CRÔNICAS

Eleições no Amazonas: Omar é o Meu Malvado Favorito

Em: 12 de Outubro de 2026 Visualizações: 22
Eleições no Amazonas: Omar é o Meu Malvado Favorito

Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior

 

“Você pode me arrancar desta terra como uma erva daninha, mas nunca poderá tirar a terra de mim.” (Itamar Vieira Junior, Torto Arado)

 

Caboco, tem uma razão muito particular para eu me lembrar de Meu Malvado Favorito quando penso na política amazonense. Meus filhos nasceram em 2010 e 2013, justamente os anos de lançamento do primeiro e do segundo filme da franquia. Com duas crianças em casa, assistir às aventuras do Gru, das meninas e daqueles Minions amarelos deixou de ser uma opção: virou praticamente uma obrigação paterna. Vi os filmes com eles, acompanhei as trapalhadas daquele vilão de coração amolecido e aprendi que, por trás de todo plano mirabolante, sempre existe alguma coisa que o sujeito quer proteger.

Agora, quando olho para o cenário político do Amazonas e penso no futuro dos meus filhos, a lembrança dos filmes volta. Não estou preocupado com quem vai roubar a Lua, Caboco, mas com quem vai ajudar a cuidar do chão em que eles vivem, da escola em que estudam, das oportunidades que terão e do estado que vão herdar. E foi aí que me ocorreu uma comparação que talvez pareça absurda, mas tem seu sentido: nesta eleição, Omar Aziz me lembra uma espécie de Gru amazônico.

Calma, não estou dizendo que Omar pretende construir um foguete para sequestrar a Lua, nem que já tenha um batalhão de Minions escondido no gabinete. A comparação é uma brincadeira com a figura do personagem: estrategista, experiente, cheio de planos e habituado a disputar grandes partidas. Só que, na política real, não há trilha sonora de desenho animado para anunciar o final feliz. Há escolhas, interesses, consequências e, principalmente, crianças que vão crescer e viver com os resultados das decisões que tomamos hoje.

Por isso, meu voto não é uma declaração de amor ao Gru amazônico. É uma escolha que faço pensando no Amazonas e no futuro dos meus filhos. E, como aprendi tanto com os filmes quanto com a vida, Caboco, não basta torcer para que o personagem termine a história fazendo o bem. É preciso ficar de olho no que ele faz durante o caminho.

O eleitor vive perdendo

Na crônica “Eleições no Amazonas: entre maus caminhos e boas intenções”, voltei aos resultados eleitorais desde 1994 e descobri uma regularidade impressionante: meus candidatos costumavam perder, como perdeu agora em 2026. Sou tão “pé frio” que, se eleição fosse bolão, eu provavelmente estaria proibido de participar de qualquer confraternização de vencedores.

Não me arrependo das escolhas que fiz. Votei de acordo com minhas convicções, e não tenho motivo para transformar derrotas eleitorais em vergonha pessoal. O problema é que a democracia não nos concede o direito de escolher apenas quando aparece alguém que corresponde integralmente às nossas ideias. A urna não é um restaurante em que podemos devolver o prato e pedir outro porque faltou sal.

No primeiro turno, escolhemos quem consideramos melhor. No segundo, precisamos decidir entre os que sobraram. Às vezes, isso significa escolher alguém com quem temos afinidades. Em outras ocasiões, significa reconhecer que nossas divergências com um candidato são menores do que aquelas que temos com o adversário.

Foi o que aconteceu comigo agora.

Continuo defendendo o PSOL, a educação pública, a ciência, os direitos humanos, os povos indígenas, a redução das desigualdades e a floresta em pé. Continuo achando que o Amazonas precisa olhar para além de Manaus. E continuo sem acreditar em político perfeito. Se algum dia aparecer um, desconfia, Caboco: provavelmente é uma inteligência artificial treinada por marqueteiros e divulgada pela revista Veja.

Mas o segundo turno não pergunta em quem eu gostaria de ter votado. Pergunta o que farei diante das alternativas que estão na minha frente.

E eu decidi.

Oxigênio não é ideologia

Comecemos pela pandemia. Em janeiro de 2021, Manaus viveu uma das maiores tragédias de sua história recente. Hospitais enfrentaram a falta de oxigênio, profissionais de saúde trabalharam sob pressão extrema e famílias desesperadas procuraram cilindros para tentar salvar seus parentes.

A crise não pode ser explicada por uma única pessoa ou por uma única decisão. Houve responsabilidades em diferentes esferas de governo, falhas de coordenação, problemas logísticos e alertas que exigiam providências urgentes. Mas isso não elimina a responsabilidade de quem ocupava cargos públicos e tinha o dever de agir.

O governo do presidiário e ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi duramente questionado pela resposta à pandemia. A resistência a medidas de prevenção, os conflitos com recomendações científicas e a condução federal da crise sanitária foram temas centrais da CPI da Pandemia, presidida por Omar Aziz no Senado.

Omar cobrou explicações do Ministério da Saúde e questionou as providências tomadas diante dos alertas sobre a falta de oxigênio. Não estou dizendo que ele tenha sido o único a defender o Amazonas, nem que todas as suas decisões estejam acima de críticas. Estou dizendo que, naquele episódio, confrontou a condução federal da crise e participou da investigação das responsabilidades.

E isso importa.

Porque, quando falta oxigênio num hospital, não adianta o governo apresentar uma live explicando que a culpa é da oposição. Também não adianta recomendar cloroquina, fazer discurso patriótico ou organizar uma motociata. Cilindro de oxigênio não se enche com bandeira brasileira, e paciente não respira slogan eleitoral.

Caboco, imagina o sujeito chegar à emergência e o médico perguntar em quem ele votou antes de decidir se merece respirar. Seria a privatização do ar por afinidade ideológica. E ainda haveria quem defendesse a medida em nome da liberdade.

O Amazonas precisa de governantes que compreendam que ciência não é opinião, emergência sanitária não é palanque e a vida humana não pode ficar subordinada à conveniência política.

Minha crítica ao bolsonarismo não é uma questão de antipatia pessoal. É uma avaliação política da maneira como o governo Bolsonaro enfrentou a pandemia. E, quando comparo esse histórico com a atuação de Omar Aziz durante a crise e na CPI, encontro uma diferença que pesa na minha escolha.

Não esqueço o que aconteceu em Manaus. Não quero que a tragédia seja reduzida a uma nota de rodapé porque a eleição mudou de assunto.

Por isso, quando olho para a candidatura de Maria do Carmo, que pertence ao PL (vixe, vixe!), partido dos Bolsonaro, não consigo ignorar esse histórico. Ela não é Jair Bolsonaro, nem Flávio Bolsonaro, nem Eduardo Pazuello, e deve ser julgada por suas próprias posições e propostas. Mas sua filiação partidária tem significado político. Quero saber como pretende conciliar sua candidatura com um campo político cujo governo adotou medidas e posições que foram duramente questionadas durante a crise sanitária e colocaram vidas em risco.

Zona Franca não faz favor

O segundo motivo é econômico, e aqui o assunto mexe diretamente com a vida de quem mora no Amazonas.

A Zona Franca de Manaus não é uma invenção de meia dúzia de empresários reunidos numa sala com ar-condicionado. É um modelo econômico que sustenta parte importante da atividade industrial, da arrecadação e dos empregos da região. Tem problemas, precisa ser aperfeiçoado e deve ser fiscalizado. Mas não pode ser tratado como se fosse um favor que Brasília concede a uma população incapaz de sobreviver sem a generosidade do restante do país.

Durante o governo Bolsonaro, Paulo Guedes, então ministro da Economia, conduziu medidas de redução do Imposto sobre Produtos Industrializados que provocaram forte reação no Amazonas. A redução das alíquotas ameaçava a vantagem competitiva de produtos fabricados na Zona Franca, e o governo estadual, parlamentares e entidades empresariais precisaram mobilizar-se para defender o modelo.

O próprio Bolsonaro fez declarações sobre a Zona Franca que provocaram preocupação entre representantes do Amazonas. Em 2021, chegou a dizer: “Imaginem Manaus sem a Zona Franca”. Pois é, presidiário. Nós imaginamos. E não achamos a experiência particularmente divertida.

Paulo Guedes parecia olhar para o modelo a partir de uma planilha nacional de redução de impostos, como se a economia brasileira fosse uma tabela do Excel em que basta diminuir uma alíquota para todo mundo sair ganhando. O problema é que o Brasil não é uma planilha uniforme. O que funciona numa região pode produzir efeitos diferentes em outra, especialmente quando existem desigualdades históricas e custos logísticos que não desaparecem por decreto.

Caboco, o Amazonas não pode competir com São Paulo, Minas Gerais ou Santa Catarina como se nossas fábricas estivessem a meia hora de um grande mercado consumidor, cercadas por rodovias, ferrovias e fornecedores. Aqui, a geografia também entra na conta. E o rio não costuma aceitar pagamento em promessas de campanha.

Omar Aziz tem um histórico público de defesa dos incentivos fiscais da Zona Franca e de críticas às medidas do governo Bolsonaro que ameaçavam sua competitividade. Isso não significa que todas as suas posições econômicas sejam necessariamente as melhores, nem que a Zona Franca deva ficar imune a críticas. Significa que, nesse ponto, identifico uma convergência entre sua atuação e aquilo que considero fundamental para o Amazonas.

Não vou fingir que a Zona Franca resolve todos os nossos problemas. Não resolve. Precisamos diversificar a economia, investir em ciência e tecnologia, fortalecer a bioeconomia, apoiar a produção regional e criar oportunidades para quem vive no interior. Mas enfraquecer um dos principais motores econômicos do estado sem apresentar uma alternativa consistente não é modernização. É trocar o motor do barco durante a travessia do Madeira e esperar que o rio tenha paciência e não o arraste em sua correnteza.

Não basta dizer que ama o Amazonas. Até quem quer cortar o nosso orçamento pode declarar amor à floresta antes de embarcar para Brasília.

Por isso, quando olho para a candidatura de Maria do Carmo, que pertence ao PL (vixe, vixe!), partido dos Bolsonaro, não consigo ignorar esse histórico. Ela não é Jair Bolsonaro, nem Flávio Bolsonaro, nem Paulo Guedes, e deve ser julgada por suas próprias posições e propostas. Quero saber como pretende conciliar sua candidatura com um campo político cujo governo adotou medidas que ameaçavam incentivos essenciais para a economia amazonense.

Amazonas não é caricatura

Há ainda uma questão que não aparece inteira nas planilhas econômicas: a diversidade do nosso povo.

O Amazonas é indígena, ribeirinho, caboclo, negro, migrante, urbano, rural. É feito de pessoas que falam, acreditam, vivem e pensam de maneiras diferentes. É um estado de fronteiras culturais, encontros e contradições. Quem pretende governá-lo precisa compreender que essa diversidade não é um problema a ser corrigido. É parte da nossa identidade.

Minha identificação com a esquerda vem, entre outras razões, da defesa dos direitos humanos, dos povos indígenas, da igualdade e da participação democrática. Não espero que Omar Aziz pense como eu em todos esses assuntos. Tampouco tenho como garantir que um governo seu acertará sempre. Mas considero importante que o governador respeite a pluralidade da sociedade amazonense e reconheça que governar é representar também quem não votou nele.

O bolsonarismo, por sua vez, tem um histórico de declarações e posições que considero incompatíveis com esse compromisso, especialmente quando transforma diferenças culturais, identidades e reivindicações de direitos em alvos de hostilidade política.

Não estou afirmando que todo eleitor do PL seja preconceituoso. Seria uma generalização injusta. Também não estou dizendo que todos os integrantes do partido pensam exatamente da mesma forma. Estou criticando um projeto político e as posições públicas de suas principais lideranças.

Mas não vou fingir que essa diferença não existe.

Quando uma liderança política trata a diversidade como ameaça, o problema não fica restrito ao discurso. Ele pode alcançar a escola, a universidade, a política ambiental, a proteção dos povos indígenas e a maneira como o Estado atende seus cidadãos.

E, Caboco, já temos problemas demais para ainda inventar inimigos entre nós. A fumaça das queimadas não pergunta se tu és de direita ou de esquerda. A enchente não confere tua filiação partidária antes de entrar em casa. A falta de médico não respeita a divisão entre conservadores e progressistas. E o desemprego não costuma aceitar como pagamento uma palestra sobre costumes.

O Amazonas precisa de políticas públicas, não de uma guerra permanente contra quem é diferente.

Por isso, quando olho para a candidatura de Maria do Carmo, que pertence ao PL (vixe, vixe!), partido dos Bolsonaro, não consigo ignorar esse histórico. Ela não é Jair Bolsonaro, nem Flávio Bolsonaro, nem Ricardo Salles, e deve ser julgada por suas próprias posições e propostas. Quero saber como pretende conciliar sua candidatura com um campo político cujas lideranças e decisões de governo foram alvo de críticas por seus efeitos sobre os direitos de indígenas, negros, pessoas pobres e homossexuais.

Omar não é santo e eu não sou padre

Caboco, Omar Aziz tem uma trajetória política extensa e controversa. Como mencionei em crônica anterior, a Operação Maus Caminhos e as investigações envolvendo pessoas de seu entorno político e familiar não podem ser esquecidas. Não vou apagar o que escrevi porque agora declaro meu apoio a Omar. Votar em um político não significa concordar com tudo o que ele fez, ignorar suas contradições ou transformá-lo em santo. A política já tem problemas suficientes sem precisar de uma diocese eleitoral.

A tia Dile, quando ler minha defesa de Omar, provavelmente irá direto ao ponto: “Então tu vais votar nesse homem? Pois vote! Mas, se ele fizer besteira, quero ver se tu vais abrir essa tua boca para cobrar”.

Conheço a peça. Seu carinho vem em forma de bronca, às vezes com palavrão e puxão de orelha. No fundo, ela está dizendo que votar em alguém não é assumir a obrigação de defendê-lo para sempre. Como resumiria a própria tia Dile: “Meu filho, não te apaixones por político, que tu não és mais criança”.

Posso reconhecer as controvérsias de Omar e, ainda assim, considerar que sua candidatura atende melhor às prioridades que estabeleci para o Amazonas. Apoiar sua eleição não me impede de exigir transparência, fiscalização e responsabilização quando houver fundamento.

A eleição mudou de fase. Agora, escolho entre Omar Aziz e Maria do Carmo Seffair. Pesam nessa decisão a memória da pandemia, a atuação de Omar na CPI, a defesa da Zona Franca e a importância de respeitar a diversidade amazonense. Também pesa minha rejeição ao projeto político bolsonarista, ao qual o PL está ligado.

Não virei militante do PSD, não abandonei minhas convicções nem pretendo pendurar um retrato de Omar na parede. Continuo defendendo o PSOL e a política com senso crítico. Apenas reconheço que, neste segundo turno, preciso escolher entre alternativas diferentes daquelas que gostaria de encontrar.

Caboco, voltamos aos Maus Caminhos. Um deles tem uma trajetória que conheço e continuarei cobrando. O outro pertence a um campo político cujas posições sobre a pandemia, a Zona Franca e a diversidade me levam a rejeitar sua candidatura. Não escolho uma estrada perfeita, mas aquela que me parece menos tortuosa e mais compatível com o Amazonas que quero construir.

Caboco, escolhi Meu Malvado Favorito. Não porque confie cegamente no anti-herói, mas porque sei aonde não quero voltar. Agora é torcer para que a viagem não termine em mais uma operação com nome de estrada esburacada.

Não entrego a Omar minha consciência. Entrego meu voto. Ele pode contar depois com a minha crítica, quando dele discordar.

O voto tem prazo. A consciência, não.

Comente esta crônica



Serviço integrado ao Gravatar.com para exibir sua foto (avatar).

Nenhum Comentário