"A música expressa aquilo que não pode ser dito em palavras, mas também não pode permanecer em silêncio". (Victor Hugo, no exílio na ilha de Guernsey, 1864).
Ínvios são os caminhos do Senhor. Ínvios, mas às vezes transitáveis, embora tortuosos. Foi através deles que conheci as canções em francês de Georges Brassens, destaco aqui duas delas, uma que mistura simplicidade cotidiana e erotismo sutil e a outra que discute a relação tensa do artista com o Poder. Uma segunda trilha me levou ao cantor belga Jacques Brel, que se esgoela implorando para não ser abandonado pela amante na célebre “Ne me quitte pas” e em outra mais inquietante: “Como matar o amante da tua mulher”. Vejamos as curvas feitas para chegar até lá. Foi assim.
Convivi no Curso de Jornalismo da UFRJ com uma querida colega de sala, Núria Mira y Lopez. Nós nos formamos juntos em 1968. Ela se tornou aeromoça da Air France. Eu fui para o exílio no Chile e Peru e de lá, em 1970, mudei para a França com a perspectiva de obter uma bolsa de estudos. Falhou. Fiquei desbussolado, tive que fazer bicos para ganhar uns trocados: limpador de privada de madame, passeador de cães (dog walker – dizia uma dama inglesa), distribuidor de folhetos de lojas nas ruas. O que pintasse. Morava de favor um dia aqui, outra acolá, carregando sempre comigo sacola com pasta de dente e muda de roupa.
Nesse sufoco, dei sorte de reencontrar a Núria em Paris. Ela me apresentou seu colega francês, cujo nome e generosidade não esqueço nunca: Didier Bricoteau, cujo pai farmacêutico residia em outra cidade, mas era proprietário de um apartamento de sala e quarto no térreo de um grande edifício na rue Emile Dubois, nº 7 (Paris XIV) próximo ao Restaurante Universitário, cedido ao filho, que lá morava sozinho e me acolheu generosamente no seu cafofo.
Desculpem esse preâmbulo com tantas curvas, mas não podia deixar de mencionar a solidariedade da Núria e do Didier responsáveis por construir uma ponte em direção à canção francesa. Ou podia? Tive o cuidado de prevenir que os caminhos do Senhor eram ínvios.
- E daí? O que isso tem a ver com a música? – pergunta o desocupado leitor, a quem respondo com a informação dada na minha chegada ao novo lar doce lar.
- Nesse edifício morou Georges Brassens – me disse Didier, que me fez ouvir todos os discos de vinil do mais criativo representante da “chanson française”, ao lado de Edith Piaf e Charles Aznavour. As gravações quase sempre são acompanhadas apenas por violão e contrabaixo, com o foco centrado nas letras, em linguagem poética, irônica, sarcástica, que falam de amor, amizade e crítica social. Suas composições embarcam em ritmos tradicionais como a valsa ou marchas a galopes, cuja função é destacar a poesia. Ouvi todos os lps, os compactos simples e otras cositas más.
Um recanto no paraíso

Memorizei suas músicas e me senti uma espécie de “sommelier de Brassens”. Um dia primaveril, quase desmaio na saída do metrô Saint-Jacques, ao ver em carne e osso o cantor e poeta, a quem aprendi a admirar. Quando morreu, em 1981, aos 60 anos de idade, foi luto nacional. Eu havia retornado à Paris para cursar o doutorado, agora como bolsista. Entristecido, pude acompanhar as imagens do noticiário da TV daquele bigodudo anarquista e libertário, com o seu inseparável cachimbo, cercado da ternura de seus gatos, além de cenas dele, ainda jovem, no filme ‘Porte de Lilás’ de René Clair, no qual canta “Au bois de mon coeur". Foi sepultado no sul da França, no “cemitério dos pobres”.
O gato aparece na letras de várias canções de Brassens não apenas como um animal doméstico, mas como personagem poético. Com um estilo de vida simples, o cantor, meio “bicho do mato”, destaca a figura afetuosa, livre, independente e solitária do felino, com a qual ele se identifica. Um gatinho órfão é adotado em “Brave Margot’. Outro aparece em “Putain de toi” como companhia ideal após desilusões amorosas.
Ao retornar a Paris com filha e neta, não hesitamos em visitar um novo logradouro recém-inaugurado denominado Parque Georges Brassens, perto da residência de amigos onde nos hospedamos. Ele foi erguido em um antigo matadouro, todo arborizado, com um busto do cantor, lago, chafariz, estátuas de animais, mercado de livros usados, teatro de marionetes, passeio de pônei, carrossel, enfim um paraíso para as crianças. Durante a estadia, levei diariamente minha neta lá em busca de un petit coin de paradis.
É claro que cantarolei para a neta Le Parapluie gravada em 1952 por Brassens. A letra conta que o narrador-personagem vê uma jovem de beleza angelical caminhando na chuva, toda molhada. Ele, que havia “roubado” o guarda-chuva de um amigo, oferece compartilhá-lo com ela, que aceita. Os dois estabelecem, então, um contato físico provocado pela necessidade de ocupar o pequeno espaço para não se molharem. A música tem um ritmo de marcha lenta, que imita o caminhar de duas pessoas debaixo do maior toró, tentando ajustar o passo sob guarda-chuva tão pequeno.
Un petit coin de parapluie, contre un coin de paradis, elle avait quelque chose d'un ange.
Por haver cedido um cantinho debaixo do parapluie, com seu ombro roçando no ombro dela, ele considerou que aquilo era o paraíso. A letra marcada pela poética corriqueira do dia-a-dia e pelo lirismo corporal, sugere a imagem dos dois bem abraçadinhos, ouvindo o belo canto da água do céu com pingos fortes e intensos sobre o guarda-chuva. Ele reza para que dure a tempestade, sem a qual não teria havido aquele encontro. Diz que queria ser Cupido, o deus do amor, para manter a chuva como no dilúvio de Noé durante quarenta dias e quarenta noites, sem parar, só para tê-la a seu lado. Mas – oh, que pena! – deu zebra. O estúpido Cupido é surdo. O céu limpa, a moça agradece, se despede e se pirulita:
Après m´avoir dit grand merci, je l’ai vue toute petite partir gaiment vers mon oubli.
O Flautista

Nada de assédio. Nem sequer pediu o telefone dela. O que lhe interessa não é a posse, mas a beleza da jornada com a cândida roçadinha de ombros. É um legítimo Brassens ensopado de água, de ternura, de delicadeza e de respeito ao corpo da mulher. Após a despedida, diz que ela agradeceu e ele a viu “partir, miudinha, alegremente em direção a meu esquecimento”. Consciente da finitude do momento feliz que viveu, ele volta ao anonimato da multidão como profetizou Jorge Luís Borges: "Ya somos el olvido que seremos”.
Esse é o Brassens admirável, que ganhou o merecido Prêmio Nacional de Poesia pelo conjunto da obra, da qual faz parte a música ‘Le petit joueur de flûteau´, com a qual venho namorando desde 1970. Nela, o cantor e compositor francês, como o bardo que não se rendeu, discute a relação da Arte com o Poder. Afinal, qual o compromisso social do intelectual e do artista? A quem deve servir? Fiquei tão tocado, que ousei traduzi-la numa versão livre que vai aqui publicada no final.
A letra tem como personagem um flautista medieval, de origem humilde e camponesa, cuja música era tão refinada que o rei, encantado, tentou comprá-lo com títulos de nobreza. Ofereceu emblema, brasão, escudo, honrarias, servos, glória, castelo com fosso e muralha para tê-lo à sua disposição no palácio real. Mas o artista, que prefere a liberdade em sua cabana de palha, em cujo quartinho dormia feliz, mantém-se fiel às suas origens. Resiste. Não se rende. Rejeita a oferta e retorna à aldeia. Sua decisão nos remete ao cangaceiro Othon Bastos: “Eu não me entrego não”:
“O flautista, modesto jogral, disse um sonoro não ao castelo feudal. Agora, nenhum camponês diz, que o flautista traiu sua raiz. E Deus reconhece como filho seu aquele bardo que não se rendeu”.
Os caminhos do Senhor foram igualmente ínvios para chegar ao outro cantor, o belga Jacques Brel. O início da caminhada foi testemunhado por Beth e seu esposo, o renomado físico Alberto Santoro, hoje na UERJ. Na busca por trabalho, busquei a CIMADE - associação ecumênica de ajuda a imigrantes, refugiados e exilados. Lá me arrumaram emprego estável no Circo Medrano, de Lyon, para tratar de Mina, uma elefantinha. Vi sua foto fofinha e aceitei na hora. Mas a baiana Irecê da Silva, funcionária da CIMADE, quando soube, protestou: “Temos que buscar algo compatível com teus estudos. Você não merece limpar bunda de elefante”.
Dei sorte. Ela assinou uma carta de apresentação para o Touring Hotel situado na Rue Buffault, uma ruazinha perto da Gare du Nord (Paris IX). O hotel três estrelas precisava por três meses de um recepcionista fluente em inglês, que aceitasse trabalhar doze horas de 8h00 da noite às 8h00 da manhã. Era travail au noir não declarado e semiclandestino, sem contrato formal. O meu inglês era sofrível igual ao do técnico Joel Santana, mas dava para o gasto. O hotel aceitou a carta de apresentação da CIMADE. Comecei a trabalhar.
O amante de sua esposa

- E o que isso tem a ver com o cantor? – insiste outra vez o desocupado leitor.
Calma, que o Brasil é nosso. Ainda não falei do Jordi, nascido em Cadaqués, um vilarejo da Catalunha, na Espanha. Ele era o carregador de malas do hotel e dava ponto no lobby. Contou-me sua vida, seus problemas, mas nada me falou de sua mulher, uma espanhola, cujo nome não lembro mais, de seios fartos e olhos convidativos, que vi duas ou três vezes. Suspeitei que a relação dos dois era complicada, porque Jordi tinha uma fita cassete tocada insistentemente nas horas vagas com duas canções que guardo na memória: a célebre Ne me quitte pas e a mais inquietante Comment tuer l´amant de sa femme.
Aqui peço desculpas, mas não resisto em contar a fofoca sobre a música com o título em francês de “Não me abandone” composta em 1959, depois que Jacques Brel engravidou sua amante Suzanne, a Zizou, e se pirulitou sem reconhecer a criança. A letra é um posterior pedido de perdão, desesperado, com juras mirabolantes. Para ela aceitá-lo de volta, ele promete Deus e o mundo, topa até mesmo se tornar “a sombra do cachorro dela”. Ao cantar, parecia se esgoelar e, suado, chorar e implorar: “Não me abandone, não me abandone, é preciso esquecer tudo o que já ficou para trás. Esqueça o tempo dos mal-entendidos. E o tempo perdido”.
Ne me quitte pas. Ne me quitte pas, il faut oublier. Tout peut s'oublier.
Oublier le temps des malentendus. Et le temps perdu.
A música teve várias gravações no Brasil na voz carregada de melancolia de Maysa, na de Cássia Eller e de Alcione, cada uma delas canta em um francês impecável. Foi gravada também por Nina Simone, Frank Sinatra (If you go away) e, em Portugal, por Simone de Oliveira. Mas a canção preferida de Jordi era Comment tuer l´amant de sa femme. O cantor belga pergunta:
Como matar o amante da tua esposa, quando você foi educado como eu, dentro dos preceitos religiosos?
De forma irônica, o eu-narrador é corneado e decide matar o amante da esposa, mas é travado por sua educação e seus valores, que o obrigam a ser um cavalheiro, um “gentilhomme”, embora sofrendo com a traição. O burlesco se revela em várias ocasiões. Compra um revólver, entra no quarto do adultério, o traidor está peladão na cama, mas ele não atira porque “não se mata um homem nu”, não seria nada elegante. Então ele espera o cara se vestir, mas o terno dele é tão chique, que seria pecado rasgá-lo com uma bala.
Marinheiro mijão
Com humor macabro, Jacques Brel ridiculariza as normas sociais baseada nas aparências. No fim, o chifrudo desiste do crime e vai tomar um drink com o amante de sua mulher. Conversam sobre amenidades e acabam se tornando amigos.
A terceira música de Jacques Brel, Amsterdam, foi lembrada na visita de três dias à Holanda, acompanhado da minha neta Ana e de sua mãe. Era inevitável recordar a letra:
“Dans le port d’Amsterdam, Y a des marins qui chantent, qui dorment,
qui meurent, qui naissent, qui mangent, qui dansent,
qui boivent et reboivent, qui pissent comme je pleure”.
Não vimos nenhum marinheiro fazendo essas coisas, nem mijando com a intensidade das lágrimas derramadas pelo cantor, mas exploramos parques e museus, incluindo a Casa de Anne Frank, às margens do canal, quando a outra Ana, a neta, viu os horrores do nazismo e do racismo.
De qualquer forma me pergunto por onde andará hoje Jordi e sua mulher de seios túmidos, curvas generosas e olhos lânguidos de sereia. Jordi ainda ouve Jacques Brel?
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I |
II |
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III Trocaria minha cabana de palha |
IV Teria vergonha de meus ancestrais, |
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VI |