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TAQUI PRA TI
Balada da Vila Rezende
José Ribamar Bessa Freire
20/03/2005 -
Diário do Amazonas

O bonde do tempo trafega pelo bairro de Aparecida. Desço na parada da Vila Rezende, em 1950. Visito, uma por uma, suas 16 casas , oito de alvenaria , com dois andares , e oito de madeira , com um quartinho e uma cozinha . Todas elas têm “a mesma fachada nua, as mesmas janelas tristes ”. Ai comadre , “há tanta angústia antiga em cada prédio , em cada pedra nua e gasta ” , que me dá uma vontade danada de ficar relendo as histórias da Cabrita Rolimar e da Vaca Cristina, cantadas em versos por Luiz Bacellar, o nosso poeta maior . Peço-lhe, comadre , que me acompanhe nessas visitas , e escute outras histórias , desta vez narradas em prosa .

Na casa 1, encontro dona Aracy, casada com um juiz de direito , Mozart Martins. Um dia , ele se engasgou com uma espinha de jaraqui, os vizinhos acudiram e rezaram juntos , em voz alta : “ São Brás Bispo , a palavra que Deus disse, que essa espinha descesse ou subisse”. Desceu, mas foi empurrada por banana e farinha .

A casa 2 é o lar-doce-lar da Dona Nina, seu Edílson e sua filha Elaine Ramos . Na parede da sala , pendurada, uma tabuleta de madeira , com um machado cravado num tronco e a frase : “Sê como o sândalo que perfuma o machado que o fere”. Seu Edílson gosta de usar silaque – um blusão de algodão , que lhe dá um ar de explorador britânico . Ele capricha no perfume Royal Briar, vendido em conta-gotas , nas festas do Careiro .

A vizinha da casa 3 é Berta Mota , dona Bebé, casada com o João Bangu, da Alfaiataria Poli. Ela toca piano no Grande Hotel e no mezanino do Bar Americano , um repertório que inclui o samba-canção estilo dor-de-corno “ Ninguém me ama , ninguém me queeeeer” e o sucesso da Vanja Orico no filme ‘O Cangaceiro ': “Olê, mulhé rendeira , Olê, mulhé rendá!”

Dona Cecília, casada com o seu Orestes Magalhães, mora na casa 4. Ele pega todo dia o bonde , e vai pro Tribunal de Justiça , onde é bibliotecário . Na parede da sala , está o seu diploma de datilografia, conferido pela Escola Royal e assinado por dona Hilma Thury.

Entramos na casa 5, de cujo banheiro sai uma voz melodiosa: “Vem, oh , cigana bonitaaaa, ler o meu segredo ”. Toda a vila escuta , hipnotizada, o gogó de ouro de Aparecida, Estevão Santos , sua voz , seu violão , cantando Zíngara . Ele mora aqui , com sua mãe , dona Marina , e seu pai , Estevão.

Dona Cândida Azevedo, da casa 6, mora no lado pobre . Lava roupa pro lado rico da vila , enquanto seus filhos Aníbal, Silvio e Hélio roubam goiaba no quintal da Maroca – a Maria do Capinzal . Aníbal, o ‘ tamborete ', é baixinho, gordinho e roliço . Dizem que ele passou muitas vezes por debaixo da mesa , por isso não cresceu. É office-boy da Quatro e Quatrocentos. Dentro de alguns anos , vai montar loja de móveis na rua da Instalação .

A moradora da casa 7, dona Maria Rosa Pinheiro , tem uma filha – a Socorro . Mais tarde , ela vai se mudar para um chalé no beco da Bosta , onde ao entardecer brincará de “ Larga , Estreita ou Estreitinha” sendo larga um aperto de mão , estreita um abraço e estreitinha, um beijo .

Seu Raul, funcionário do Banco Ultramarino, canta de galo na casa 8. Desde pequenininho, toma umas e outras. Dizem que ele bebeu cerveja XPTO na mamadeira , mas agora ele gosta mesmo é de cocal. Costuma dizer : “A única pessoa que me viu sóbrio foi a parteira ”.

A casa 9, às vezes , fica desfalcada de seu chefe , trabalhador , que pilota um motor de linha para o interior . O Comandante Bem-te-vi , de nome Ignácio Bastos , educou muito bem seus filhos – o Ignafran e a Ignaran. Mora também uma enteada gostosinha apelidada de “Pato-no-tucupi”, porque só veste roupa de cor amarela . Abro o seu guarda-roupa e vejo, amarelando: vestido tomara-que-caia sem mangas e com cavas grandes , saia plissada tipo sanfona , vestido de organdi e uma saia godê , com várias anáguas e combinações .

Seu Davi, leiloeiro , mata um Golias por dia na casa 10. Gente finíssima. O filho , Davizinho, puxou o pai . Vive escondido num terreno detrás da casa do seu Duca, sapateiro , cognominado Duca Peidão. É lá que Davizinho acocha a Lizete, uma caboquinha que só usa talco Cashmere Bouquet, comprado nos marreteiros da rua dos Barés.

A casa 11 está ocupada pelo paraense Samuel Ohana, comedor de carne de jacaré . Diariamente, quando na Rádio Difusora começa o prefixo musical da crônica de Josué Cláudio de Souza ( pai ) – tam-tam-tam-tam - seu Samuel grita pra toda vila ouvir : “ Meio dia , macaco assobia , panela no fogo , barriga , vazia ”.

Dona Maria, filha do seu Antonico, proprietário da Garagem Rio Negro , que explora os carros de praça , casou com o cearense João Militão. Na cozinha da casa 12, ela faz um salame de cupuaçu , enrolado com pedaços de castanha torrada , pra comunista nenhum botar defeito .

O seu Jauapery, pai do Paulo Bacurau e do Carlos, que morreu depois que mudaram pra Xavier de Mendonça, mora na casa 13. Ele é chiquérrimo, até porque só veste terno de casimira , camisa de fio helanca ou volta-ao-mundo e sapato bicolor , marrom e branco . Quando fala , em cada frase , usa a expressão “ até porque ”.

A vizinha da casa 14 é Dona Altina, casada com o Manoel Barros . Com ela , vive de favor uma afilhada que ficou no caritó e – parece – nunca furufou. A afilhada reza todos os dias uma oração que toda vila Rezende conhece: “Valei-me, meu Santo Antônio, valei-me como podeis, já tenho teia de aranha , naquilo que vós sabeis”.

É na casa 15 que dona Zuzu festeja os aniversários de seus filhos Nadir e Armando, empregado da Nestlé, com um senhor bolo de macaxeira e muita puxa-puxa de mangarataia. “ Aniversário é bolo com guaraná Luséia, o resto é prosopopéia ”, ela sentencia.

Dona Dudu, esposa do dentista Abelardo Santos , todo dia , às 17 horas , com uma pontualidade britânica , sai da casa 16, levando uma cuia de Monte Alegre , pintada , e vai tomar tacacá na banca da dona Alvina. Com o palitinho, pesca o jambú e espeta o camarão seco . Depois , no maior suadouro, se abana com um leque sobre cujas varetas cobertas de papel estão pintados pássaros e flores .

Houve mudanças. Novos moradores chegaram. A família Peixoto, com um montão de filhos , e dona Maria Amélia, mãe da Lenir e do Leno, tia da Lene e da Rose, que deram nome às úlceras do Marcelo Magaldi. Um dia , o Leno foi comungar , tirou a hóstia consagrada da boca , guardou-a no bolso , e voltou pra casa , dizem que por onde ele andou o chão ficou salpicado de sangue . A vila recebeu ainda dona Nega , Claudete, Capilé, Elita e Lucila, além da dona Guiomar, mãe do ex-senador João Bosco, do Domingos e do Zé Amazonas . Finalmente , imaginamos uma casa fictícia , de número 17, para abrigar meu amigo Rubi Rola , que gosta de ver seu nome impresso nessa coluna .

Ai comadre , cadê essa Manaus que se foi no bonde do tempo e que se perdeu na lembrança ? Vamos pedir ao Bacellar, comadre , pra poetar a balada da Vila Rezende.

P.S. Lula governa há 809 dias e até hoje ainda não conseguiu homologar a demarcação , em áreas contínuas, da Terra Indígena Raposa / Serra do Sol .


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