CRÔNICAS

Simpatias populares: a cura dos ressarcidos

Em: 28 de Setembro de 1993 Visualizações: 1888
Simpatias populares: a cura dos ressarcidos

“Mente por todos os dentes” (Conde de Castela, ano 974 d.C.)

Apesar de tudo, de tantas mentiras e enganos, os ressarcidos ainda contam com a simpatia popular? Acertou quem, incrivelmente, respondeu sim. É o que vamos tentar provar, revelando documentos inéditos enviados pelo repórter Tambaqui, que provocarão uma espetacular reviravolta no caso.

Duzentos e vinte mil dólares, ou seja mais de 28.000.000.000,00 bilhões de cruzeiros (equivalente a 28 milhões de cruzeiros reais) foram desviados dos cofres públicos da Câmara Municipal de Manaus, no curto espaço de nove meses, para reembolsar, diz-que, gastos com saúde de uma meia dúzia de vereadores espertalhões e mentirosos. Se fosse na Península Ibérica no ano 974 d.C., em um povoado às margens do rio Douro, eles seriam punidos de acordo com norma aprovada pelo Conde de Castela, que determinou:

- Se ocorreu caso de muita calúnia, proceda-se a inquérito legal e se comprovado arranque-lhe os dentes ao mentiroso.   

- Isso é muito sério, muito sério – como diria o prefeito Amazonino Mendes, enfiando uma tampa de caneta bic em seu ouvido e girando-a para raspar lá de dentro um pouquinho de cera – antigo hábito adquirido na época em que era ainda prefeito biônico, segundo um de seus assessores.

Num primeiro momento, a opinião pública ficou estarrecida com tanta sujeira descoberta e denunciada corajosamente pelo então vereador Praciano. Perguntava-se: por que a sofrida população de Manaus tem de pagar por esses monumentais gastos pessoais, equivalentes a 875 anos de trabalho de uma professora municipal?

Ninguém entendia, também com nobres e engravatados edis, aparentemente sadios, desfilavam sorridentes nas colunas sociais no período em que deviam estar na UTI. Como haviam “engravidado” nesses nove meses com moléstias bilionárias?

Vamos-e-venhamos. Todos nós desconfiávamos que as doenças não passavam de uma “síndrome de PC Farias”. Agora, descobre-se que os recibos também são falsos. A certeza da impunidade era tamanha, que nem sequer disfarçavam a letra do “médico”, colocando nomes sem o registro correspondente nos Conselhos Regionais de Medicina e Odontologia.

Formiguinha morta

Depois das denúncias do advogado Edson de Oliveira, os vereadores Aloysio Nogueira de Mello, Jefferson Peres, Vanessa e Serafim Corrêa, do bloco dos sadios, requereram uma CPI para apurar a fraude. No meio da discussão, um nobre edil que responde pelo nome de Eliúde (é isso mesmo!) Bacelar, faz uma proposta esdrúxula como seu nome, que rima com ataúde:

– Pera lá pessoal! Pra que CPI? Não vamos ficar agora futucando coisas do passado. O passado morreu. Vamos esquecer. Não podemos dar trela para exesvereadores (sic). Daqui a pouco vão querer abrir uma CPI por causa da morte de uma formiguinha.

O que quié isso, Eliúde? Formiguinha morta? E na CPI não vai nada não? E o rombo nos cofres públicos, como é que fica? Assim a gente fica sem saber se o Eliúde é um ingênuo de carteirinha, com firma reconhecida, ou um anta juramentada. Em qualquer dos casos, não devia figurar como representante do povo.

Diante de tantas evidências, a CPI foi aprovada. Os vereadores Omar Aziz, Raimundo Furtado e Leonel Feitoza juraram, de pés juntos, que vão devolver a grana. Leonel declarou solene: “Não quero nenhuma mancha maculando a minha trajetória política”. Rarárá, como riria o macaco Simão.

Numa contribuição para moralização da vida pública no Amazonas, a coluna “Taqui pra Ti” coloca hoje, publicamente, à disposição da CPI, algumas receitas aviadas para curar as doenças dos vereadores. Elas foram descobertas pelo repórter Tambaqui e explicam, enfim, porque os médicos que as despacharam não têm registro no Conselho Regional. São “simpatias populares”, as únicas com as quais os ressarcidos podem contar. Como todo mundo sabe, essas práticas tradicionais de medicina popular não têm vez no CRM, que as considera “crenças e superstições populares”, por ser incapaz de ler o saber transmitido oralmente através das gerações.  

RECEITA 02/01/1991

Nome do doente: Omar Aziz
Sintomas: Prisão de ventre e de pensamento. Flatulência intelectual e diarreia mental.

Simpatia: Pegue duzentas colheres de mel, duas folhas de hortelã e dois torrões de açúcar. Junte tudo num panelão e deixe uma noite na escuridão, tomando sereno, em frente à sede da OAB. No outro dia, antes de ir para a Câmara, lambuze o corpo todo. Depois, lambuze o ex-presidente da OAB, cantando a música “Vingança” do Lupicínio: “O remorso talvez seja a causa de meu desespero”. Chame os jornais e diga que o Edson de Oliveira tem suas contas na OAB sob suspeição. Ninguém, mas ninguém mesmo, vai acreditar. No entanto, você se sentirá melhor.

Médico: Negão da Compensa III

RECEITA 08/03/1991

Nome do doente: Leonel Feitoza
Sintomas: Manchas na trajetória

Simpatia: Vá à porta do Tribunal de Contas dos Municípios e jogue três punhados de sal grosso, concentrando-se e rezando para que as manchas desapareçam. O sal cairá, certamente, na cabeça de algum Lins. Acenda uma vela cor-de-rosa e coloque flores no altar de Nossa Senhora Aparecida, todas as terças-feiras, durante um mês, depositando dez por cento do ressarcimento nos cofres da igreja. Depos cante: “Virgem Mãe Apareciiiiiiida, estendei o vosso olhar…”. Quando a imagem ficar branca, é porque você, também, Leonel, ficou imaculado.

Médico: Escagael, do Plano Inclinado.

RECEITA 12/04/1991

Nome do doente: Robério Braga
Sintomas: Gengiva inchada e periodontite aguda.

Simpatia: Pegue a formiguinha do Eliúde e mate-a pela segunda vez. Em lugar de colocar o cadáver da formiga em um ataúde, misture-o com um pedacinho de casca de barata torrada e uma folha de “maria mijona”. Depois, pegue a caneta bic usada pelo Amazonino, limpe com elas suas unhas, misture o conteúdo, acrescentando três dentes de alho moído. Em seguida, faça uma pasta e esfregue os dentes, cantando a música de Beth Carvalho: “Tem gosto de marmelada e o pobre do povo é que leva no dorso, mas da fruta que eles gostam, eu como até o caroço”. Muito cuidado para que o Conde de Castela não mande arrancar seus dentes. Você verá que dentro de sete dias, a gengiva estará desinchada, deixando você com a boca livre.

Médico: Zezão da Baixa da Égua

RECEITA 14/05/1991

Nome: Raimundo Furtado
Sintomas: Pira anticomunista

Simpatia: Adquira um rosário virgem, cujas contas nunca tenham sido dedilhadas. Leve-o a benzer por um padre que tenha feito desobriga em Nhamundá. Em seguida, reze para São Paulo Cesar, no túmulo de um cônego que tenha sido vigário da catedral, iniciando do fim para o começo. Depois, dê um nó no rosário, desamarrando quando a pira desaparecer. Se não desaparecer, escreva seu sobrenome num papel, dobre-o e enterre-o no fundo do quintal da casa do deputado Eronildo Bezerra. Se a pira não desaparecer, procure um dermatologista de nome Sardinha que, no seu tempo de estudante, tenha sido presidente do DCE. Ele vai receitar um purgante que é tiro-e-queda, capaz de limpar até sua alma. Se ainda assim a comichão anticomunista persistir, cante a música de Monsueto: “A fonte secou, quero dizer que entre nós, tudo acabou”. E devolva o dinheiro do ressarcimento, Furtado. Devolva o furtado, Furtado. É feio cuidar da saúde individual com dinheiro do povo. Olha. Procura a Unimed, a Golden Cross. Vai lá e diz que fui eu que mandei. Quem sabe assim me dão uma comissão (não confundir com comichão do Paraguachu).

Médico: Even Hoxa do igarapé de Manaus

Por falta de espaço, não publicamos as outras receitas. Se o leitor é funcionário público, na hora do chefe sair para tomar cafezinho, reúna seus colegas de repartição, escolha o seu vereador ressarcido preferido e continue os exercícios, fabricando novas receitas. Datilografe-as na máquina da repartição, com papel da repartição, tire fotocópias na xerox da repartição, mande o original para a CPI e distribua as cópias no seu local de trabalho.

PS – Tá certo, a culpa é do Amazonino que não manda recolher o lixo. Mas escuta aqui, Basilhão da Cohab-AM do Parque Dez, briga com o Amazonino, não briga com minha irmã. Se tu continuares a jogar lixo em frente à casa dela, eu juro que formo o Esquadrão da Carilha e vou aí tomar providências. Quem avisa, amigo é.

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