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TAQUI PRA TI
A CHARRETE DO BERINHO
José Ribamar Bessa Freire
22/08/2004 -
Diário do Amazonas
Estou há uma semana no interior de Santa Catarina, convivendo com índios guarani Mbyá e Nhandeva, num curso de formação de professores indígenas. Tento entender os mistérios da vida, com a ajuda de Tupã Werá, um sábio de 93 anos, da aldeia M´Biguaçu. Faz frio. Não leio jornais. Não vejo televisão. Não escuto rádio. Mas de repente, para escrever a coluna, sinto necessidade de saber o que aconteceu nesses últimos dias no mundo dos brancos e dos negões. Três fatos importantíssimos me atormentam a alma, atiçando minha curiosidade.

Primeiro, meu pensamento sonha. Sonha e voa para o INPA, lá no Aleixo. Fico imaginando como deve ter sido o debate entre os candidatos a prefeito de Manaus, na quarta-feira, para discutir a questão ambiental na nossa cidade, e se houve alguma repercussão disso no horário eleitoral gratuito. Será que agora chegou mesmo a vez de lutar por uma Manaus melhor?

Depois, rezo pela minha nova heroína, a delegada Graça Malheiros, fiel depositária de nossas esperanças, pedindo a Deus que lhe dê sabedoria para descobrir todas as ramificações da quadrilha chefiada pelo Cordeirinho, e lhe dê coragem para botar no toco de todos eles, inclusive do lobo mau.

Finalmente, enquanto seu lobo não vem – está pronto seu lobo? – me pergunto se a Maria Eduarda conseguiu seduzir o Viriato e, nesse caso, queria muito ver como é que ficou a cara de babaca do deputado Thomas Jefferson (PFL – viche! viche!).

De um orelhão, telefono para o repórter Tambaqui, em Manaus, em busca de notícias. A secretária eletrônica informa que, com a Lei do Defeso, o Tambaca anda meio desaparecido. Ligo, então, para o ´Pão Molhado´, aluno da Faculdade Dom Bosco e um fornecedor de fofocas dessa coluna:

- Alô! É o ´Bread´? Rapaz, me conta: a Maria Eduarda já papou o Viriato?

- Eu sei lá quem é Maria Eduarda!!!

- Como não sabe? É a Duda, da novela ´Senhora do Destino´!

- Desculpa, tio. Eu sou espada. Não vejo novela.

O ´Pão Molhado´, desinformado, é um alienado e pensa que novela é coisa de veado. Ele também acha que a ´Operação Albatroz´, com seus capítulos e versões, é uma novela criadora de ilusões. Rimar, até que rima, mas não é uma solução, porque eu fico sem informação. Decido, então, explorar o grande tema sobre o qual escrevo toda vez que estou sem assunto: as presepadas do Berinho.

Fazia quatro anos que eu não via o Teatro Amazonas. Aproveitei minha recente visita à cidade para passar pelo bar do Armando, em companhia do ´Pão Molhado´ e da Maria do Céu, minha irmã caçula. Peço uma caipirinha e, antes de começar a beber, ouço um trote.

- Tololoc! Tololoc! Tololoc!

Levanto os olhos. Vejo um cavalo, um pangaré – coitado! – com cara de fome, meio mancando, puxando uma charrete. Dentro dela, vinha um casal: ele, um lorde, vestido de fraque e cartola; ela, uma lady, com um vestido vaporoso e um chapéu da belle époque. “Égua! Que meleca é essa?” indago, assustado. Esfrego os olhos. Torno a olhar. O lorde continua lá na charrete e agora me dá um adeusinho.

- Pera lá! Não estou chirrado. Ou entrei na máquina do tempo e voltei ao passado, ou estou tendo alucinações. Vocês estão vendo o mesmo que eu?”

O ´Pão Molhado´, de pura sacanagem, jura que não viu nada. Mas Maria do Céu me explica:

- Deixa de ser bobinho. Essa é a charrete do Berinho, que dá voltas no Teatro Amazonas por apenas R$1,00. Aquelas pessoas alugaram roupas antigas só para tirar fotos. Essa é mais uma iniciativa da Secretaria de Cultura do Estado.

Perplexo, indago: - “Maninha, quem é o devoto de Santa Etelvina que paga um mico desses?” Ela me responde, desafiadoramente: - “Eu. Euzinha. Já andei na charrete. Pode escrever que acendo velas no túmulo da santa Teté. Andei na charrete. E daí? Tenho personalidade. Não me deixo influenciar por opinião de terceiros”.

“Terceiros”, leitor, é este locutor que vos fala. Fico com pena de minhas duas sobrinhas, quando seus colegas de escola souberem que o lazer da mãe delas é desfilar na charrete do Berinho, vestida com uma roupa ri-dí-cu-la. Caminho pela praça até o ponto de onde sai a tal carruagem. Quase tenho um choque anafilático, vendo cartazes em inglês. Isso mesmo, leitor, em inglês! Se você não acredita, vá lá e leia:

- WARNING! Restrict area. Carriages only.

Intrigado, me pergunto por que o Berinho mandou colocar aviso, em inglês, anunciando que só charrete pode passar. A quem ele está se dirigindo? Quem é que ele quer atingir com essa mensagem? Olho para um lado e paro o outro, não vejo nenhum gringo, só tem caboco suburucu, como eu e tu, leitor. Desvio o olhar para a outra extremidade da praça, ali onde morava o Isaías, contrabandista, vendedor de cigarro mentol e de uísque duvidoso. Tenho um novo choque: um letreiro em inglês anuncia: “African House”.

Um lorde, uma lady, uma charrete, fraques, cartolas, avisos em inglês por toda parte: meu Deus, estarei eu em Londres? Começo a pensar em ingles: “oh, my God, mister Rouberios wants to fuck the cartola of amazonian people”. De repente, um milagre: vejo o cavalo, com o olho fixo no cartaz, lendo o que estava escrito só para ele, avisando que podia passar pelo local. Compreendi, então, a profunda verdade. O Berinho escreveu pro cavalo. Acontece que o animal que puxa a charrete do Berinho é filho legítimo do cavalo do Chico Buarque, aquele que “só falava inglês”. Foi comprado pela Secretaria de Cultura numa licitação organizada pelo Cordeirinho. Por isso, custou tão caro.

No final da visita, a Céu me provoca: - “Fala a verdade. O largo ficou ou não ficou mais bonito?”

Não entendi: - “Largo? Que largo? Onde é que tem largo? Que meleca é essa?”

Ela explica devagarzinho, separando as sílabas: o lar-go de São Se-bas-ti-ão on-de nós es-ta-mos”.

Vendo minha cara de égua, o Pão Molhado explica que a praça não é mais praça, foi elevada à categoria de largo, porque o Secretário de Cultura, o Berinho, tem vergonha de sua caboclitude e morre de inveja do Sul Maravilha. São Paulo tem o largo do Arouche. O Rio tem o largo do Machado. Manaus não podia ficar atrás. Precisava se modernizar. Como Berinho quer ser inglês, o próximo passo vai ser transformar a ex-praça São Sebastião, atual largo de São Sebastião, em Saint Sebastian Square.

Há dez anos à frente da Secretaria, Berinho não sabe o que é cultura. Ele pensa que cultura é esse verniz turístico, esse ornamento superficial, que dá um falso brilho às coisas. Para ele, a história é o pitoresco, o anedótico. Me poupa, Mister Rouberios. Vai pagar os direitos trabalhistas dos cantores do Coral do Amazonas, vê se cumpre o termo de ajuste de conduta assinado com o dr. Patrick Maia Merísio, da Procuradoria Regional do Trabalho e depois a gente se fala.

P.S. – A Maria do céu é hipercrítica em relação à política cultural do Amazonas. Por isso, fica mais escandaloso o seu passeio na charrete do Berinho. Além de desmoralizar seu irmão.

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