Ao
meu querido amigo,
Stéfano Genaro Novellino, que
brincou com todas essas mulheres
Todos os anos, durante a folia, reencontro mulheres com quem brinquei
em outros carnavais. Sem querer me gabar, foram tantas, que até perdi
a conta. Tem de tudo: honradas, santas, despudoradas, cínicas, tristes,
da vida alegre, da pá virada. Com umas, o contato foi tão intenso, que
delas ainda guardo o jeito de ser, de olhar, de rir, de requebrar, de
amar. Com outras, foi tão fugaz, que resta apenas vaga lembrança. A todas
elas, dedico esta crônica, onde faço confidências sobre nosso relacionamento.
Omito nomes, às vezes, para preservá-las. O leitor que tente adivinhar
quem é a bacana, a falsa, a vigarista...
NÃO USA CALCINHA
A bacana é tão sacana, que não usa calcinha, não usa vestido, não usa
calção. Calção ? É isso mesmo. Mulher da Martinica não usa calção, porque
com toda razão, só faz o que manda o seu coração, o que rima com verão
e é uma solução. E a outra, a falsa ? Se fosse sincera, seria madame,
com lindo apartamento na Ponta Negra, porteiro, elevador, ar refrigerado
em dias de calor. A vigarista, alta funcionária da Secretaria de Cultura,
" trabalha " de fazer dó: vai ao dentista quando dá uma hora, às duas
toma café com o Berinho, às três vai à modista, às quatro assina o ponto
e dá no pé. Parece com a Pepita de Guadalajara, não tem vergonha na cara.
Em compensação, às vezes encontro nos carnavais mulheres de outro calibre.
Uma delas é lavadeira - a Maria - sempre com uma lata d´água na cabeça,
lá vai ela, subindo o morro, não se cansa, leva pela mão uma criança.
A outra é Conceição, a sonhadora, de quem me lembro muito bem, porque
vivia sonhando com coisas que o morro não tem. A terceira é uma mulher
de verdade, achava bonito não ter um jaraqui pra comer, ai que saudades
que tenho dela, aquilo sim é que era mulher. A quarta é uma hindu, minha
linda hindu, que nasceu em Calcultá, e achou melhor ser minha esposa do
que ser escrava de um rajá.
A última vez que brinquei com a endiabrada Genoveva foi em Manaus, no
carnaval de 1967, no baile do Sheik.Gritei: " Genoveva, vem cá ! Este
ano eu me acabo". Depois, nunca mais a vi. Às vezes, vejo na passarela
sua amiga, a mulata bossa-nova, que caiu no rali-gali. Agora, quem encontro
sempre, todo ano, é a mulata assanhada, que passa sem graça, fazendo pirraça,
fingindo inocente, tirando o sossego da gente. Aí, dou-lhe uma cantada,
tomando emprestado a voz de Dagmar Feitosa: " Taí, eu fiz tudo pra você
gostar de mim, mas meu bem não faça assim comigo não, você tem que me
dar seu coração ".
O trágico, porém, é o contato com mulheres tristes. A Camélia, por exemplo,
caiu do galho, deu dois suspiros e morreu de dispnéia. A Anália recusou
meus convites insistentes, deixando-me ir sozinho pra Maracangalha. E
a Luzia, meu Deus ? Eu suplicava: " Anda, Luzia. Pega um pandeiro e vem
pro carnaval. Apronta tua fantasia, Luzia, alegra o teu olhar profundo,
que essa tristeza te faz muito mal ". Mas a tristeza dela contagiou até
o Arlequim, que ficou chorando, por amor da Colombina, no meio da multidão,
da mesma forma que o Pierrô apaixonado, que vivia só cantando.
A MORTE DA SAUDADE
Em cada carnaval, minha galera fica repleta de cabrochas, mais bonitas
do que qualquer miss - Adalgiza, Terezinha Morango e Marta Rocha, mas
é bom que se diga : todas são solteiras. Não sou o pirata da perna-de-pau,
que canta mulher casada, embore encontre sempre, em todos os bailes carnavalescos,
a mulher do Rui. O pessoal vive me azucrinando : - Ui, ui, ui! Roubaram
a mulher do Rui. Respondo na hora : - Se pensa que fui eu, juro que eu
não fui. Prefiro um brotinho encantador, a quem procuro dar uma aula de
amor : bê-a-bá, chega um pouquinho pra cá, bê-é-bé, vou te mostrar como
é ...
Como é que consigo encontrar esse mulherio todo, em cada carnaval ? Eu
explico. O vovô ia a cavalo visitar vovó. O papai, de bicicleta, para
ver dona Elisa, ora vejam só ! Hoje tudo está mudado. Vou de moto, correndo
pela estrada além. Boto a caboquinha na garupa e digo : - Menina vai,
com jeito vai, se não um dia, a calça cai. Se alguma dessas mulheres me
esnoba, entro num bar e peço : - Garçon, traga mais uma rodada por favor,
eu quero me embriagar, a mulher que eu tinha foi simbora. No entanto,
reconheço quando sou derrotado: - Nem um chope que eu bebi, nem um chope,
conseguiu me libertar dessa mulher.
Ah, leitor, quem sabe, sabe, conhece bem, como é gostoso, gostar de alguém,
sobretudo quando esse alguém se chama Filó ou Iaiá, ausentes de vários
carnavais. Nunca mais vi a Filó, com quem mantinha papos intermináveis
: " Oh, Filomena, se eu fosse como tu, deixava essa mania de meter dedo
no Oh Filomena, se eu fosse como tu, etc.etc ". A Iaiá também desapareceu.
Brinquei com ela pela última vez numa batalha de confete na Eduardo Ribeiro
: " Iaiá, cadê o jarro ? " O jarro quebrou, a flor murchou, a jardineira
ficou triste. Que maldade ! No jarro de barro, eu havia plantado a saudade.
EU QUERO MAMAR
Devia colocar um ponto final aqui e terminar a crônica, com a morte da
saudade. No entanto, sigo em frente, porque não disse ainda o que queria
dizer. Na realidade, me deixei empolgar pelas mulheres, mas o que pretendia
mesmo era compartilhar contigo, leitor, algumas reflexões instigantes
sobre música de carnaval, desenvolvidas pelo antropólogo Roberto Da Matta,
em dois livros : " Carnaval, Malandros e Heróis ", de 1980 e " Contos
de Mentiroso. Sete ensaios de antropologia brasileira ", de 1993.
Esse antropólogo lembra que não existe nenhum tema que não tenha sido
abordado, com sofisticação e inteligência, pelas letras da música de carnaval,
que dramatizam a vida política, as relações sociais, o poder, as mulheres,
o amor, o ciúme, a dor de corno, a vingança, o trabalho, o lazer, a tristeza,
o alcoolismo, a morte. O Brasil, inteirinho, cabe dentro das marchinhas
de carnaval. Num país com taxas altas de analfabetismo, a música popular
- diz Roberto da Matta - é tão importante como a literatura erudita nas
sociedades européias.
As músicas de carnaval dramatizam a corrupção, a bajulação política, o
cordão dos puxa-sacos que cada vez aumenta mais, o colonialismo, o pecado,
o adultério, a velhice e até mesmo o preconceito social, manifestado em
músicas racistas, como " o teu cabelo não nega ".e em outras que ridicularizam
o homossexualismo : a cabeleira do Zezé ou a Maria Sapatão. Realmente,
é possível saber o que os brasileiros pensam e fazem, analisando as marchinhas
que tiveram muito sucesso, sobretudo entre os anos 1930 e 1960, algumas
das quais atravessaram o tempo, mantendo surpreendente atualidade.
Podemos, portanto, " ler " o Brasil e enxergar o que acontece aqui, descobrindo
o que dizem as letras das músicas de carnaval, porque através delas a
sociedade brasileira mostra a sua cara, manifestando concretamente os
seus medos, desejos e valores. É o que Roberto Da Matta faz, num dos seus
ensaios magistrais, intitulado " O poder mágico da música de carnaval
- Decifrando Mamãe eu quero ". Essa música, canalha, maliciosa, carnavalesca,
revela um mundo repleto de sentido e intencionalidade, despertando uma
série de associações entre mamãe, mamar e mamata, o que remete à negociata,
negócio escuso realizado sob o patrocínio de algum governante.
Ou seja, leitor, este ano não vai ser igual àquele que passou, eu não
brinquei e você também não brincou, de forma politicamente correta. Neste
ano, está combinado, na hora de cantar o hino oficial do IADC - ´mamãe
eu quero mamar´ - quem é que enxergaremos, de mamadeira e chupeta ? Na
batalha de confete do porto de Manaus, ele estará pedindo ao Negão : "
Ei você aí, me dá um dinheiro ai ". Ou dizendo pro Eduardo Braga : " Não
vai dar, não vai dar não, você vai ver a grande confusão ". Quem estará,
todo recauchutado, fantasiado de ministro dos Transportes ? Será que detrás
da máscara de ´companheiro´ existe um ´cabo´ escondido?
Nesse ano, leitor, o nosso carnaval vai ser na base do berimbau e do ´olha
aqui, seu Nicolau´, uma marchinha de 1938. Na hora que gritarem : " pega
o lalau, pega o lalau " , não fica um, meu irmão. Então, nós sabemos muito
bem de quem lembraremos. A água lava, lava, lava tudo - cantava a Emilinha
Borba, nos anos cinquenta. A água só não lava a nossa língua e a nossa
memória. A vontade de viver e a energia inesgotável do povo brasileiro,
que se manifestam na festa mais popular do mundo, podem ser canalizadas
um dia para mudar o nosso país.(Esse final execrável me lembra os manifestos
petistas que eu escrevia nos anos 80. É execrável, mas foi o que encontrei
nos arquivos da minha memória. Saudades daqueles tempos. Bom carnaval
para todos os leitores !)
P.S. Quero ver a Viradouro,
entrando no sambódromo, cantando : " Oh virgem Santa, Olhai por nós, Olhai
por nós, oh Virgem Santa, pois precisamos de paz ". Cada um reza com o
que tem de melhor, no caso das mulatas, sacudindo o bum-bum e mostrando
os peitos. Só para rimar, não acho isso um desrespeito.
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