Corrupção eleitoral e fraudes nas listas de eleitores, marcando o processo de escolha de representantes do Amazonas; debate na Constituinte Estadual sobre liberdade de ensino e escola pública, gratuita e de qualidade; crise no abastecimento de Manaus e escassez de gêneros alimentícios; aluguéis de imóveis residenciais caros e salários baixos, dos professores e de outras categorias assalariadas; greves na zona portuária, mexendo com o quotidiano da população; questões sobre Manaus e a modernidade.
Esses são alguns dos problemas abordados no volume 2 da revista "Amazônia em Cadernos" do Museu Amazônico, que acaba de sair da gráfica da Universidade do Amazonas (UA).
No entanto, se essa problemática guarda uma estreita relação com a atualidade e parece ter sido extraída dos jornais de hoje, um simples olhar no sumário da revista mostra que o foco principal - do ponto de vista espacial e cronológico - é a Província do Amazonas na segunda metade do século XIX, quando dois modelos - o europeu e o tapuia - ainda disputavam a hegemonia na região. Trata-se de um período crucial da história regional, quando são definidos os rumos que explicam o aqui e o agora.
Do ponto de vista temático, o leque é bastante amplo, envolvendo questões de demografia, ecologia, organização do sistema de produção e da rede de trocas, comportamento das elites, poder político, educação, ocupação do espaço urbano, modernidade, resistência e luta.
Perguntas
Quando é que os índios deixaram de ser maioria no Amazonas? Qual o valor e os limites dos levantamentos censitários da época? Como trabalhá-los hoje? Por que as constantes crises de abastecimentos dos gêneros alimentícios? O solo da Amazônia é mesmo pobre em nutrientes e impróprios para a agricultura? Um conjunto de perguntas formuladas permite dimensionar a importância dos artigos da revista.
Como eram escolhidos os representantes políticos do Amazonas? Quem votava e quem era votado? Qual o papel dos partidos políticos? Por que o sistema eleitoral existente durante o Império favoreceu a corrupção permanente? Outras perguntas se centraram sobre o sistema de ensino.
Como se deu o debate sobre a educação no Primeiro Congresso Constituinte do Amazonas, onde Lima Bacury e Fileto Pires - hoje desconhecidos nomes de ruas em Manaus - polemizavam sobre o ensino público gratuito, laico e obrigatório? Como estava organizada a instrução pública, quando a Casa dos Educandos Artífices tinha como professores alguns presidiários que saiam da cadeia e iam ministrar seus ensinamentos, acompanhados de guardas? Ou alemães que não falavam uma só palavra em português?
Os artigos tentam formular essas e outras dezenas de questões e ensaiar algumas respostas para elas, explorando às vezes novas fontes ou prospectando fontes conhecidas sob novos ângulos e incorporando de forma sistemática conhecimentos recém-produzidos por outras disciplinas auxiliares da história, que se debruçaram sobre a Amazônia.
Não se limitam apenas à realidade empírica. Explicitam, em alguns momentos, as concepções de história, verdade, fato e documento histórico, e aprofundam a reflexão sobre a pesquisa histórica e sua metodologia, como quando se discute o uso dos jornais como fontes e o processo de aproximação sistemática entre História e Imprensa ou o significado do discurso da imprensa operária.
Contra a colonialidade
"Não entrar em empatia com o vencedor" e "explorar a história do ponto de vista do soldado raso e não do grande comandante". Isto que vem explicitado no artigo sobre a Cabanagem constitui o pano de fundo também dos demais trabalhos, orientando a perspectiva de seus autores.
É essa consciência que permite, entre outros fatores, a construção dos novos cenários aqui desenhados.
Todos os autores dos artigos têm, ainda, em comum, o fato de estarem vinculados de uma forma ou de outra à Universidade Federal do Amazonas que, desta forma, busca ocupar o seu espaço na produção de conhecimentos, não se contentando com sua mera reprodução. A maioria está ligada ao Curso de História, que começou a funcionar a partir de 1981 e, alguns anos depois, já era identificado como o foco de um grupo emergente de pesquisa, com alguns trabalhos publicados circulando na praça.
Mas a revista reúne também artigos de pesquisadores de outras áreas, com preocupações afins, como as áreas de literatura, comunicação, educação e ciências sociais.
Quase todos os autores seguiram - ou estão seguindo - cursos de pós-graduação em universidades como a USP, UFF, UFRJ, PUC/SP ou na própria Universidade do Amazonas. Os trabalhos aqui reunidos passaram, portanto, por diferentes crivos acadêmicos e foram debatidos em diversos foros. São projetos de doutorado, capítulos de dissertação de mestrado, trabalhos apresentados em curso de pós-graduação como exigência de algumas disciplinas ou em encontros da Associação Nacional de Professores Universitários de História (ANPUH) e até mesmo um capítulo de monografia de conclusão de curso de graduação.
História em construção
Trata-se de uma contribuição relevante ao debate sobre a Amazônia, de interesse para os universitários de diferentes cursos e de utilidade para os professores do sistema estadual e municipal de ensino. No entanto, a tentativa de revelar alguns aspectos da história do Amazonas e da cidade de Manaus é feita aqui com a consciência sobre a real natureza do conhecimento produzido, em processo de construção, longe, muito longe das verdades acabadas e definitivas.
Nesse sentido, talvez seja conveniente recuperar aqui uma relação pessoal deste locutor que vos fala com o "Journal de la Société des Américanistes" (JSA), uma publicação periódica transdisciplinar, que vem sendo editada regularmente há mais de cem anos e que reúne em suas páginas uma produção de qualidade elaborada ao longo do tempo por pesquisadores de diferentes nacionalidades, abordando os mais variados temas vinculados ao continente americano.
Durante mais de um século o JSA circulou com artigos, debatendo, entre outras questões, os problemas relacionados à região da Pan-Amazônia (um de seus colaboradores, no final do século passado, foi o paraense radicado em Paris, Barão de Sant´Anna Nery)
Uma leitura cuidadosa desses artigos, numa sequência cronológica feita em 1983 evidenciou como em cada quinze-vinte anos a visão do mundo acadêmico sobre a Amazônia passa por mudanças radicais. As verdades e certezas de uma década se desmoronam com rapidez, cedendo lugar a dúvidas e abrindo o caminho para a construção de novas certezas que logo serão derrubadas, num movimento incessante em busca da apreensão da realidade.
Cada geração de pesquisadores, retomando o conhecimento acumulado, faz a sua própria leitura da Amazônia e contribui com novas reflexões. Como elas serão, inevitavelmente, superadas, conviver com a ideia de provisoriedade do conhecimento não deixa de ser uma atitude de profunda sabedoria, que impede que nos instalemos em saberes acabados. Isso é, justamente, o que caracteriza a postura cientifica.
Sem dúvida alguma, este número da revista "Amazônia em Cadernos" está acrescentando alguns elos na cadeia deste processo.
Referência: Geraldo Sá Peixoto Pinheiro (org) - História em Novos Cenários. Revista AMAZÕNIA EM CADERNOS do Museu Amazônico, da Universidade do Amazonas (vol. 1, 2, nºs 2/3 dez 1993/1994; 251 pgs.
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