CRÔNICAS

Uma toada para Marielle: a flor que fura o asfalto

Em: 18 de Março de 2018 Visualizações: 4876
Uma toada para Marielle: a flor que fura o asfalto

Tentaram nos enterrar, mas não sabiam que éramos semente (Provérbio mexica).

Tonadas de Manuel Rodriguez, escrita por Pablo Neruda e musicada depois por Vicente Bianchi, martela na minha cabeça nesta quinta-feira (15), no caminho para a manifestação contra o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Pedro. As vozes do Coral Sinfônico da Universidade do Chile ecoam dentro de mim, cantando a epopeia do político e guerrilheiro Manuel Rodriguez executado pelos militares espanhóis, em 1818, quando lutava pela independência do Chile:

- Ele era nosso sangue / nossa alegria / os assassinos o mataram / sua costa está sangrando / pelo caminho – chora Neruda, que pede que "as guitarras se calem, a pátria está enlutada, nossa terra se escurece". Violeta Parra também fez sua homenagem, mas atualiza Manuel Rodriguez, trazendo-o para o seu tempo, com a música: Hace falta un guerrillero. A heroicidade do personagem é manifestada através da sua vontade declarada de ter um filho batizado com este nome, na esperança de que “ele já vai nascer com uma espada na mão e o coração de Manuel”.  

Um poema puxa o outro. O luto por Marielle me conduz da toada chilena para A flor e a náusea de Carlos Drummond, cada dia mais atual, nos lembrando que “o tempo não chegou de completa justiça. O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera”. Ele pergunta: “Posso, sem armas, revoltar-me?”. O inimigo está com a faca, o queijo, os fuzis e as balas na mão, o que aumenta nosso sentimento de impotência.

Na hora da desesperança, quando a gente se sente esmagado e derrotado pela barbárie, a poesia e a música são um refúgio legítimo para recuperar a humanidade perdida. Drummond me mostra a flor furando “o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio” e, dessa forma, “me salvo e dou aos poucos uma esperança mínima”. A poesia e a música, territórios onde os assassinos não entram, tem esse poder milagroso de colocar ao nosso alcance a arma da razão com muita munição de esperança. Manuel Rodriguez morre, mas seu sangue aduba o solo do Chile libertário. E Marielle?

Meio século depois

Vinte mil flores furaram o asfalto no Rio de Janeiro e outras milhares brotaram em cidades do Brasil e do exterior: Lisboa, Paris, Londres, Madri, Nova Iorque e mundo afora. O sangue derramado por Marielle e Anderson, atingidos por balas federais pagas por nós, contribuintes, adubam a luta por justiça social. Não fosse assim, os criminosos venceriam. Mas a luta continua, a flor fura o asfalto, o nojo e o ódio dos discursos que proliferam na rede vomitando estupidez.

Março de 2018, lá estava eu, com minha filha a tiracolo, no mesmo local onde estive em março de 1968, na Cinelândia, em frente às escadarias da atual Câmara de Vereadores, que na época abrigava a Assembleia Legislativa.  Lá, há meio século, o caixão do estudante Edson Luís foi velado à noite toda e, na manhã seguinte, uma multidão já tomava desde cedo a Cinelândia para protestar contra a ditadura e contra a polícia comandada pelo então governador Negrão de Lima (MDB vixe vixe).

É inevitável a lembrança do velório e do enterro de Edson Luís, de 18 anos, assassinado em março de 1968 por policiais militares, nenhum deles punido. Agora, meio século depois, caminhando da Cinelândia para a Rua Primeiro de Março, lembrei as palavras de ordem que a gente gritava para as pessoas que nos contemplavam das calçadas e das janelas dos edifícios no trajeto para o Cemitério São João Batista, em Botafogo, levando o caixão de Edson Luís:

- Você que é explorado, não fique aí parado.

Embora os manifestantes comovidos pelo assassinato de Marielle tenham se multiplicado rapidamente, tem ainda muita gente inerte e apática na sociedade brasileira. Encontrei algumas pessoas da minha geração que participaram dos dois eventos. Com eles lembramos o discurso do jornalista Otto Maria Carpeaux para a multidão na Cinelândia em 1968, que reflete as dificuldades de realizar nosso sonho.

O pirão repartido

Era ainda na parte da manhã. O enterro de Edson Luís estava marcado para as 16 horas e até lá os oradores se sucediam nas escadarias da Assembleia. Carpeaux, com dificuldades na fala, se inscreve. Ele talvez fosse naquele momento, com Antônio Callado, a voz mais crítica e lúcida do jornalismo brasileiro. Recebe o microfone das mãos de Elinor Brito, da FUEC – Frente Unida dos Estudantes do Calabouço e faz uma proposta que não foi aceita, de antecipar o enterro: 

- Passamos antes pela Avenida Presidente Wilson e tocamos fogo no Consulado Americano. Depois, no caminho a Botafogo, na Rua Pinheiro Machado incendiamos o Palácio Guanabara.

Os meus colegas de faculdade, que sabiam da admiração que eu nutria por Carpeaux, me cobraram:

- O cara está doido.

Nem o mais radical dos estudantes concordava com a proposta politicamente disparatada, que se diluiu entre tantos discursos. Mas naquele momento e agora mais que nunca, entendi Carpeaux, cuja reconhecida e permanente lucidez foi obscurecida em alguns instantes pelo desespero. Na época, ele tinha a idade que tenho hoje. Suspeito que estava com medo de morrer sem ver um Brasil justo, democrático, com o pirão repartido. Ao ver a multidão, pensou que aquela era a hora de uma convulsão social.

Essa é a sensação da minha geração, cujos sonhos são abalados quando uma lutadora social, uma vereadora com quase 50 mil votos, tem cassado o seu mandato e ceifada sua vida. Todos nós morremos um pouco com ela que, no entanto, nos deixa a semente da luta.

Não se trata de uma bala perdida, de mais uma morte, como comentou o general Villas Boas, tentando despolitizar o fato e banalizar o crime. O que ocorreu foi um atentado terrorista planejado e cometido um mês depois da intervenção militar no Rio de Janeiro, com munição desviada da Polícia Federal. Isso tudo nas barbas de quem justificou que o objetivo da intervenção era dar mais segurança à população. As autoridades constituídas, ministros e até o presidente da República, que tem impedido a investigação de corrupção, juram sobre a Bíblia que farão “uma investigação rigorosa” para encontrar os executores e os mandantes deste atentado contra as instituições democráticas. Se não derem uma resposta rápida, fica evidente que é puro lero-lero para desviar a atenção da opinião pública.  

É assustadora a leitura dos acontecimentos por alguns setores que usam as redes sociais para assumir os disparos como seus. Contra a indigência intelectual e moral, contra o déficit civilizatório, vamos à concentração na Candelária na terça-feira, dia 20, às 17 hrs, seguida de marcha para a Cinelândia. Exatamente no mesmo cenário e no mesmo percurso da missa de sétimo dia de Edson Luís, semente, como Marielle, de tantas flores que furam o asfalto.

P,S. 1 - Mensagem repassada pelo desembargador Sérgio Verani, ex-diretor da Escola da Magistratura do Rio de Janeiro (EMERJ):

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21 Comentário(s)

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Maria Da Glória Abdo (FB) comentou:
19/03/2018
Só agora vou conseguir escrever.Estamos num retrocesso politico angustiante .Mortes de lideranças de esquerda ficou banal.Mas com a com a revolta causada com o assassinato da Marielle quem sabe é o iniciou de uma nova era .Lastimosamente a Globo esta sendo o porta voz sendo que ela mesma apertou esse gatilho quando estimulou os batedores de panelas no impedimento da Dilma.
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Isabela Torres comentou:
19/03/2018
Muito triste tudo isso! A situação do estado e da cidade do Rio de Janeiro é muito grave devido ao enraizamento da violência crescente nos anos 70. O problema não está no estado...é o próprio estado, onde as milícias, principalmente, e o tráfico assumem o poder aproveitando-se do pouco conhecimento de uma população que de uma certa forma os defendem...ao ver lideranças políticas importantes como seus inimigos. Preces para Marielle...energias boas para o seu espírito...é o que ela precisa de nós agora... uma vez que não fomos capazes de fazer nada por ela. Parabéns, professor, pelo texto.
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Marizelma Perim Firmo (via FB) comentou:
18/03/2018
Li o texto chorando. As coisas estão chegando a proporções descomunais.
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Elias Torres (via FB) comentou:
18/03/2018
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Goreth Paiva (via FB) comentou:
18/03/2018
Pessoas que poderiam tá curtindo uma vida sossegada, mas a vida lhes chamou ao combate e lá estão eles de novo. Minha homenagem a todos esses exemplos de determinação e coragem aos lutadores acima dos 70 anos.
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Jose Airton Parente comentou:
18/03/2018
Fomos de uma geração de muita luta, de enfretamento para conquista da democracia.muitos perderam a vida mas faz parte do jogo. Hoje me irrita vê gente nova sem disposição de luta.
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Estrela Guerreira (via FB) comentou:
18/03/2018
Com base à morte dese jovem, Edson Luiz, a meio Século, hj os fatos se repetem com as mesmas características, a da ditadura! As suas sobras e suas crias, estão no Congresso desde a invasão com o golpe político, na mesma ação e na mesma proporção..aliás, numa proporção um pouco pior, incutindo o ódio que podemos assim classificá-lo: #GloboXGlobólatras.! "Ei, você que é explorado, não fique aí parado!" A Marielle poderá se repetir, sendo um de nós,mesmo pq não adotamos a Tirania, a volta da escravidão, mas a igualdade com direitos a todos na sua legitimidade de cidadão!
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Fernando Soares Campos (via FB) comentou:
18/03/2018
Uma toada para Marielle: a flor que fura o asfalto Publicado no Portal Pravda - Rússia - versão em português - Mundo - 18.03.2018http://port.pravda.ru/mundo/18-03-2018/45183-brazil_marielle-0/
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Rodrigo Martins Chagas comentou:
18/03/2018
Boa noite professor Bessa, parabéns pelo seu texto e começar a crônica com esse provérbio foi genial. Um grande abraço! PS: Para quem tiver interesse segue o link da dissertação de mestrado de Marielle Franco: https://pdfdocumento.com/marielle-franco-upp-a-reduao-da-favela-a-tres-letras-_59f693c81723dd24c941038e.html
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Marco comentou:
18/03/2018
Nos encontraremos lá, entre a Candelária e a Cinelândia!
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Maria Luiza Oswald (via FB) comentou:
18/03/2018
Que texto maravilhoso José Bessa. Li com as lágrimas escorrendo. Por incrível que pareça, na trágica noite da execução de Marielle sonhei com o assassinato de Edson Luis. Acordei desesperada. Sou da sua geração e tenho o mesmo medo atroz que você tem, e Carpeaux tinha, de não ver mais a luz da liberdade brilhar sobre o Brasil. Muito obrigada por esse texto que entra em nós por todos os poros. Viva Marielle, Viva você, Viva Otto Maria Carpeaux!!!
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Eneida comentou:
18/03/2018
Grata, querido Professor Bessa por suas reflexões! Por conta de um 'poder' desacreditado e que cultiva a impunidade, Marielle não resistiu, como ainda resiste nossa UERJ. Mas Marielle vive e está presente (como nossa UERJ) na militância por cidadania. Essa cidadania que dela foi arrancada brutal e covardemente.
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Solano Cerqueira (via FB) comentou:
18/03/2018
Copio do DCM: O PSOL vai denunciar a desembargadora Marília Castro Neves ao Conselho Nacional de Justiça por causa da postagem difamatória da magistrada na rede social, em que, com base em fake news, acusa a vereadora Marielle Franco de ser ligada à facção criminosa Comando Vermelho. Segundo o UOL, a notícia foi confirmada pelo vereador Tarcísio Motta, do PSOL do Rio. O Partido vai também representar contra a desembargadora pelos crimes de calúnia e difamação. “Mancharam, absurdamente, o nome dela (vereadora)”, disse Tarcísio. “Não vamos deixar uma situação como essa sem consequência”, afirmou. A OAB do Rio de Janeiro também estuda medidas contra a desembargadora.
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Neusa Trindade (via FB) comentou:
18/03/2018
Lembrar Edson Luis foi fundir o passado com o presente. É uma forma de reviver os acontecimentos e tentar tirar algumas lições.
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Ana Silva comentou:
17/03/2018
Linda, poética e sensível! Marielle presente, hoje e sempre!!!
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Vera Nilce Cordeiro Correa (via FB) comentou:
17/03/2018
Lindo e emocionante texto. Obrigada José Bessa. Eu que do Edson Luiz não vi o velório e só fui à missa campal na praça são Sebastião, com cavalaria do exército em volta, la em Manaus, só lembrava dele, e de tudo da época, quando nesta quinta o dia todo ali na Cinelândia sentindo a dor da desesperança que anda tomando conta de mim. Abraço
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Weber comentou:
17/03/2018
"Tentaram nos enterrar, mas não sabiam que éramos semente"
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Maria Celina Muniz Barreto comentou:
17/03/2018
Grata pela crônica poética que me fez chorar e sentir vontade de não desistir. Marielle Vive!
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Alessandra Marques comentou:
17/03/2018
Só agora consegui ler. Já tinha visto seu texto mais cedo, mas me faltava um pouco de ânimo, tudo tão triste. Seu texto fala bem sobre esse tempo terrível que estamos vivendo. Precisamos de força e coragem para lutar. Grande abraço
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Renata Corrêa M G (via FB) comentou:
17/03/2018
Que tristeza! Que horror! Seu texto descreveu perfeitamente o absurdo desse momento e a intensidade da manifestação na Cinelândia!
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Isa Silveira (via FB) comentou:
17/03/2018
Não sei comentar a tamanha tristeza que é viver nesse período político...
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