CRÔNICAS

Eleição para reitor: democracia na universidade?

Em: 05 de Maio de 1995 Visualizações: 1764
Eleição para reitor: democracia na universidade?

A Universidade do Amazonas começa a discutir seriamente as modificações de seu Estatuto, destacando-se — entre os pontos mais polêmicos — a eleição para reitor. Afinal, como deve ser escolhido o dirigente máximo de uma instituição universitária?

Se não existem receitas e persistem muitas dúvidas com relação ao modelo ideal de escolha, pelo menos algumas certezas nós adquirimos, depois de experiências, algumas dolorosas, realizadas em todo o Brasil.

Sabemos, por exemplo, como NÃO devem ser escolhidos os reitores, o que já é um grande avanço. Um reitor não pode ser escolhido com critérios fisiológicos, não acadêmicos. Também não pode ser escolhido em base a critérios corporativistas e populistas. Porque nos dois casos se esmaga o poder acadêmico, representado pela produção de conhecimentos, fortalecendo, no primeiro caso, o poder administrativo, e no segundo, o poder sindical. Essa é a visão de Arthur Giannotti em seu livro A Universidade em ritmo de barbárie (1986).

Durante a ditadura militar, o cargo de reitor das universidades federais era mais um a entrar na barganha politiqueira do clientelismo e do apadrinhamento. Senadores biônicos e deputados federais em geral da ARENA e depois do PDS (vixe vixe), indicavam o nome de um amigo ou correligionário ao Ministério da Educação. Em troca, recebiam favores. Era a política do toma-lá, dá-cá.

O resultado disso foi um desastre: reitores corruptos que manejavam as verbas da universidade em benefício próprio, aplicando a folha de pagamento no over night em benefício próprio como aconteceu no Amazonas; dirigentes medíocres que aceitavam o ingresso de funcionários e professores despreparados, sem concurso, afilhados de políticos fisiológicos ou corruptos. A qualidade do ensino e da pesquisa decaiu enormemente.

Contra esta situação, que debilitava o poder acadêmico e hipertrofiava o poder administrativo da burocracia, setores organizados da universidade se rebelaram. As associações de professores e funcionários e os centros acadêmicos organizaram eleições diretas para escolher os dirigentes máximos das universidades. A questão era determinar o que e como devia ser uma escolha democrática para dirigir a instituição. No campo democrático havia visões diferentes, cabendo destacar, entre outras, a de Marilena Chauí, uma voz em defesa da escolha do reitor pela comunidade acadêmica.  

Surgiram, então, muitas aberrações que continuaram enfraquecendo o poder acadêmico, esmagado desta vez pelo poder sindical e pelo corporativismo. Há quem defenda que o reitor seja escolhido pelo voto direto e universal pelas categorias de docentes, alunos e funcionários.  E a Universidade do Amazonas é a única do País e do Mundo onde o voto é universal, e onde, junto com o reitor, são eleitos sub-reitores, numa única chapa.

Segundo o filósofo J. Arthur Giannotti, quanto pior é a universidade, mais ela deseja ser “democrática” e populista, como um meio de esconder a sua mediocridade e como uma tentativa de legitimar-se, escondendo o seu desempenho desastroso.

A democratização da Universidade implica em abri-la para todos aqueles que aceitarem passar pelas difíceis provas de iniciação. No entanto, confunde-se democracia com populismo, instituindo-se o voto direto e universal, como se a universidade fosse uma república autônoma. Quem mantém a universidade pública através dos impostos pagos pelos contribuintes é toda a sociedade, mas somente uma parcela de privilegiados que consegue entrar na universidade é que vota, exercendo a dupla cidadania.

Neste momento, é importante que a UA encontre um caminho que valorize o poder acadêmico, porque, como afirma Giannotti, o Brasil precisa de uma universidade, nitidamente, como lugar de formação da juventude e de criação de novas tecnologias. E o populismo do voto universal dissolve essas funções, dando prioridade aos interesses particulares e corporativistas de diferentes setores universitários.

.

Comente esta crônica



Serviço integrado ao Gravatar.com para exibir sua foto (avatar).

Nenhum Comentário