.Decidimos entrevistar dois especialistas, para entender como os sete “anões” da Comissão de Orçamento do Congresso conseguiram montar a maior rede de corrupção do País. Ambos são conceituados professores da Universidade do Amazonas, os melhores em suas respectivas áreas: doutor Júlio Torres, ortopedista e doutor Manoel Dias Galvão, psicanalista e psiquiatra. Um entende pacas de osso. O outro, de alma.
Como as entrevistas são difíceis, o único responsável pelo que os dois médicos declararam é este que batuca estas mal traçadas linhas.
TAQUI PRA TI (TPT) — Doutor Júlio Torres, o que vem a ser condrodistrofia geral?
JÚLIO TORRES (JT) (Altamente esclarecedor) — É uma simples acondroplasia.
TPT (fingindo entender) — Puxa vida! Como não pensei nisto antes? Claro. A condrodistrofia só podia mesmo ser uma mera acondroplasia. Mas tem gente ignorante que não compreende. Dá pra traduzir isso?
JT — São nomes que a ortopedia dá para doenças que impedem o crescimento normal do osso em comprimento. Os indivíduos que nascem com essa malformação são conhecidos vulgarmente como anões.
TPT — Mas isso não é uma bênção divina, uma possibilidade de se permanecer eternamente criança? Já pensou, alguém de 50 anos poder ouvir de sua mãe: “Cadê a toisinha fofa e mimosa da mamãe?”
JT — Ah, não! (Que trocadilho infame!). O problema é que existe uma desproporcionalidade entre as várias partes do corpo do anão, que tem cabeça grande e volumosa, pescoço curto e grosso, deformidades nas mãos, no quadril, nos joelhos e nos pés. É uma malformação congênita, que impede o crescimento do osso, mas não o seu envelhecimento. Quem nasce anão, “cresce” — digamos assim — anão e morre anão. É uma doença incurável.
TPT — O senhor diagnosticaria a doença dos sete deputados da Comissão de Orçamento como acondroplasia? O João Alves, o Nelson Ned das loterias, é condrodistrófico?
JT — Absolutamente. Todos eles são tampinhas e nanicos. Mas chamá-los de anões é uma ofensa para aqueles que sofrem realmente de nanismo. Os anões têm caráter, são íntegros. A doença dos deputados não é do osso, é da alma.
Anões éticos
Descartada a hipótese de que os sete deputados são “anões ortopédicos”, resta a possibilidade de que sejam “anões éticos”. Procuramos o psiquiatra e psicanalista Manoel Dias Galvão.
TPT — Doutor Galvão, o que vem a ser o nanismo ético?
MDG (fungando) — É uma doença adquirida na sociedade. É o resultado de uma má formação do caráter. O indivíduo doente perde a consciência das regras e dos valores morais e apresenta distorções e deformações no comportamento.
TPT — Quais são os grupos de risco?
MDG — Veja você. Recentes estudos realizados na Itália pelo doutor Tomaso Buschetta Choskota e no Japão pelo doutor Nomura Kadeomeu apontam os políticos, os empreiteiros e os banqueiros como setores mais fáceis de serem contagiados.
TPT — O anão físico pode tirar vantagens do seu tamanho trabalhando em circo, por exemplo. E o anão moral, pode aproveitar a sua estatura ética para ser útil à sociedade? O João Alves disse que ele ganhou muitas vezes na megasena.
MDG (fungando duas vezes) — É evidente que sim podemos aproveitar essa sorte do deputado. Se eu fosse o presidente Itamar Franco, criaria o cargo de Apostador-Geral da União (AGU). Nomearia o deputado João Alves para exercer tal cargo e daria uma boa verba do Orçamento para ele ir ao exterior e jogar em loterias, cassinos, turfes, bolsas de valores, porrinha. Com o dinheiro obtido dessa forma pelo AGU poderíamos pagar a dívida externa do Brasil.
TPT — Quais são os diferentes graus dessa doença moral e como ela evolui?
MDG — De acordo com rigorosos estudos de Hans Creutzfeldt e Alfons Jakob essa é uma doença priônica caracterizada por sintomas neurológicos, trata-se de uma encefalopatia espongiforme progressiva e intratável, você entendeu?
TPT – Claro que entendi, doutor Galvão. O senhor poderia exemplificar?
MDG (dá quatro cafungadas) – Sim. Existe o anão de bairro, o anão municipal, o anão estadual e o anão federal, que são etapas diversas da mesma doença. Todos eles não fazem a menor diferença entre o público e o privado.
TPT — Como se desenvolve a doença de cada um na avalição de Jakob-Creutzfeldt.
MDG — O anão moral de bairro é aquele que rouba talheres de avião, se apropria de papel, clips, grampos e fita scotch no local de trabalho. O doente não tem consciência de que está cometendo pequenos furtos. Nesse primeiro estágio, a doença é facilmente curável, se diagnosticada a tempo. O anão municipal já está num grau mais avançado da doença, pois finge tratar-se dela e cobra caro pelos ressarcimentos médicos. Tira dinheiro público para fins pessoais.
TPT — O César Bonfim e os vereadores ressarcidos como Omar Aziz, Robério Braga, Raimundo Furtado, Leonel Feitoza podem ser considerados como anões municipais?
MDG — Você tira a conclusão que quiser. A única coisa que posso adiantar é que a maior ambição do anão municipal é chegar a ser anão estadual ou federal. Aí, em vez de simples ressarcimentos, passarão a lidar com orçamento, grandes empreiteiras, etc.
TPT — O doente de nanismo moral assume publicamente sua doença?
MDG (fungando oito vezes) — De jeito qualidade nenhuma. Em geral ele procura dizer que os outros é que são doentes.
TPT — Essa sua afirmação procede. Na terça-feira passada, o deputado Euler Ribeiro (PMDB/AM), que parece já ter sofrido de nanismo estadual, declarou sobre Genebaldo Correia, Ibsen Pinheiro e Mauro Benevides: “Estou deprimido com as acusações de corrupção feitas a meus amigos. Torço para que eles não estejam envolvidos. Continuarão sendo meus diletos amigos, qualquer que seja o resultado das investigações, mas se forem culpados terão que responder por seus atos na Justiça”. Macho pacas, esse Euler! Só que na terça-feira, apareceu no JB o nome do próprio Euler, acusado por José Carlos dos Santos como um dos envolvidos no escândalo do Orçamento.
MDG — Pois é, né! A tese de que grande quantidade de sabão produz grande limpeza não se aplica necessariamente à moral, onde é mais correta a ideia de que uma excessiva mania de limpeza indica um interior não muito limpo.
TPT — E o Gilberto Miranda, irmão do Egberto Collor Miranda de Mello? Quem o vê na televisão, investigando os outros anões, acredita que ele é gigante pela própria natureza. O deputado Mercadante conta que quando descobriram a casa de dólares na casa do José Carlos dos Santos, ele, Mercadante, pegou um maço de notas de cem dólares e comentou: “Puxa, aqui deve ter muito dinheiro”. Miranda retrucou: “Aí tem dez mil dólares”. Contaram. Tinha. Vá ter golpe de vista assim no raio que o parta.
MDG — No entanto, o nanismo moral, ao contrário do nanismo físico, tem cura.
TPT — Como combater o nanismo moral?
MDG — Isolando o foco infeccioso em seu próprio terreno. No Rio de Janeiro, já está marcado para o próximo domingo um arrastão contra a corrupção, que vai sair do Leme até o Leblon. Em São Paulo, Brasília e outras capitais haverá idêntico movimento. Em Manaus, depois que o juiz Ubirajara Moraes concedeu liminar suspendendo o processo que investiga denúncias de desvios de verbas na gestão de César Bonfim, o Movimento pela Ética na Política decidiu também sair às ruas.
TPT — Uma última pergunta: é possível erradicar definitivamente o nanismo moral?
MDG — Sim. Da mesma forma que o mata-mosquito contribui para erradicar a malária, a pressão nas ruas pode acabar com o nanismo ético. Ou pelo menos, exercer sobre ele um razoável controle e mudar as regras das emendas de orçamento. Por incrível que pareça, essa doença está condenada historicamente a desaparecer. No Brasil, já se começa a exterminá-la. Mas tem que ir às ruas. Tem que ir às ruas.