livro Título Provisório - o Movimento Estudantil nas Ciências Médicas. Fábio documentou sua fala, consultando as atas de reunião do Conselho Técnico-Administrativo da UEG e do Conselho Departamental da FCM no período de 1964 a 1977.
P. Memória, qual a reação de PC quando a polícia invadiu o Hospital Universitário e assassinou o Luís Paulo?
M – Ah, Piquet Carneiro foi corajoso. Em outubro de 1968, condenou sem hesitar, em nota oficial, a “brutal agressão policial desencadeada contra estudantes, em manifestações pacíficas, que culminou com a morte de um acadêmico de medicina e ferimentos graves em mais sete estudantes”, bem como manifestou seu “repúdio ao ataque ao Hospital com bombas de gás lacrimogêneo e com projéteis de arma de fogo”.
P – Michel Foucault em sua conferência na UEG, em 1974, mencionou a repressão e criticou o título de doutor honoris causa conferido ao ditador Médici? Você lembra?
R – Sou Memória, mas não lembro de tudo. Sei da conferência porque existe uma foto no Arquivo Nacional. Foucault, professor do Collège de France, já era celebridade internacional e militante dos direitos humanos. Um ano depois sairia seu livro “Vigiar e punir: nascimento da prisão”. Suas críticas ferinas ao poder político enfureceram os gorilas fardados. Quem sabia de tudo era a professora da Uerj, Heliana Conde, criadora do Laboratório de História e Memória da Psicologia, falecida ano passado. Ela pesquisou as passagens de Foucault pelo Brasil, registrando curso por ele ministrado na USP, quando assistiu assembleia estudantil na qual foram denunciadas prisões e torturas. Em solidariedade, o filósofo francês suspendeu o curso dias antes do assassinato de Vladimir Herzog.
P – Para finalizar, Memória: Quer dizer que PC era unanimidade em sua cumplicidade com a UERJ?
M – Não, toda unanimidade é burra, já dizia Nelson Rodrigues. Leia o artigo de Jane Dutra Said na bela “Homenagem a Américo Piquet Carneiro, meu professor”. Ela fala na “firmeza mansinha e férrea” de PC na defesa da Medicina Social, que sofreu oposição de grande parte do corpo docente da FCM. Enquanto Piquet era reverenciado internamente pelos estudantes e externamente pela Organização Panamericana de Saúde (OPS), a congregação fazia ásperas críticas ao “curso inútil” de um “bando de bêbados”, “comunistas”:
- “Ouvi muitas críticas a Piquet Carneiro, na verdade, sempre a mesma, da parte de cirurgiões enérgicos e doutorzões autoritários: “Ah, o Piquet é gente boa, mas não passa de um sonhador...”, E eu ria sozinha olhando os sonhos transformados em prédios, cursos, estudantes, debates, ambulatórios. Um sonhador em 3D.
P - Memória, qual a sua mensagem final?
M – Tenho duas mensagens. A primeira é que todos aqueles que foram perseguidos por lutarem por mudanças e aperfeiçoamento da UERJ certamente concordarão que o professor Américo Piquet Carneiro, na comemoração dos 75 anos de UERJ, simboliza a resistência contra a barbárie, pelo seu exemplo de dignidade e coragem. Ditosa a instituição que conta com um Piquet Carneiro no seu quadro de professores.
P – E a segunda mensagem, Memória? Você esqueceu?
M – Não, mas hesitei em falar. É uma crítica a você. O leitor já sabe que quem responde é a personagem Memória. Precisava encher o saco de quem lê repetindo em cada pergunta: Memória e isso? Memória, e aquilo? Égua, eu hein!
P – Memória, você ficou demasiadamente autônoma pro meu gosto. Você deixou muita coisa de fora. Refresque sua memória, Memória. Consulte os textos abaixo:
Referências:
Sayd, Jane Dutra (2018). «Homenagem a Américo Piquet Carneiro, meu professor». Physis – Revista de Saúde Coletiva 28 (3).
Neto, Francisco Barbosa (2019). A importância do professor Américo Piquet Carneiro para a saúde no Brasil. Rev. Bras. Geriatr. Gerontol. 22 (2)
Rodrigues, Heliana de Barros Conde. Michel Foucault no Brasil. Esboços de história do presente. VERVE (PUCSP), v. 19, p. 93-112, 2011.
Daflon, Fábio. Título Provisório - o Movimento Estudantil nas Ciências Médicas. São Paulo, Editora Quilombo. 2009.
Bessa Freire, José R.. Departamento de Alunos: a que será que se destina? Relatório de março de 1988, apresentado ao Conselho Universitário da Uerj.
TV-Uerj. Núcleo de Memória Audiovisual. Memória Uerj – Américo Piquet Carneiro. 40min 4/10/1980. Coordenação: Maria Luiza Tindó e Gabriela Rangel https://www.youtube.com/watch?v=32f2bRayHHY
P – Memória, não tive o prazer de conviver com Piquet Carneiro. Aprendi a admirá-lo através de vários amigos, a quem aqui homenageio: os saudosos Hésio Cordeiro, João Regazzi, Nilcéa Freire, Ronaldo Lauria e Ricardo Donato. Os que estão entre nós: Ivo Barbieri, Reinaldo Guimarães, José Augusto Messias, Luiz Roberto Tenório, Renato Veras, José Augusto Quadra, Paulo Roberto Volpato, Ricardo Santos, José Henrique Aquino. Esqueci alguém, Memória?
M – Esqueceu, mas te lembro, no dia em que Othon Bastos for convidado – e eu com ele – para celebrar os 75 anos da Uerj, com a peça “Eu não me entrego, não”. Suspeito que se isso acontecer, não sobrará uma só cadeira nos 1.100 lugares do Teatro Odylo Costa, filho. Voce esqueceu também de informar aos leitores que a foto abaixo é de 1989. Te lembro aqui: Em pé da esquerda para a direita: Um médico do HUPE, Ricardo Santos (Planejamento), Lino Martins (DGA), outro médico do HUPE, Mario Sitinoveter (Planejamento), Ricardo Donato Rodrigues (Diretor do HUPE) e Pedro Henrique Ribeiro.(IBM). Sentados: Um tal de José Bessa (assessor do Reitor), José Henrique Aquino (Sub-Reitor de Assuntos Comunitários), uma médica do HUPE, Inez Padula (médica do HUPE), Ivanita Gil Villon (Chefe de Ganinete do Reitor) Isac Vasconcelos (Sub-reitor de Graduação) e um médico do HUPE.
P - Você esqueceu quatro nomes, Memória. Vou perguntar da Ivanita que lembra mais do que você.

Capítulos publicados:
A UERJ é uma brasa, mora! A festa de 75 anos (I)
https://www.taquiprati.com.br/cronica/1787-a-uerj-e-uma-brasa-mora-a-festa-de-75-anos-i
Miss Amnésia, a UEG e os avanços da Pátria (II)
https://www.taquiprati.com.br/cronica/1789-miss-amnesia-a-ueg-e-os-avancos-da-patria-ii
Na dor que nos devora: Uerj, a mini-pátria (III)
https://www.taquiprati.com.br/cronica/1791-na-dor-que-nos-devora-uerj-a-mini-patria-i
Os russos na UERJ: os quatro zeros contra Moscou (IV)
https://www.taquiprati.com.br/cronica/1794-os-russos-na-uerj--os-quatro-zeros-contra-moscou-iv
Memória, quem é o tal cúmplice da Uerj? (V)
https://www.taquiprati.com.br/cronica/1806-memoria-quem-e-o-tal-cumplice-da-uerj-v
