."Jamás, Señor Ministro de la Salud, fué la salud más mortal" (César Vallejo. Los nueve monstruos. Poemas Humanos. 1939)
“Veja para onde vai o dinheiro da saúde no Amazonas! Será que a criação do IPMF do Adib Jatene terá o mesmo fim?”
Este bilhete lacônico, com uma exclamação e uma interrogação, me foi enviado por três leitores que assinaram apenas as iniciais MDG, RC e SP. Dentro do mesmo envelope, postado na Agência Central dos Correios de Manaus, no dia 5 de agosto, havia cópias de seis atas da Comissão de Tomada de Contas Especial, criada pelo Escritório de Representação do Inamps no Amazonas.
As atas fazem referência a um prejuízo causado ao Inamps no valor total de 10.934.939,30 UFIRs, o que equivale a R$ 8.271.187,80, com a Comissão verificando procedimentos dolosos ou culposos de dois ex-secretários de Estado de Saúde, os médicos Arnaldo Russo e Abelardo Rodolfo Lemos Pamplona, obrigados a ressarcir ao Inamps partes do valor citado, além de juros e demais acréscimos legais.
Não se trata aqui de discutir o conteúdo dessas atas ou de saber se a quantia desviada já foi recolhida aos cofres do Inamps, mas apenas de constatar que as verbas destinadas originalmente à saúde da população vêm sendo sistematicamente saqueadas por quadrilhas de espertalhões, não só no Amazonas, mas em todo o Brasil.
Por isso, armou-se toda uma polêmica em torno da Contribuição sobre Movimentações Financeiras (CMF) que o Governo pretende criar para custear provisoriamente os gastos com saúde, prevista para durar dois anos, de acordo com fórmula que teria sido já negociada com o relator da emenda constitucional que criará a CMF, o senador Bernardo Cabral (PP-AM).
Questiona-se o imposto, porque o ministro Adib Jatene, de cuja honestidade ninguém duvida, exige mais recursos, mas até hoje não apresentou nenhum projeto para reformular e sanear o sistema de saúde. Em vez de elaborar uma política para seu ministério, estabelecendo critérios para o destino das verbas, Jatene tem se preocupado única e exclusivamente em pagar despesas. Aliás, por causa disso, Jatene receberá provavelmente um puxão de orelha amanhã, em reunião dos ministros com FHC, na Granja do Torto.
É quase certo que o Congresso rejeite a criação do CMF. Neste caso, é provável que depois disso Jatene peça demissão, o que não tranquilizará o trio MDG, RC e SP, autores do bilhete, porque com CMF ou sem CMF, continua o problema do mau uso dos recursos destinados à saúde.
Fossem os autores do bilhete realmente amantes da poesia, entre suas interrogação e exclamação, lembrariam do poeta peruano César Vallejo, que escreveu um poema intitulado “Os nove monstros”, onde descreve o absurdo da miséria e da dor humana, que cresce no mundo “cada trinta minutos por segundo”, sem que o homem nada faça para minorá-la. Os versos de Vallejo se aplicam como nunca ao Brasil:
“Jamás, Señor ministro de la Salud, fué la salud más mortal!”.
No Brasil, a Saúde mata.
P.S. — Ceiça Tribulins, me encontro contigo na esquina do Taquí Pra Ti, na terça-feira.
