CRÔNICAS

EU ODEIO A ESCOLA

Em: 14 de Outubro de 2007 Visualizações: 9111
EU ODEIO A ESCOLA

Era apenas um menino, de 14 anos, solitário e triste. Cursava a nona série numa escola de Ohio, nos Estados Unidos. Quase ninguém o chamava pelo seu nome de batismo: Asa H. Coon. Como mancava de uma perna, era mais conhecido por um apelido cruel, algo assim como “Deixa-que-eu-chuto”. Nessa quarta-feira, 10 de outubro, entrou na escola com dois revólveres, um em cada mão, como um caubói disposto a se fazer respeitar no faroeste. Fez muitos disparos. Feriu quatro pessoas. Depois, se suicidou. Foi preciso morrer para conquistar outro apelido: “Deixa-que-eu-atiro”.

No dia seguinte, longe dali, em Filadélfia, Pensilvânia, outro adolescente, também de 14 anos, foi preso. A polícia, após descobrir que ele acessava um site na internet com instruções para fabricar bombas, encontrou em sua casa um arsenal com pistolas automáticas e granadas. O menino estava preparando um ataque à escola, de onde havia fugido para evitar humilhações. Queria se vingar da crueldade dos colegas, que o chamavam de ‘Baleia Prenha’, por causa de sua extrema obesidade.

A violência nas escolas americanas já fez dezenas de vítimas, desde a tragédia de Columbine, em 1999, quando treze pessoas foram assassinadas. Há seis meses, em abril, foi um sul-coreano que matou 32 estudantes na Universidade Virginia Tech, e deixou um manifesto se queixando das afrontas recebidas porque pertencia a uma ‘cultura estranha’ e falava uma língua diferente. Em outubro do ano passado, cinco meninas foram assassinadas numa escola religiosa anabatista, na Pensilvânia.  Um mês antes, um menino de 15 anos, matou o diretor de seu colégio, em Wisconsin. E por aí vai.

A Polícia descobriu a pólvora e a roda, quando classificou os autores dessa violência como “portadores de problemas emocionais e psicológicos”. Tal juízo foi feito muito tarde e pela instituição errada. Trata-se não de um diagnóstico médico, mas de um laudo policial preconceituoso, elaborado a posteriori, que olha hoje o ‘desequilibrado’, como no passado se olhava o leproso. Ele é visto como um inimigo da sociedade, que deve ser isolado e punido, e não como alguém que precisa de tratamento.

Ohio que o parta 

Afinal, o que está acontecendo? Por que meninos usam a escola como palco de ações homicidas? O que estão querendo nos dizer quando se suicidam, depois de matar e ferir colegas e professores? A gente não consegue entender o recado que nem eles mesmos desconfiam que estão mandando. Talvez fossem compreendidos se escrevessem um conto ou poema, pintassem um quadro, compusessem uma música. Mas usaram a linguagem das balas, predominante hoje nos EUA e na ocupação americana do Iraque. Quem sabe George Bush pode nos traduzir, pois essa parece ser a sua língua materna, digo paterna.

O menino de Ohio entrou na escola mancando, com duas armas, como John Wayne num filme de bang-bang ou como um soldado americano no Iraque. Estava vestido todo de preto: casaco, camisa Marilyn Manson e jeans, as unhas pintadas com esmalte escuro e o pescoço cheio de cadeias estilo gótico. O primeiro disparo atingiu um colega de turma, que o havia esbofeteado após uma discussão sobre a existência de Deus. Depois, feriu outro colega e dois professores. No meio da confusão, berrou, antes de se suicidar: “EU ODEIO ESTA ESCOLA”.

Esse grito fere a nós, professores, talvez tão profundamente quanto as balas, porque evidencia nosso fracasso. A instituição na qual acreditamos, longe de ser um lugar de reflexão, de liberdade e de convivência amistosa, torna-se um espaço insuportável de opressão e de negação da alteridade. A escola que pretende uniformizar as pessoas – e a farda é apenas um símbolo disso – revela que está despreparada para lidar com a diferença. Não ensina as regras de conviver com quem é diferente. O pernetinha, o surdo, o gordão, o cara de olho puxado, o índio, o caboco e o negro são estigmatizados.

A escola, como regra geral, não educa para a diferença em nenhum país. Acontece que ela dialoga sempre com a sociedade que a abriga. Nos EUA, num sistema extremamente competitivo, a escola ‘prepara’ os alunos para serem ‘winners’ (vencedores). Não há lugar para ‘losers’ (perdedores). Os fracassados são esmagados. Há ainda um agravante: a facilidade com que até um ‘loser’ pode comprar uma arma, o que possibilita que se faça, em escala menor, aquilo que Bush faz no Iraque em proporções gigantescas, assassinando milhares de pessoas.

Sociedade-caveirão

Quem está doente não é o “Deixa-que-eu-chuto” ou o ‘Baleia Prenha’. Doente é a relação deles com a sociedade através da escola. É essa relação enferma, produto da sociedade-caveirão, que deve ser tratada. Esses conflitos em instituições de ensino dos EUA nos permitem refletir sobre o modelo de escola e o papel do professor, bem como discutir o tipo de violência que acontece num país complexo como o Brasil. Um fato ocorrido recentemente no Rio de Janeiro pode servir de ilustração.

Uma professora carioca decidiu cursar Biblioteconomia depois de se aposentar. Hoje ela é minha aluna na UNIRIO. Contou, em sala de aula, um assalto que sofreu dentro de um ônibus, na Avenida Brasil, quando voltava pra sua casa, em Campo Grande, Zona Oeste. Em paradas diferentes, entraram três jovens. Um deles, que parecia ser o chefe, botou um revólver na cabeça do trocador e gritou: “isso é um assalto”. Um segundo menino, também com uma arma na mão, ficou apontando pro motorista, enquanto o outro recolhia, numa sacola, dinheiro, celulares e jóias dos passageiros.

Quando já não havia mais o que roubar, o chefe do grupo deu ordem pro motorista parar. Mas no momento de descer, a professora aposentada o identificou como seu ex-aluno no ensino fundamental. Não se conteve e deu um grito dolorido: “Vandernilson, que decepção! Tanto trabalho pra nada!”. Provavelmente, ela era a única pessoa, além da mãe, que o chamava pelo nome de batismo. ‘Pereba’, assim ele era conhecido, ordenou aos seus parceiros: ‘Sujou! Sujou! Devolve tudo’.

Enquanto o ônibus prosseguia no seu itinerário, eles iam devolvendo os pertences de cada um. Depois, Vandernilson, o Pereba, bastante constrangido, pediu desculpas à sua ex-professora e desceu provavelmente para assaltar outro ônibus. Os passageiros aplaudiram a mestra, cujo aluno podia até não gostar da escola, mas que ainda nutria afeto e respeito por uma de suas professoras.

Na véspera do Dia do Professor, homenageamos todos os mestres que procuram respeitar a diferença. Entre eles, alguns do Instituto de Educação do Amazonas e do Ginásio Amazonense na década de 1960, que compartilharam com seus alunos o que tinham de melhor: Orígenes Martins, Carlos Eduardo Gonçalves, Mercedes Ponce de León, Nathércia Menezes, Hilda Tribuzzi, José Braga, Isis Falcone, Garcitylzo Silva, Lurdinha Telles, Stélio Lobato, Afonso Nina, Manoel Otávio, Farias de Carvalho e tantos outros, que merecem a gratidão perene de seus ex-alunos.

P.S. - Ver também  http://www.taquiprati.com.br/cronica/1056-todo-prefeito-e-wandernilson

2) Eu odeio a escola - http://www.taquiprati.com.br/cronica/116-eu-odeio-a-escola
3) A escola de Cho.  http://www.taquiprati.com.br/cronica/141-a-escola-de-cho
4) Educando para o boiolice http://www.taquiprati.com.br/cronica/140-educando-para-a-boiolice

 

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12 Comentário(s)

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Heloisa Helena Alves comentou:
18/04/2011
Acabei de chorar por todos os fatos triste que sempre acontece com os seres humanos, comigo aconteceu na escola,colegas me chamavam de coelhinho e na primeira dor de dente mandei o dentista arrancar todos os meus dentes,hoje na faria isso,o que está faltando nos humanos é aprender a amar o outro respeitando e compartilhando uns com os outros de acordo com as necessidades do seu próximo.
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Rejane Machado comentou:
11/04/2011
Você está certo, caro colega. Parabéns pelo magnífico texto. Tmbém tenho uma experiência para acrescentar, mas o texto ficaria um pouco longo e eu não sei se haverá espaço aqui. Comecei professora de crianças,2ºano primário, antigo. E tive oportunidade de tirar um menino de um caminho difícil
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Conceição Campos comentou:
10/04/2011
Essa é a mágica que a educação verdadeira pode nos oferecer. Gratidão perene também a você, Bessa. Dessa sua aluna (e, eu tenho certeza, de tantos outros que passaram pela sua sala de aula), Conceição
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Giane comentou:
10/04/2011
Coisa parecida aconteceu comigo. Eu tinha 18 anos e trabalhava com arte e educação na Favela do Pica Pau Amarelo. Nós, as professoras (que eu nem era naquela época, era estagiária) éramos uma das poucas referências de afeto naquela comunicade. Afeto com as crianças, jovens e pais (também eles precisavam ser acariciados). Um dia encontrei um dos meninos pedindo comida numa padaria do Méier. Quando ele me viu, sem que eu dissesse nada, me pediu "desculpas, professora", com os olhos envergonhados.
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VANIA TADROS comentou:
08/04/2011
BESSA, A CRONICA ESTÁ MUITO BEM ESCRITA. É UM DOS ASPECTOS QUE PODEM SER OBSERVADOS, INCLUSIVE A MORAL QUE A PROFESSORA TEM COM OS ALUNOS, PROCEDE. MAS, ESSA NÃO É A ÚNICA HIPÓTESE A SER ANALISADA, O RAPAZ VIVIA NA INTERNET PROCURANDO CASOS DE ASSALTOS, EXPLOSÕES DE AVIÃO. QUANDO EXPLODIRAM AS TORRES GEMEAS ELE FALOU PARA A FAMÍLIA QUE IRIA EXPLODIR O CRISTO REDENTOR. ESSES JOVENS ESTÃO DEMENCIANDO E A FAMÍLIA NÃO PERCEBE.
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Djwery comentou:
08/04/2011
É... nada justifica essas barbaries, mas uma boa educação com um modelo mais progressista, com certeza, melhoraria muito esse tipo de ação. Valeu Bessa! Parabéns pelo texto...
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Dirce Mello (1) comentou:
08/04/2011
O grande problema do povo brasileiro é educação em todas as áreas mas se o povo for educado vai saber votar e se o povo souber votar, acaba a mamata dos corruptos e dos populistas. A cronica está ótima, antigamente ser professor era uma das mais nobres profissões, o professor era valorizado e respeitado pelos alunos e pelos pais
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comentou:
08/04/2011
Dirce Mello (2) hoje, depois q o governo desrespeitou totalmente o professor com o salário de fome e a falta de plenos de cargos e salários e alguns professores passaram a vender merenda e outros produtos para poder sobreviver, os alunos o tratam como pobre coitados, perderam o status e é justamente o q o governo quer, os os nossos governantes sabem q o professor ñ elege mas ajuda a derrotar.
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Dirce Mello comentou:
08/04/2011
O grande problema do povo brasileiro é educação em todas as áreas mas se o povo for educado vai saber votar e se o povo souber votar, acaba a mamata dos corruptos e dos populistas. A cronica está ótima, antigamente ser professor era uma das mais nobres profissões, o professor era valorizado e respeitado pelos alunos e pelos pais, hoje, depois q o governo desrespeitou totalmente o professor com o salário de fome e a falta de plenos de cargos e salários e alguns professores passaram a vender mere
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Dora Jardim comentou:
08/04/2011
Nossa escola hoje não ensina e não educa.Infelizmente para quem se interessa e felizmente para os que tem interesse em manter os mais pobres ignorantes.Nada acontece por acaso.
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pmohiswhg comentou:
08/12/2010
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david honório comentou:
23/08/2010
Infelizmente a escola atual tem uma tendencia segregacionista onde o ambiente escolar foi feito para ensinar e principalmente para educar hoje é o contrário.onde há preconceito e discriminação e infelizmente não há solucão para reverter este problema.Definitivamente a escola perdeu o seu valor e exemplo de vida
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