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Manaus, Quarta-feira, 08 de setembro de 2010 |
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VAI LAVAR TEU TCHEREMBÓ
José Ribamar Bessa Freire
28/02/2010 - Diário do Amazonas
Proponho aos leitores e, com todo respeito, às leitoras, decifrar o seguinte enigma. Os jornais noticiaram que três políticos da base aliada, que comem na mesma panela, querem ser governador do Amazonas. Os três saíram em busca de apoio. Amazonino Mendes (PTB – vixe, vixe!), prefeito de Manaus, procurou o Lula, na maior cara de pau. Omar Aziz (PMN– viiiiiixe!), vice-governador, se agarrou ao seu chefe Eduardo Braga (PMDB–huuugo, rauuul!). Diante desse quadro imprevisível, o ministro Alfredo Nascimento (PR–puts!) convidou o ex-prefeito Serafim Correa (PSB) a ser seu vice.
As respostas dadas aos três concorrentes foram misteriosas. Lula fez um gesto com os quatro dedos de sua mão e, depois de alguns “veja bem”, respondeu assim, na lata: - Rhesó-rhesó, Amazonino. O governador Eduardo Braga olhou se havia crianças e damas no recinto (não havia), passou um pouco de vaselina e foi sincero com Omar: - Chukui indearã. Já o Serafim, que não come nessa panela, mediu o Cabo Pereira de cima a baixo e, correndo o risco de parecer pornográfico, sinalizou: - Maã mɨnẽ ató niĩ.
O que cada um deles quis dizer? Por que falaram assim? O que essas respostas têm em comum? Enquanto isso não for esclarecido, ninguém entenderá o quadro político eleitoral do Amazonas. É como a passagem bíblica do Nabucodonosor e do rei Baltazar: precisa de um profeta, que nem Daniel, para decifrar as palavras misteriosas ‘Mane, Tecel, Fares’ escritas na parede. Não sou profeta, mas prometo explicar tudo. Peço apenas um pouco de paciência, porque vou contar, antes, como é que matei a charada. Mas só contarei depois de abrir um parêntese.
(Perdido no beco)
(Meu amigo, o poeta Thiago de Mello, diz que sou disperso, dou muitas voltas para contar uma história, caminho por estradas secundárias, me perco por becos e vielas e demoro a entrar na avenida central. Ele confessa, no entanto, fazer o mesmo, embora em menor grau. Diz que Pablo Neruda o censurava carinhosamente por abandonar o tronco da árvore e desviar pelos galhos: “Hermano, tu te pierdes por las ramas”).
Fecho esse parêntese. Mas abro um segundo (Desço por outro galho para dizer que nessa quinta-feira, fui ao lançamento do livro ‘Melhores Poemas’ de Thiago de Mello, na Saraiva Megastore, no Manauara Shopping. Só não digo que, na ocasião, houve também o lançamento do CD ‘Canta Amazônia’ para não me desviar por um terceiro galho). Fecho e, agora sim, conto que estive em Manaus, durante uma semana, o que me permitiu decifrar as respostas dos três políticos.
O leitor que por acaso frequenta esse espaço dominical não sabe que sou consultor do MEC para a questão de educação indígena. Mas foi por isso que sugeriram meu nome para ministrar aulas de História da Amazônia num projeto pioneiro que a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) está desenvolvendo. Trata-se do Curso de Licenciatura Intercultural em Pedagogia, bancado pela reitora Marilene Correa e coordenado pela professora Graça Barreto. Sua primeira etapa aconteceu em agosto de 2009.
A segunda etapa do Curso começou no dia 11 de janeiro, com vários módulos, entre os quais o de História da Amazônia, organizado e planejado pela professora Dorinethe Bentes, com a contribuição desse locutor que vos fala. Durante uma semana, demos aula para 2615 alunos - 745 deles são indígenas - através do Programa de Vídeo Conferência, atingindo mais de 400 localidades em 52 municípios do Amazonas.
Vai cheirar teu pé
A tecnologia não precisa ser muito sofisticada para que eu fique deslumbrado. Mas é maravilhosa essa possibilidade de um professor dar aulas para milhares de alunos, ao mesmo tempo, a partir de uma Plataforma Tecnológica IP-TV (não me pergunta que diabo é isso, porque não sei responder), levando informações de qualidade para dezenas de salas de aula, com ajuda de imagens, filmes, documentários, clipes, ilustrações, animações e textos, além de acesso ao banco mundial de informações (internet).
A coisa funciona assim. Cada sala está equipada com vários hardwares, através dos quais os alunos acompanham as aulas e realizam as atividades. Você, como professor titular, está palestrando em Manaus. Os alunos estão espalhados em salas de 52 municípios, que contam com a presença de dois professores assistentes, com formação específica, totalizando 104 professores assistentes. Eles acompanham os alunos e articulam o conteúdo com a temática local, orientando a execução dos trabalhos.
Enquanto a gente dava aula, um telão ia registrando em tempo real a reação dos alunos, que redigiam textos com perguntas, observações, dúvidas. Depois da nossa explanação, aparecia no telão as imagens de uma sala em um município. O pessoal vibrava como torcida de futebol e fazia perguntas muito inteligentes, ao vivo, que a gente respondia. Depois outra sala em outro município. E assim por diante. Há muita interação entre os diversos sujeitos do processo.
Enigma decifrado

Oxalá a reitora Marilene Correa consiga ampliar esse projeto que muda o conceito do que é ‘presencial’ e coloca na mesma sala alunos indígenas e não-indígenas, com a valorização de todos os saberes e com uma perspectiva intercultural que favorece a troca de conhecimentos entre culturas diferentes. O curso permite também ampliar os espaços do uso social das línguas indígenas. Sentados ao nosso lado, quatro ou cinco índios resumiam o conteúdo em suas respectivas línguas para melhor compreensão dos alunos indígenas em sala de aula.
Foi ai, na hora da merenda, que descobri o significado das palavras ditas por Lula, Dudu Braga e Serafim aos que lhes pediram apoio. O sateré-mawé Selumiel Michilles Alencar, coordenador da escola indígena, disse o que significava Rhesó-rhesó em sua língua. Os dois Baniwa - Maria do Rosário Martins e Edilson, esse último doutorando em Lingüística pela UnB - esclareceram o que era Chukui indearã, em nheengatu. E João Batista Melo, tariana, traduziu da língua tukano a expressão Maã mɨnẽ ató niĩ.
Todas essas expressões indígenas são a tradução daquilo que os tikuna dizem em sua língua: ye’a’ma na Ũmare ou daquilo que manifestamos em português quando dizemos: - ‘vai te catar’, ‘vai catar coquinho’, ‘vai cheirar teu pé’, ‘vai chupar fiofó de passarinho’. Enfim, os índios citados traduziram para suas línguas aquilo que o amazonense resume em uma expressão: - “taqui pra ti”. Foi isso que os três candidatos a candidatos ouviram quando pediram apoio. Falta apenas o eleitor dar pra eles um sonoro taquiprati em língua guarani: “vai lavar teu tcherembó’.
10 Comentário(s)
Esteban Celedón 19:50 em 03/03/2010 | | Como não falo nenhuma lingua indígena, pretendo responder com meu pandeiro, seja na sala de aula ou na vídeo conferência. Fico feliz de ver a tecnologia a serviço da educação, da aproximação, da inclusão. | | Gleice Mattos 13:18 em 02/03/2010 | | EAD é o melhor caminho para se chegar ao quatro cantos do mundo! Quem dera essa iniciativa fosse multiplicada e acolhida por muitos municípios, de preferência sem fins eleitoreiros. Com liberdade de ensino e boa formação dos alunos certamente outros tantos candidato ganhariam um tremendo "taqui pra ti"! Adorei a experiência, adorei a crônica! | | antenor 00:48 em 02/03/2010 | | Movimento Espírita deixou um novo comentário sobre a sua postagem "VAI LAVAR TEU TCHEREMBÓ!":
fascnante!
como brasileiro penso queo Brasil realmente é um potencia quando acompanho o Assaz Atroz e seus incríveis colaboradores...
Obrigado!
Voces são nossa esperança, a chama qua mantem a gente na direção da liberdade creativa deste pais.
Postado por Movimento Espírita no blog agência assaz atroz (pressaa) - redação | | Desconhecido 00:44 em 02/03/2010 | | Caro professor Bessa, finalmente postei a sua maravilhosa crônica. Ilustrei de forma que o leitor continue curioso, como deve ficar em relação ao título.
Sua crônica me fez lembrar um artigo meu de tempos atrás: Sioux, tupiniquins e caetés. Fernando (Assaz Atroz)
| | rogerio teles 17:00 em 01/03/2010 | | Você é nossa vingança contra os que nos sacaneiam, por meio de seus artigos, pra mim maravilhosos, que é prático e esclarecedor, torna-se a nossa voz em desfgesa dos interesses sociais, continue assim.Parabéns | | André Ricardo Costa 14:52 em 01/03/2010 | | Acho que nossa educação, que está na rabeira da rabeira (pior estado do Brasil, que é o pior país), ganharia muito se esse método fosse usado para todo o Ensino Médio... | | ALMIR BARROS CARLOS 21:56 em 28/02/2010 | | Realmente não estava difícil de entender, mas...o que responderam os que foram pedir apoio? Aceitaram ? | | João Barros Carlos 15:49 em 28/02/2010 | | Babá,
nesta crônica o poeta Thiago de Mello tem muita razão, "viajaste" demais. Em outras crônicas não achei.
Foi mal. | | Roberta Ferrari A. C. Sertã 11:32 em 28/02/2010 | | que trabalho fantástico!
um dos poucos usos inteligentes dessas tecnologias que poderiam ser maravilhosas para a humanidade, mas não são.
Mas este trabalho é lindo. Parabéns a todos que participaram deste evento. Que assim prossigam seus caminhos, com sabedoria e trazendo alegria para todas as nossas crianças.
Eu daqui, agradeço profundamente! | | Viviane Silva dos Santos 01:42 em 28/02/2010 | | Passei por aqui e tentei matar a charada. Cheguei perto, pois não era difícil imaginar o que estes políticos diriam uns para os outros. Quanto a vídeo conferência, esta permite levar a diversos grupos, informação e facilita um debate em tempo real de temas super interessantes como o que foi trabalhado, com a vibração de quem participa, isto motiva a fazer desta, uma ferramenta de auxílio na educação de populações que nunca teriam esta oportunidade. | |
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