CRÔNICAS

Crimes da Gaiola de Ouro: Edson Oliveira e os ressarcidos

Em: 21 de Setembro de 1993 Visualizações: 2346
Crimes da Gaiola de Ouro: Edson Oliveira e os ressarcidos

Vestiu a camisa escocesa quadriculada, igual à do Sherlock Holmes em “O cão dos Baskervilles” e saiu por aí. Em vez de tomar chá com torrada, ele colocou o bonezinho basco, parecido com o do detetive Hércules Poirot em “O cadáver na biblioteca”. Deu duas baforadas no cachimbo, imitando o detetive Auguste Dupin em “Os assassinatos da rua Morgue” e falou para sua esposa a mesma frase do comissário belga Maigret, em “A neve estava suja”:

Tania, il y a du poisson ici! (que o velho mestre Miguel Duarte traduziria como: “Tânia, aqui tem truta”).

Alto, dono de uma voz tonitruante que deixa a do Nobre Leão parecendo miado, filho de Mato Grosso, combatente social desde os gloriosos tempos da Uesa, Edson Oliveira é um dos advogados mais competentes e íntegros de Manaus. Na verdade, ele nunca vestiu camisa escocesa ou boné coisa nenhuma (aliás, aqui pra nós, o Holmes e o Poirot também não). No entanto, a natureza do fato exige este tipo de figurino e de cenário.

É que Edson de Oliveira estava diante do maior desafio de sua carreira, que exigia a colaboração de todos os detetives de romance policial: descobrir os autores dos crimes da Gaiola de Ouro.

Uma soma equivalente a 220 mil dólares, ou seja, 26 bilhões de cruzeiros (26 milhões de cruzeiros reais), corrigidos nos valores de hoje, desapareceram misteriosamente dos cofres da Câmara Municipal de Manaus, no período de janeiro a setembro de 1991. Feitas as contas com calculadora eletrônica, um professor municipal hoje teria que trabalhar 10.500 meses, ou seja, 875 anos para juntar essa quantia que havia sido abiscoitada em apenas nove meses.

Identificar os criminosos não era tarefa fácil. O seu auxiliar Francisco Praciano Watson, cearense de Itapipoca, já havia levantado algumas pistas. O dinheiro do povo havia sido apropriado por vereadores como “ressarcimentos médicos e odontológicos”. No entanto, faltava saber quem eram os vereadores ressarcidos. Para encontrá-los, teriam que usar a dedução lógica e não a violência. Decidiram começar pelo “teste criminal”.

O teste do palito

É simples — explicou Oliveira Holmes.

Distribuímos um palito de fósforo para cada vereador. Pedimos que cada um deles feche o palito na mão direita e coloque as mãos para trás, como quem joga par ou ímpar. Em seguida, explicamos aos edis que o palito se manterá do mesmo tamanho nas mãos dos honestos. Mas crescerá a metade do seu tamanho nas mãos dos ressarcidos. Três minutos depois, eles deverão colocar as mãos para a frente e abrir à direita. Desta forma, pegamos quem ficou com a grana.

— Este não é um bom método — protestou Praciano Watson. Palitos não crescem sozinhos nas mãos de ninguém, nem do PC Farias.

— Elementar, meu caro Praciano. Justamente, palito não cresce sozinho. Acontece que os ressarcidos não se caracterizam pela agudez de inteligência. No entanto, eles são metidos a espertinhos. Então, o que é que vai acontecer? Aqueles que tiverem culpa no cartório, quando colocarem as mãos para trás, vão quebrar o palito ao meio e jogar fora a outra metade, para que o palito, crescendo, fique do tamanho normal. Portanto, todos aqueles que tiverem um palito pela metade são os ressarcidos que procuramos.

Não deu outra. O teste foi feito. Nas mãos limpas dos vereadores Jefferson Péres, Vanessa Grazziotin, João Pedro, Francisco Praciano, Mário Frota e Serafim Leite havia um palito inteiro. Palitos pela metade apareceram nas mãos dos edis Raimundo Furtado (47 mil dólares), Robério Braga e Lourdes Lopes (21 mil dólares cada um), Leonel Feitosa, César Bonfim, Antônio Carioca, Carrel Benavides, Omar Aziz, Manoel Paiva, Roberto Alexandre, Domingos Leite e outros.

— Pegamos com a mão na cumbuca. São esses os ressarcidos — gritaram ao mesmo tempo Edson Holmes e Praciano Watson. Nas mãos de alguns vereadores, como Omar Aziz, Robério Braga e Leonel Feitosa, só existia mesmo a cabecinha do palito de fósforo, assim decepado, porque eles temeram que crescesse mais do que a metade.

Tem truta

Depois disso, muitas coisas aconteceram no condado de Manaus: um atentado a bomba molotov e 15 tiros na casa de Praciano, cujos autores nunca foram encontrados; uma ação popular impetrada por Pedro Missioneiro que até hoje, inexplicavelmente, permanece engavetada; perícia do Tribunal de Contas dos Municípios constatando irregularidades na gestão de César Bonfim — superfaturamento, ausência de concorrência pública, pagamentos antecipados a algumas empresas por serviços que jamais foram realizados. E, finalmente, uma Comissão Processante da Gaiola de Ouro, para apurar as denúncias, tendo como seu relator o “insuspeito” ressarcido Leonel Feitosa. Quer dizer, ele mesmo vai julgar se ele cometeu ou não delito.

— O TCM não me convenceu — afirmou correndinho Leonel Feitosa (A Crítica, 11/9/93). Dias depois ele explicou o porquê: o relatório do TCM tem erros de datilografia (14/9/93). E desta forma, questionava a capacidade de algum familiar, aderente ou xerimbabo da família Lins, trabalhando como datilógrafo no Tribulins.

Durante o seu funcionamento, a Comissão Processante fugiu do Praciano como o capiroto da cruz. No depoimento a ela prestado, César Bonfim quebrou outro palitinho pela metade e acabou, sem querer, se entregando e entregando a todo mundo:

— Negócio seguinte. Tudo bem! Não vou discutir o telhado da Câmara que não foi substituído, nem o superfaturamento. Agora, não fui eu quem falsificou os recibos dos ressarcidos.

— Ops! Pera lá, pera lá! Quem falou em recibos falsificados? Nós pensávamos que falsas eram as doenças milionárias — a dor de dentes do Robério Braga, os espirros do Leonel Feitosa, as flatulências do Omar Aziz. No entanto, acreditávamos que os recibos eram verdadeiros — comentou Edson Oliveira, levantando a sobrancelha direita como o Arsene Lupin. Ele atirou no que viu e acertou no que não viu. Dando uma de Ellery Queen, comentou:
There is some more fish there (que traduzido pela Miss Bell significa: aí tem mais truta ainda).

Aí, foi o que vocês leram no domingo na excelente matéria assinada por Jocilene Chagas, que usou os mesmos recursos jornalísticos da Mary Open Ulcers, jornalista do The Sun, de Londres, que ajudou a desvendar “Os crimes do padre Brown”.

Bico de papagaio

O Edson Oliveira, como advogado do Praciano, solicitou e obteve da juíza responsável pelo processo, Alzira Ewerton, os documentos a respeito do ressarcimento. Ele constatou, efetivamente, indícios de crime, como emissão de recibos de falsidade ideológica, que podem levar à abertura de inquérito policial e à cassação de mandato de vários vereadores.

Os recibos do atual presidente da Câmara, Omar Aziz, do seu vice Raimundo Furtado, do relator da comissão Leonel Feitosa e de outros foram assinados por pessoas que não estão inscritas nos Conselhos de Medicina e de Odontologia. Vários recibos de médicos diferentes foram assinados pela mesma pessoa. Um deles, em nome do vereador João Batista Noronha, tem uma assinatura com o carimbo de um registro do Conselho Regional de Odontologia, mas o tratamento prestado aparece como “bico de papagaio”.

— Recibos falsificados? Isso é um problema do César Bonfim. Não tenho nada a ver com isso. Quanto aos ressarcimentos, a parte que me tocou, já estou devolvendo. Vou depositar no banco — declarou Omar Aziz, sem explicar se o faria com a devida correção monetária, mas admitindo, com seu gesto, ter praticado irregularidades.

Edson Oliveira sentou-se num sofá parecido com o que tinha na sala de visitas do sargento Cuff, em “A Pedra-da-lua”. Deu várias baforadas em seu cachimbo e exclamou, atiçando o fogo da lareira:
— Em Manaus, a realidade é mais forte do que a ficção. De qualquer forma, mais um mistério foi desvendado. Está solucionado o caso dos “crimes da gaiola de ouro”. Agora, cabe à Justiça, à Polícia e aos movimentos sociais cumprirem a sua parte.

Conhecendo a teia das relações manauaras, como a gente conhece, a esperança reside nos movimentos sociais. Oxalá possam seguir o exemplo dos evangélicos de Coari, que fizeram uma passeata na Semana da Independência, com o lema: “Desperta-te, Coari! Liberta-te espiritualmente”.

— Desperta, Manaus! Liberta-te dos corruptos!

PS — Conan Doyle, Agatha Christie, Chesterton, Simenon e outros autores de romances policiais enviaram o seguinte telegrama: “Ribamar Bessa, transmita nossos parabéns e toda a nossa solidariedade a Edson Oliveira, Praciano, Pedro Missioneiro, Jocilene Chagas, e a todos aqueles que estão contribuindo para sanear a cidade.

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