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Manaus, Quinta-feira, 09 de setembro de 2010
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A TRIBO DOS ESCRITORES E O JABUTI
José Ribamar Bessa Freire
20/06/2010 - Diário do Amazonas

 

 

 



Quem eram aqueles trinta e três índios e índias que nessa terça-feira, em plena Copa do Mundo, dia do jogo do Brasil contra a Coréia do Norte, desciam as ladeiras de Santa Tereza, no Rio de Janeiro, caminhando sobre os paralelepípedos e os trilhos do bonde? Todos vestiam camisa verde-amarela, o que levou os moradores do bairro a acharem, galvãobuenamente, que se tratava de torcida étnica organizada que ia ver a partida no telão da praça. Mas não era.

Embora todos torçam, com maior ou menor paixão, pela seleção brasileira, naquele momento o jogo era outro. Na realidade, aqueles índios e índias, representantes de trinta etnias, saídos de diversos recantos do Brasil, iam para a abertura do 12º Salão do Livro para Crianças e Jovens, que aconteceu no Rio de 15 a 18 de junho. Estavam hospedados em Santa Tereza, e a camisa verde-amarela que trajavam era uma espécie de uniforme da Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil (FNLIJ).

Eles e elas fazem parte de uma nova tribo que está surgindo no Brasil – a tribo dos escritores indígenas, cuja importância pode ser avaliada com uma simples consulta ao Pequeno Catálogo Literário de Obras de Autores Indígenas publicado pelo NEARIN – Núcleo de Escritores e Artistas Indígenas. São centenas de livros bem ilustrados, com histórias maravilhosas. Quando entrou em contato com algumas delas, na década de 1920, o escritor Raul Bopp registrou assim seu encantamento:

– “Foi uma revelação. Eu não havia lido nada mais delicioso. Era um idioma novo. A linguagem tinha, às vezes, uma grandiosidade bíblica. No seu mundo, as árvores falavam. O sol andava de um lado para outro. Os filhos do trovão levavam, de vez em quando, o verão para o outro lado do rio”.

Os ossos do som

Quem quis saborear essas histórias, não viu a Sérvia derrotar a Alemanha, nessa sexta-feira, na Copa do Mundo. Na hora do jogo, os escritores indígenas encontraram com um público seleto de leitores, num auditório do Centro de Ação da Cidadania, na zona portuária do Rio. Era a abertura do 7º Encontro de Escritores e Artistas Indígenas, organizado dentro do 12º Salão do Livro pelo Instituto Indígena Brasileiro para a Propriedade Intelectual (INBRAPI). O tema era “Palavra da Cidade, Palavra da Floresta – Literatura Indígena em Contexto Urbano”.

Compareceram escritores, poetas, artistas plásticos, músicos, líderes e educadores indígenas que estão se destacando no cenário literário nacional. Estavam lá, entre outros, Manoel Moura, Daniel Munduruku, Eliane Potiguara, Marcos Terena, Cristino Wapichana, Ely Macuxi, Olívio Jekupé, Vilmara Baré, Edson Kayapó, Darlene Taukane, Rosi Whaikon, que animaram rodas de conversa e mesas-redondas em torno das memórias da floresta, da escola indígena, do uso da escrita e da língua portuguesa.

Primeiro, nós pensamos. Só depois é que falamos ou escrevemos. A palavra, que carrega sabedoria, organiza o pensamento, por isso tem muito poder, muita força. A palavra cura mágoa, tristeza, saudade, raiva e, se duvidar, até dor de cabeça. A palavra do índio, o primeiro narrador desse país, tem que ser ouvida. É palavra boa, que ameniza, que conforta, diferente das palavras sujas – como a de alguns políticos.

Dessa forma, Manoel Fernandes Moura abriu a mesa da tarde – A Escrita e a História. Líder histórico do movimento indígena, o tukano Manoel Moura está cada dia mais sábio, com o verbo sempre em brasa. Grande narrador, sua fala deixa claro que o livro não é um caixão que guarda o cadáver da letra morta, como se a letra fosse o osso do som. Ele defende não uma “escrita funerária”, mas uma escrita viva, livre como um pássaro voando, que devolve a palavra ao universo da oralidade.

Durante o almoço, numa mesa com Marcos Terena, Ely Macuxi e Daniel Munduruku, lembrei da importância para a literatura indígena dos tupinólogos do século XIX, que recolheram narrativas em língua Nheengatu. Trocamos figurinhas. Foi, então que Moura nos contou algumas histórias do jabuti, atualizando as versões de Couto de Magalhães. A voz modulada era interrompida por risinhos sacanas do narrador. Vamos lá.

Maquiavel de casco

O Jabuti foi beber água no rio e encontrou o Jacaré de boca aberta que lhe disse:

– Eu vou te comer.

– Por que tanta maldade, seu Jacaré?

– Por que estou com fome e sou mais forte.

– Sua fome, eu respeito. Mas duvido que seja mais forte – desafiou o Jabuti, propondo um ‘cabo-de-guerra’ para decidir seu destino. Ele, Jabuti, puxaria a ponta de um cipó da terra firme, enquanto o Jacaré puxaria de dentro d’água a outra ponta. Quem conseguisse arrastar o outro ganhava. Assim, ou ficava livre ou seria comido.

O Jacaré riu da pretensão e topou. “O otário se ferrou” – pensou, saboreando antecipadamente o sarapatel que iria comer. O Jabuti foi buscar o cipó no meio do mato, onde encontrou a Onça que veio com o mesmo papo do  Jacaré dizendo: eu vou te comer, estou com fome, sou mais forte, tenho o Gilmar Mendes que é meu e o boi não lambe. E o Jabuti: "não é assim não, dona Onça, tem que provar, o Ayres Brito está vivo". Aí, propôs um ‘cabo-de-guerra’. A Onça aceitou. Ele, Jabuti, puxava o cipó do rio. A Onça, da terra.

O Jabuti deixou, então, uma ponta do cipó com a Onça, em terra firme. Levou a outra para o Jacaré na água e escafedeu-se, saindo de fininho, deixando os dois brigando. Moral da história: quando teus inimigos são mais fortes do que tu, joga um contra o outro, em vez de bater de frente contra eles.

Se ouvisse a versão do Manoel Moura, Maquiavel se deliciaria. Couto de Magalhães concluiu que através dessas narrativas os índios da Amazônia ensinam profundas lições de vida. Para ele, a literatura indígena reflete alto grau de civilização, porque só um povo altamente civilizado mostra que a inteligência vence a força: um animal feio, fraco, lento, como o jabuti, ganha do jacaré, da onça, da anta, do veado.

Moura contou ainda a história do jabuti com a anta, mas não tenho mais espaço para reproduzi-la aqui. Um dia eu conto. Essa história mostra que o caminho para se conseguir justiça é ter paciência, saber esperar; a inteligência vence a truculência; a força do direito vale mais do que o direito da força.

Rapaz, esse Moura é mesmo danado! Pois não é que ele curou minha dor de cabeça! Deixo aqui para ele e para todos os escritores indígenas – os jabutis da literatura brasileira – os votos de sucesso nessa cruzada civilizatória. Os índios, um dia ainda civilizam o denominado homem branco.

P.S. – Nesse domingo, na hora do jogo do Brasil, estarei dentro de um avião, levando as histórias indígenas para um congresso em Bogotá, convidado pela Biblioteca Nacional da Colômbia.

P.S. - José Saramago, que nos deixou, foi também, ao seu modo, um jabuti da língua portuguesa, porque sua escrita está emprenhada de sabedoria oral. Em recente entrevista antes de morrer, ele declarou: o homem mais sábio que eu conheci foi o meu avô, que não lia nem escrevia.

_______________________

José Ribamar Bessa Freire é professor universitário (Uerj), reside no Rio há mais de 20 anos, assina coluna no Diário do Amazonas, de Manaus, sua terra natal, e mantém o blog Taqui Pra Ti . Colabora com a Agência Assaz Atroz

Ilustração: AIPC – Atrocious International Piracy of Cartoons

 


24 Comentário(s)

 

Miraci Oliveira de Souza
09:04 em 04/07/2010
Bessa, é fascinante conhecer e escuta e ainda ouvir essas Histórias dos nossos parentes. Aqui em Itacoatiara quando menino, já ouvia essa historinha do awiti (jabuti) que a irmã nena nos contava. Grandes inicios de noites.

 

MARIO ALMEIDA
12:41 em 29/06/2010
a literatura amazonida é rica com suas lendas e os seus contos, ainda mais interpretada por esta gfrande figura que é o Bessa, fico feliz, pois apareceu o destemido Bessa, e propagar esta nossa literatura; para mostrar que a nossa intelectualidade é tão forte que superam as grandes marcas do sul e sudeste do País, venham conheçer a Amazônia e conversem aliás tenha uma aula com Ribamar Bessa.

 

Shirley Vilhalva
07:21 em 29/06/2010
Parabéns aos nov@s escritor@s indigenas. Projeto Indio Surdo CAS/MS- CONADE FENEIS - UFSC

 

Ana Maria
07:18 em 29/06/2010
Foi um evento maravilhoso e uma oportunidade impar para conhecer alguns jabutis indígenas. Linda crônica Bessa. Você como sempre transformando palavras em poesias. Parabéns!!!

 

Mario Roberto Venere
22:26 em 25/06/2010
Parabens pelo trabalho, principalmente por disponibiliza-los para a sociedade. De Porto Velho - Rondônia.

 

Marco Antonio Gomes
19:06 em 25/06/2010
A única palavra que posso balbuciar sobre sua crônica:Maravilhosa!!! Vc também possui muita força nas letras e nas palavras.

 

Mary
18:52 em 25/06/2010
Professor, Seu Manoel curou também a minha dor de cabeça nesse dia, entre outras coisas. Durante o jantar, ele me deu o prazer de compartilhar comigo um pouco de sua profunda sabedoria. Olívio Jekupé também exalou sabedoria no encontro, com aquele jeito bem natural dele de falar a coisa mais certa da maneira mais simples. Realmente foi um dia especial. Beijos, MARY

 

Mário Augusto
21:33 em 22/06/2010
Após a leitura e a análise de alguns artigos produzidos por você, professor Bessa, chego a lógica e única conclusão : Meus parabéns pelo primoroso mister tão bem esculpido nas linhas que harmoniosamente bailam em folhas de celulose digital !

 

Angela
15:25 em 22/06/2010
Mano adorei e vou contar desde agora pa Bia e Bel que todos os dias me pedem histórias, mas ainda quero saber a do jabuti com a anta bj

 

ClaytonLuiz
14:46 em 22/06/2010
Está é de parabéns é o trabalho dessas pessoas anônimas fazem em prol da transmissão da cultura e sabedoria indígena. O TQPT faz banzeiro legal sobre o assunto. Não dizem que de grão em grão a galinha enche o papo. Poisé! Essa turma tá fazendo revolução em nossa cultura e no final vai dá pororoca.

 

Renata
08:43 em 22/06/2010
Oi Professor Bessa! Obrigada por mais essa linda crônica. Que um dia meus filhos possam, ler, teclar e ouvir essas narrativas! Eu, infelizmente, só tive acesso à 'La Fontaine' e 'Andersen'. Eu não tive o direito de conhecer essas histórias na infância....E que venha a Universidade Indígena! Parabéns e muito obrigada por ter me tirado da ignorância em que vivi (por mais de vinte anos dormindo o sono da "cultura branca européia universal") Um Grande Abraço,Renata

 

olivio Jekupe
06:23 em 22/06/2010
EU SOU UM DOS QUE ESTAVAM NA MESA E PUDE FALAR MINHAS IDÉIAS E QUE AOS POUCOS CHEGA A TODOS OS POVOS, INDIOS E NÃO INDIOS. POR ISSO QUERO DIZER QUE GOSTEI MUITO DO TEXTO, E ESPERO QUE NO PRÓXIMO ANO SEJA MELHOR E COM MAIS ESCRITORES E MAIS OUVINTES. www.oliviojekupe.blogspot.com

 

Edson Karcará-Urú/Arachás
20:58 em 21/06/2010
Aprendí com os meus ancestrais que,O som é sagra- do.Qdo se escreve, o Indígena põe na palavra escrita a tradição oral ancestral,e que hoje com a modernida- de, socializa-se, aquilo que ouvimos em volta das fo- gueiras.Observe e reverencie o saber e o sagrado contido nestes contos,vindos de avô p.neto,de pai p.filho.Parabéms aos parentes escritores indígenas.

 

Benjamin Baniwa
18:47 em 21/06/2010
Gostei da história. É legal mesmo. Fico pensando quando minha mãe, todas as noites contavam histórias para a gente, quando éramos pequenos. A gente ouvia até pegar no sono. outra noite a gente pedia pra ela contar de novo. .. ela contava outra vez. toda vez que a gente pedia ela contava. não cansava de repetir. Valeu Professor... valeu mesmo.

 

helton fesan
10:37 em 21/06/2010
Ta aí pra nós a resposta de incentivo à leitura que procuramos. O bralsil não lê, mas não lê o quê? Se for o Brasil a escrever, o brasil lê!

 

Hagá Romeu Pinto
09:32 em 21/06/2010
Prezado professor, conta essa história do Jabuti aos nossos políticos. Já deu certo uma vez com as urnas funerárias. Reúna a turma e conte. Quem sabe eu não consiga alguém em quem votar nesse próximo pleito. Pois é, a dúvida continua: devemos votar na situação e eleger um ser desprovido de inteligência como o “Omau Aziz”? Ou devemos votar na “oposição” e eleger o Cabo Pereira (agora com o Serafa, pode?)? Me tortura, chuta meu saco que eu aguento. Já um cenário desse, me mata!

 

Alexandre
09:12 em 21/06/2010
Moral da história: quando teus inimigos são mais fortes do que tu, joga um contra o outro, em vez de bater de frente contra eles. Essa eu não esqueço mais.

 

Cris Amaral
16:21 em 20/06/2010
Nosso querido Prof. Bessa voando na hora do jogo e eu aqui lendo essa maravilhosa crônica. A minha curiosidade foi aguçada por está interessante história e não consegui parar de lê-la; pois desejei saber o final da mesma. Percebo o toque sutil e perspicácia no tocante a vida e a melhor maneira de viver! Maquiavel de casco, amei!!!

 

Desconhecido
12:30 em 20/06/2010
LOUVÁVEL TODAS ESSAS ATIVIDADES INDÍGENAS. AS ESTÓRIAS INDÍGENAS SÃO POÇOS DE SABEDORIA E EXPERIÊNCIA ACUMULADA. SÓ NÃO ENTENDI PORQUE TANTAS ATIVIDADES LITERÁRIAS JUSTAMENTE NOS DIAS DA COPA DO MUNDO. ESPORTE TAMBÉM É CULTURA. É MARAVILHOSO VIBRAR POR NOSSO PAÍS

 

EDQUEIROZ
11:59 em 20/06/2010
OI BABÁ ESSA CRUZADA CIVILIZADORA DE FATO DEVE SER ABUSCA DE UMA GRANDE CONQUISTA , MAIS O QUE EU GOSTARIA DE SABER É SE OS INDIOS REALMENTE QUEREM SER CIVILIZADOS OU INDIOS, TENHO CÁ MINHAS DUVIDAS.

 

JUSCELINO ALENCAR
23:07 em 19/06/2010
É grande a importância da escrita, ela consegue orientar uma pessoa, duas, multidões, um país. Ela desperta, quando há necessidade de sairmos do comodismo, ela também pode anestesiar-nos quando se faz necessário, quando estamos nervosos. A escrita é a saída da ignorância, do domínio, da esperteza do dono do armazém, do falsário, do malandro, das doenças, da pobreza... com conhecimentos galgamos novos horizontes. Parabéns, índios de todo o Brasil... o caminho é este. Parabéns professor Bessa,

 

Blanca Dian
22:56 em 19/06/2010
Delicioso!!!!!!

 

Andrea Sales
21:50 em 19/06/2010
Parabéns a tod@s escritores indígenas por todas as palavras carregadas de sabedoria que regam nossos olhos, quando as lemos, e nossos ouvidos quando estamos juntos. Obrigada Bessa por compartilhar conosco mais este presente de história indígena. Ps...valeu Saramargo! Que suas belas palavras ainda despertem alguns brasileiros da cegueira branca em que estão inseridos em relação aos indígenas.

 

JORGE DA SILVA
21:06 em 19/06/2010
Verdadeiramente, a literatura é a palavra escrita, como diz a expressão: “palavra é cosmético, ou veneno, ou remédio, já temos muito veneno escrito deixa vir remédio, para todos, deixa vir literatura indígena para quem quer ler”.

 

 

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