CRÔNICAS

Bolsonaro, Vorcaro e o filme para inglês ver

Em: 18 de Maio de 2026 Visualizações: 12
Bolsonaro, Vorcaro e o filme para inglês ver

Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior

 

“A corrupção não é uma invenção brasileira, mas a impunidade é uma coisa muito nossa.” (Jô Soares)

 

Caboco, essa semana eu não vou escrever para vocês. Pelo menos não exatamente para vocês. Vocês já sabem da prisão do Bolsonaro, da tentativa de golpe, do filme em inglês, do banqueiro enrolado até o gogó em investigação financeira e da ópera-bufa que virou a direita brasileira nos últimos anos. Esse assunto já está mais saturado que o igarapé da Compensa depois de temporal em Manaus. A televisão fala disso. O YouTube fala disso. O TikTok fala disso. Até grupo de família, aquele território onde tia compartilha oração, receita de bolo e teoria conspiratória no mesmo áudio de sete minutos, já transformou o tema em pauta diária, não é mesmo, tia Dile?

Então esta semana escrevo pensando em outro público: os bolsonarentos. Na verdade, escrevo para que vocês repassem este texto para um deles. Vai que entende. Porque, sinceramente, meu filho de 13 anos entendeu rapidinho.

Esses dias ele me perguntou:

— “Pai, por que estão falando tanto desse filme do Bolsonaro?”

Respirei fundo, tomei um gole de café e tentei explicar da maneira mais simples possível.

Disse a ele para imaginar uma escola onde existe um garoto chamado Bozo, capitão do time de futebol. Metade da escola ama o Bozo. A outra metade acha ele um brigão, um mau caráter que vive criando confusão. O Bozo é popular, tem uma torcida fanática. Daquelas que pinta cartaz, grita o nome dele no recreio e acha que qualquer crítica ao capitão é perseguição da diretoria da escola.

Aí chega a final do campeonato. O time do Bozo perde. Só que Bozo não aceita a derrota. Começa a espalhar que o campeonato foi roubado, que a arbitragem conspirou contra ele, que o juiz estava comprado e que a direção da escola queria tirá-lo do poder porque tinha medo da popularidade dele.

Resultado? Um grupo de alunos fanáticos resolve invadir a área administrativa da escola. Quebram computadores, chutam portas, rasgam documentos, derrubam estante, espalham papel pelo corredor, abrem todas as torneiras dos bebedores, fazem xixi nos trabalhos de arte em exposição e fazem uma destruição digna daqueles filmes em que o colégio americano é atacado por zumbis adolescentes. Depois de ouvir todos os lados, a direção comprova que Bozo foi o principal incentivador da baderna e aplica nele uma suspensão severa.

Até aí meu filho estava acompanhando tudo em silêncio. Mas continuei.

Expliquei que os amigos do Bozo não aceitaram a suspensão e decidiram reagir da maneira mais moderna possível: produzindo uma super obra audiovisual para YouTube e TikTok, mostrando o capitão como um herói injustiçado. O vídeo teria música emocionante, câmera lenta, cenas dramáticas, frases inspiradoras e depoimentos dizendo que Bozo era vítima da “ditadura da diretoria escolar”.

Só que aparece um detalhe curioso: um menino milionário, dono da maior banca de figurinhas da escola e investigado por passar a perna em meio mundo, resolve bancar a produção com uma montanha de dinheiro.

Meu filho ficou me olhando por alguns segundos e perguntou:

— “Pai… isso parece meio errado, né?”

Pronto. Entendeu mais rápido do que muito adulto barbado usando camisa da seleção, óculos Oakley e foto segurando peixe no WhatsApp.

Para inglês ver

Agora vem a parte mais bonita dessa história, caboco. O filme sobre o grande patriota brasileiro foi gravado… em inglês. Sim. O homem passou anos berrando “Brasil acima de tudo”, atacando globalismo, dizendo defender os valores nacionais, reclamando da influência estrangeira e tratando qualquer um que discordasse dele como traidor da pátria. Mas na hora de contar sua saga heroica para o mundo, resolveram fazer tudo em inglês.

É o patriotismo legendado.

O sujeito sobe no palanque para defender soberania nacional e depois aparece numa produção cinematográfica dizendo algo tipo:

— “My name is Bozo and I fight for freedom.”

Caboco, isso não é nacionalismo. Isso é vira-latismo gourmetizado.

É como aquele cidadão que vive criticando cultura americana, mas quando pisa em Miami volta falando “thank you”, “sorry” e “delivery” até para pedir pão francês na padaria da esquina. O curioso é que o próprio bolsonarismo passou anos atacando artistas brasileiros acusando-os de produzir “filme para europeu ver”, “cinema para agradar gringo”, “arte de esquerda financiada para ganhar prêmio internacional”. Aí resolveram combater isso como? Fazendo justamente um filme em inglês, pensado para o mercado conservador americano, estrelado por ator ligado à direita religiosa dos Estados Unidos e embalado para consumo internacional.

Ah, caboco... se isso não é ironia histórica, eu não sei mais o que é.

E o nome do filme ajuda ainda mais. Não é “O Patriota da Pátria”. Não é “Capitão do Povo”. Não é “Brasil Acima”. O negócio se chama Dark Horse, cuja tradução ao pé da letra é Cavalo Preto, mas na gíria é “Azarão”, um termo retirado das corridas de cavalo. Ou seja, aparentemente até o patriotismo brasileiro agora precisa soar como trailer de streaming americano.

No fundo, o que esse projeto revela é uma contradição gigantesca: o nacionalismo bolsonarista vive dizendo defender o Brasil contra influências externas, mas parece precisar desesperadamente da validação cultural dos Estados Unidos. É um patriotismo que quer aplauso estrangeiro. Um nacionalismo que sonha em viralizar em Washington. Uma defesa da soberania nacional embalada em estética hollywoodiana.

E aí a velha expressão brasileira nunca fez tanto sentido: “para inglês ver”.

Só que dessa vez nem foi metáfora. É literalmente um filme brasileiro para inglês ver.

Banco Patriota

Mas nada supera a parte financeira dessa novela, porque aí o roteiro entra naquele território em que parece impossível distinguir realidade de sátira política.

Segundo reportagens, vazamentos e investigações, o filme teria recebido R$ 61 milhões ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro, homem envolvido em denúncias financeiras pesadas, operações nebulosas e suspeitas bilionárias. As mesmas reportagens apontam ainda que o senador Flávio Bolsonaro teria solicitado cerca de R$ 134 milhões para financiar o projeto cinematográfico sobre o pai, em negociações reveladas por áudios, mensagens e documentos obtidos pela imprensa.

E aqui a ironia ganha contornos quase artísticos: o movimento político que construiu sua imagem dizendo combater “o sistema”, “as elites corruptas” e “os banqueiros globalistas” aparece abraçado justamente com um banqueiro milionário investigado, com quem mantém relações de intimidade.

É quase um episódio de Scooby-Doo. A turma tira a máscara do suposto salvador da pátria e descobre, atrás dela, um financista cercado de offshore, operação suspeita e investigação econômica.

Aí veio o momento mais espetacular da história. Flávio Bolsonaro inicialmente afirmou que praticamente não conhecia Vorcaro. Aquela velha estratégia brasileira do “mal conheço”, usada desde vereador enrolado até empresário pego em foto de camarote. Só que pouco tempo depois começaram a surgir áudios, mensagens, relatos de encontros, conversas sobre pagamentos atrasados, pedidos de dinheiro e até histórias de visitas pessoais, de almoços na casa do banqueiro Vorcaro, nesse momento preso.

Caboco, o “não conheço” durou menos que um litro de açaí em confraternização de paraense.

Virou aquela clássica desculpa nacional:

— “Ah, mas ir na casa dele não quer dizer amizade.”

Claro. E eu sou o novo James Bond da Zona Leste de Manaus.

O mais impressionante é o tamanho da montanha de dinheiro envolvida. Estamos falando de dezenas de milhões de reais para financiar um filme político sobre um ex-presidente preso após uma tentativa de desacreditar o processo democrático brasileiro. Num país onde professor compra material escolar do próprio bolso, hospital falta equipamento e universidade faz vaquinha para pesquisa, aparece um banqueiro disposto a despejar rios de dinheiro num épico cinematográfico patriótico em inglês.

E aqui entra uma regra básica da vida adulta, caboco: ninguém simplesmente entrega R$ 61 milhões sem esperar alguma coisa em troca. Ninguém faz PIX patriótico desse tamanho movido apenas por amor à pátria, emoção cinematográfica e trilha sonora inspiradora. Quem coloca uma fortuna dessas numa produção política normalmente espera influência, proximidade, proteção, prestígio, acesso ou algum tipo de retorno futuro. Pode até não ser ilegal. Mas que é estranho, é. Porque milionário não rasga dinheiro; milionário investe poder para colher poder depois.

Ah não, caboco, isso não parece cinema. Parece aquelas séries ruins que tentam ser profundas colocando música tensa e fotografia escura enquanto personagens falam de liberdade e patriotismo entre uma transferência bancária e outra.

E o mais curioso é perceber como parte dos bolsonarentos, que antes enxergava corrupção em qualquer edital cultural de vinte mil reais para peça de teatro em escola pública, agora parece achar normalíssimo um banqueiro investigado bancar um filme milionário sobre seu líder político favorito.

De repente, o problema deixou de ser “mamata”. Virou “investimento patriótico”.

Fanatismo Adulto

No final da conversa, meu filho ficou pensativo e fez mais uma pergunta:

— “Pai… então eles querem transformar o Bozo em herói?”

Respondi:

— “Exatamente.”

Porque é também disso que tudo isso se trata. Não é apenas cinema. Não é apenas entretenimento. Não é apenas um filme para streaming ou para militância digital. É uma disputa sobre memória, narrativa e poder.

Quem controla a história controla a lembrança. E quem controla a lembrança tenta controlar o futuro.

Por isso existe tanto dinheiro envolvido. Por isso aparecem banqueiros, produtores internacionais, campanhas emocionais e trilhas sonoras épicas. Querem transformar suspensão em perseguição política, vandalismo em patriotismo, fanatismo em resistência e marketing em martírio.

Só que há um detalhe que me chama atenção, caboco. Meu filho de 13 anos conseguiu perceber a contradição em poucos minutos. Entendeu que havia algo estranho em um patriota financiado por banqueiro investigado para estrelar um filme em inglês tentando transformar uma confusão institucional em ato heroico.

Talvez porque criança ainda tenha uma vantagem sobre muito adulto: ela ainda consegue enxergar o óbvio sem precisar defendê-lo por paixão política.

E aí confesso uma coisa triste. Quando um menino entende em dez minutos o que certos adultos se recusam a compreender depois de anos, talvez o problema já não seja falta de explicação.

Talvez seja apenas excesso de fanatismo doentio.

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