.Depois da primeira dentição, uma pessoa normal, como regra geral, passa a ter no máximo 32 dentes permanentes: oito em cada maxilar, formando 16 dentes superiores e outros 16 dentes inferiores presos na mandíbula. Essa é a dentadura definitiva que Deus concede a cada ser humano.
Por falta de informação, má alimentação ou por razões de ordem econômica, muitas pessoas não conseguem conservar esta dentadura que Deus deu e vão perdendo seus dentes. Por isso, existe muita gente desdentada. Mas nenhum indivíduo normal e comum — como tu e eu leitor (a) — tem mais de 32 dentes.
Raimundo Olímpio Furtado Neto, vereador do PPR (vixe! vixe!), não é uma pessoa normal, um indivíduo comum, como tu e eu leitor (a). Com uma arcada dentária original, ele possui 48 dentes, distribuídos em três fileiras. O Baltimore College of Dental Surgery, nos Estados Unidos, já demonstrou seu interesse em estudar o fenômeno Raymond Steal, conhecido como “Boca-de-Forno”. Raimundo Furtado é o único ser humano que possui dentes inferiores, superiores e médios.
Essa é a única conclusão a que podemos chegar, se quisermos trabalhar com a hipótese de que Raimundo Furtado é um cidadão honesto, levando em conta as notas de empenho e os recibos de ressarcimentos enviados a esta coluna pelo leitor — chamemo-lo com esse nome — Jurandir Freitas.
Em apenas oito meses, os cofres públicos da Câmara Municipal de Manaus pagaram ao vereador Raimundo Furtado, por ressarcimentos médicos e odontológicos, a expressiva quantia de Cr$ 11.303.000,00 cruzeiros, ou seja, 36.157,32 dólares americanos, o que equivale hoje a mais de 25 milhões de cruzeiros.
Peguei cada nota de empenho e converti os cruzeiros recebidos por Furtado em dólar, de acordo com as variações diárias do dólar americano, que aparecem no Manual do Imposto de Renda. O resultado foi o seguinte:
Em 5 de novembro de 1990, Raimundo Furtado foi ressarcido em 4.533,33 dólares (processo 1.225/90). Em 17/12/90, 6.562,50 dólares (proc. 1.451/90). Em 26/02/91, 5.883,41 dólares (proc. 206/91). Em 4/04/91, 8.028,18 dólares (proc. 374/91). Em 7/05/91, 12.656,05 dólares (proc. 533/91). Em 6/08/91, 9.588,99 dólares (proc. 804/91).
Soma tudo isso, leitor, e chegaremos ao total acima indicado de 36.157,32 dólares. Isto significa que nós, povo amazonense, em oito meses, pagamos ao Raimundo Furtado uma quantia superior hoje a 25 milhões de cruzeiros.
Tirando alguns trocados, em recibos assinados pelo dr. Carlos Urtiga, do Labocati, por tratamento fisioterápico ilegal realizado em Larissa Barbosa Furtado e em Isabel Barbosa Furtado, o grosso da grana foi para serviços médicos odontológicos, assinados por Francisco Saraiva Correia de Almeida e pela fantasma Raimundo Nonato Melo, além de recibos emitidos pela fantasma Ana Maria Braga, sem nota fiscal.
O leitor Jurandir Freitas, que me enviou os documentos, está indignado. Em sua cartinha, ele lembra que Raimundo Furtado, quando assessor de Manoel Ribeiro, sagrou-se campeão de viagens por conta da Prefeitura, com elevadas diárias e ajuda de custo. Diz ainda que não tem provas, mas fala-se que Furtado comprou dois anos de mandato, na legislatura passada, ao Jony De Carli e que agora está rindo de todos nós com seus dentes de porcelana.
O Jurandir é muito maldoso e tirou conclusões apressadas. Ele não levou em consideração a declaração bombástica à CPI dos Ressarcimentos, feita por Cezar Bonfim, que autorizou o pagamento no mesmo dia, com uma rapidez que nega a lentidão burocrática. Exibindo uma cara de honesto, Bonfim disse:
- Saúde não tem preço.
É isso aí, Jurandir. Saúde não tem preço. Todo mundo sabe que dentista cobra caro, porque os equipamentos que utiliza são sofisticados. Você sabe, Jurandir, o preço de uma cuspideira com água corrente? Quanto vale um negatoscópio e um ejetor de saliva? Aqueles tornos e aquelas brocas usadas pelo dentista também não saem de graça.
Não, Jurandir! É muito fácil chamar os outros de ladrão. Prefiro trabalhar com a hipótese de que Raimundo Furtado é honesto. Por isso, calculei os gastos odontológicos, feitos por ele, tomando cada dente como uma unidade independente.
Suponhamos que a boca de Furtado fosse um “panelão” só e que todos os seus dentes estivessem cariados, com desintegração do esmalte, esclerose da dentina e obliteração dos canículos dentários. Suponhamos ainda que, além da cárie, seus dentes estivessem todos frouxos, dançando dentro da boca, atacados por uma piorreia braba, com processo inflamatório purulento, acompanhado de necrose alveolar.
Vamos radicalizar nossas suposições. Todo mundo sabe que o campo da odontologia é amplo e abrangente e não se limita a apenas aos dentes, mas engloba a mucosa da cavidade bucal, a língua, o assoalho e o céu da boca, o palato e as glândulas salivares.
Pedi a um dentista de Niterói que me fizesse um cálculo do valor da reconstituição de uma boca, dente por dente, na situação mais precária, com gengivite, piorreia e mau hálito. Ele atestou que o valor de cada dente reconstituído sairia por 753,27 dólares. Multiplicada essa quantia pelos 32 dentes superiores e inferiores, chegaríamos a um total de 24.104,64 dólares.
— Tá vendo! Tá vendo! — grita apressado o Jurandir. — Se o Furtado foi ressarcido em 36.157,32 dólares, mas o tratamento mais caro não ultrapassou os 24.104,64 dólares, o que ele fez com os 12.032,66 dólares que sobraram?
Minha Santa Etelvina! Como tem gente maldosa neste mundo! Por que achar que os outros são sempre desonestos? Foi justamente trabalhando com a hipótese da honestidade, que acabei por concluir que Raimundo Furtado, na verdade, tem três carreiras de dentes. Observa bem, leitor. Divide os 12.052,68 dólares por 753,27 e terás como resultado exatamente o número 16, dentes que constituem a terceira fileira de dentes do Furtado.
Raimundo Furtado, o “Boca de Ouro”, é hoje o cidadão brasileiro que exibe em sua boca a perereca mais cara do mundo. Os dentistas, na verdade, implantaram nele três pererecas: superior, inferior e média, a última com 8 caninos e 8 incisivos.
— Mas como? Eu vi o Furtado rindo e só tinha duas pererecas! — exclama surpreso o leitor Jurandir Freitas.
Ora, meu caro Jurandir, estás querendo ver demais. Uma perereca implantada por dentista fantasma tem de ser uma perereca fantasma. Ninguém vê. Mas ela existe. Essa foi a conclusão a que chegou a CPI dos Ressarcimentos, quando no dia 18 de fevereiro ouviu o depoimento de Raimundo Furtado. A CRÍTICA (19/02) informa que “diferente de outras sessões, os membros da CPI não mostraram muito interesse no depoimento do vereador”.
Essa CPI é mesmo fajuta. Nomeada por Omar José Abdel Aziz, um dos ressarcidos com recibos falsificados, não tem um só membro da oposição, um vereador em quem se possa confiar. Ela foi criada não para esclarecer a vergonhosa corrupção, mas para esconder os fatos.
O leitor Jelder Picanço voltou a escrever, enviando cópia do Decreto 131, de 18 de maio de 1993, no qual o presidente da Câmara Omar Aziz nomeia para cargos comissionados a parentada do Cesar Bomfim: Luiz Roberto Cerqueira Bomfim, Silvia Regina Cerqueira Bomfim e Inês Correa Bomfim.
— A imoralidade na Câmara continua — diz Jelder, informando ainda que “o Omar Aziz contratou mais um advogado, além dos 12 do quadro efetivo. Ele vive há muitos anos no RJ e vem recebendo salários desde outubro, mas ainda não se apresentou em Manaus. Trata-se de Almério Mendes, por coincidência irmão do prefeito Amazonino Mendes”.
Socoocooooro Associação dos Amigos de Manaus! Socooooro padre Humberto Guidotti. Socooooro Praciano, Jefferson Peres, Aloysio Nogueira, Vanessa, Serafim, Edson Oliveira, Pedro Missioneiro, Orlando Farias, Gilson, jornalistas sérios e outros cidadãos honestos de Manaus! Manaus teve 980 casos de malária. As crianças estão assistindo aula em pé por falta de carteira. Enquanto isso, Robério Braga faz exames ginecológicos e Furtado renova suas três carreiras de dentes. Aí tem dente de coelho. (Correspondência para José R. Bessa, Cx. Postal 105.094 — CEP 24231-970, Niterói, RJ)